poesia


Já estamos todos mortos
quando vivos nestas poses
que emprestam aos retratos
certo ar de documento
do quanto fomos, gente,
para algum arremedo
de posteridade. Ah, já estamos
mesmo todos mortos
quando abrimos os olhos 
e arreganhamos os dentes
diante de algum fotógrafo.

Este mundo não
te pertence, Bandini.
O modo rude como afias
a faca nos teclados
da velha máquina.

Sente, Arturo, a voz doce
da garçonete, a
mexicana de alpercatas
sujas. Fumas unos
chinos en Madrid?

Para viver, é sim,
para viver assim,
com nada além
de palavras.

“No hacías otra cosa
que escribir”. E sonhar,
faca amolada, ao som
da velha máquina,

 cravar letras na folha. Olha,
são como estrelas cadentes.
Ouve como gemem, pálidas
de espanto no branco da página.

Poemas na coletânea da editora Global: Roteiros da poesia brasileira anos 2000 (2009)

Roteiro_da_Poesia_Brasileira_-_Anos_2000

Versos na agenda poética da editora Escrituras (2009)

Retratos+Po%C3%A9ticos+2010+-+2

Fica sentida, não. É noite ainda.
Há uma escuridão enorme
na porta. Bate. Ouve? Pede
para entrar em tua casa. Não
abra. Fica quieta enquanto arde,
e esta solidão selvagem fecha
a passagem para fora. Ah, tudo
é breu e brisa na paisagem.
Mas o medo evapora. Sente?
Fica firme. Paciente. Da tua pele,
a aurora já prepara voo breve.

copacabana

Nossa Senhora de Copacabana,
dai-nos o Sol todos os dias,
mesmo no Inverno. Dai-nos
o seu calor sem termo,
Nossa Senhora de Copacabana.

Dai-nos um céu de brigadeiro
a cada semana. Dai-nos um céu
de brigadeiro, nossa senhora
de Copacabana.

Dai-nos alvoradas sem medo.
Dai-nos manhãs de poesia.
Dai-nos entardecer sem tédio.
Dai-nos o pôr-de-sol mais belo.
Dai-nos e nós a aplaudiremos.

fernando_pessoa1

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

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