Teatro


Fiquei triste com a morte de Perry Salles. Poucos sabem, mas trabalhei brevemente com Perry na época em que  ele administrava o Teatro Gamboa em Salvador. Não lembro como nos conhecemos, mas foi uma experiência intensa. Ele me ligava às vezes de madrugada, com ideias para a divulgação da peça que ensaiava. Eu o achava um louco. Batíamos uns papos legais, olhando a paisagem (alucinante de tão bela) do subsolo do Gamboa. A casa parecia um submarino. Até achei que ele havia ficado chateado comigo por ter caído repentinamente fora do projeto (tive uns bons motivos). Mas, antes de ir para o Rio de Janeiro, ele esteve no jornal e, ao me ver, gritou de lá um “Katinha” tão alegre e sincero que me surpreendi. Foi a última vez que o vi pessoalmente.

Quer um motivo a mais para pichar a autora do blog? Vá ver “Batata!”, que estará em cartaz no Teatro Vila Velha (Passeio Público) nos dias 4, 5 e 6, às 20 horas.

Foto: Adenor Gondim | Divulgação

Fomos ver a pré-estréia de “O triste fim de Policarpo Quaresma”, adaptação de Lima Barreto, sexta, na Sala do Coro do TCA. A montagem, dirigida por Luiz Marfuz, traz como protagonista o ator Hilton Cobra, o Cobrinha. Um belo espetáculo teatral. Teve coquetel no foyer depois. Choveu e resolvemos ir direto pra casa, ver TV e curtir o friozinho. No sábado, assistimos ao filme de Woody Allen, “O sonho de Cassandra”, no Cineplace Itaigara. Encontramos Josélia Ribeiro, do jornal. Bom filme, bom desempenho de Colin Farrell. Aproveitei para ir ao salão na saída (tem um do lado do cinema) e cortei o cabelo. Esticamos na “Companhia da Pizza”, mas, sinceramente, chopp da Sol, ninguém merece!

No domingo, fomos conhecer o “Conselheiro”, misto de bar e restaurante recém-inaugurado no Itaigara. O chopp era da Schin e estava quente. A macaxeira frita, praticamente crua. Mas o prato livrou a cara do lugar: carne do sol acebolada com angu e paçoca. Experimentamos a cerveja Nobel. Nada demais, mas estava gelada. Ficamos conversando sobre os erros e acertos daquele lugar e relembrando nossa aventura no “Caribe” (por incrível que pareça, já tivemos um bar no Rio Vermelho, na rua onde fica a pirâmide do “Tom do Sabor”). Foi um fim de semana bacana, daqueles que fazem qualquer segunda amanhecer legal. E olhe que tenho médico hoje!

E, então, eu seguro o pequeno animal peçonhento entre os dedos como se ele fosse um tesouro. Um único escorpião amarelo pode gerar até 40 outros. E sem necessidade de macho. Duas crias em um ano, 20 filhotes em cada cria. Uma espécie formada apenas por fêmeas, na qual os óvulos se desenvolvem sem fecundação. De repente, eu deixo o bicho cair no chão e outros escorpiões saem rapidamente dos esconderijos. Estão famintos, devoram-se uns aos outros. Acendo um cigarro e fico observando. Tanto veneno, meu Deus!

Sobrevivi aos 15 anos. E, assim como os escorpiões amarelos, criei hábitos noturnos e crepusculares. Uma dose de álcool, algum fumo. Coisas normais para quem traz um ferrão cravado no peito. Casei, acasalei, emudeci, gritei durante os partos. Sou uma mulher absolutamente comum. Do tipo que prepara lanches deliciosos para os filhos, joga buraco com os amigos e faz amor duas vezes por semana com o marido. Olhem meus braços. Não há sinal de ferroadas. A cada manhã, escapo inteira do mesmo sonho.

Mas não contei o sonho inteiro. Há nele “uma ternura venenosa de tão funda”. E o medo. O medo que sinto de mim mesma. A visão que tenho de meus filhos mortos. A sensação em que me afundo ao olhar o céu. E o desabar de uma chuva que parece varrer o mundo. E que não cessa até que ela surja. Turva. Primeiro, vem bem menina e me puxa pela mão para ver o mar. Depois, quase adulta, tenta me afogar para que eu não diga nada sobre o que sinto. E, no entanto, sempre fomos cúmplices numa forma indescritível de sentimento.

E até nessa falta de dor, espécie de anestesia que dura desde o casamento. Olho a minha casa, cheirando a pinho, e acho tudo muito bom. Como se a família fosse um esconderijo. Ninguém pode me ferir aqui no Caminho das Árvores. E, nas copas, avisto as damas que se assumem. Passam por mim no mercado, de mãos dadas, cheirando as frutas, mastigando as uvas, sujas, o sumo escorrendo da boca. Imagino que coisas fazem juntas e viro o rosto. Reviro os olhos. Sozinha na cama. O marido em viagem de negócios. Os filhos dormindo. E sonho de novo e de novo com os escorpiões amarelos.

Mas nem sempre foi assim. Confesso. Eu também já fui suja de desejos. Quando ela vinha e apertava a minha pele entre seus dedos. Como se colocasse a mão entre as fendas de uma árvore. Eu a podia sentir em minha dor como carícia. E mordia os lábios, rindo por dentro, louca por arranhões, tapas e empurrões. Qualquer contato, por mais absurdo, entre meu corpo e o dela. Misto de camareira e inocente útil, eu cuidava de pentear-lhe os cabelos, outro pretexto, e de vigiar seus pretendentes de perto, levando e trazendo bilhetes. É este? Não. É este? Não. É este? E foi assim que conheci o homem que me faria pensar em casamento. Não por amor, infelizmente. Mas em agonia de morte, veneno inoculado no peito.

Casei com ele só porque ela o queria. E ele a mim. Desde sempre. E ainda ardo na nossa última noite. Falei, enfim, sobre sonhos e pesadelos e escorpiões. O vestido de noiva sobre a cama, os convidados no andar de baixo, num misto de alegria e confusão. E tudo que lembro é a sensação da água, que subia, encharcando meus tornozelos e, logo, entrando pela boca e enchendo os pulmões. Até que já não podia dizer nada. E o sentimento em torno de mim era um oceano inacreditavelmente solitário e sombrio. Todo o resto foi puro exercício de existir. Vestir a roupa branca, percorrer a nave central da igreja, dizer sim. E, dentro dos anos, procriar, criar herdeiros da vergonha para deixar entregues ao mundo, ao grande mundo.

Ouçam. O amor é armadilha. É sonho. Ou nada, nada mesmo. Os escorpiões sobreviveram a muitos cataclismos, mas não venceram. Vejam como ainda se escondem e usam o veneno. Pobres criaturas seculares. Tão venenosas quanto indefesas… Outro domingo. E deixo que tudo desapareça, engolido pela segunda-feira. Há um revólver guardado na gaveta direita da cômoda. E a carta que ela mandou antes de atirar. Sei que estou acordada, que estive acordada todo o tempo, e agora sinto o animal peçonhento subindo pelas pernas. Nenhum medo. Quase gozo. Ao sentir o ferrão penetrar a minha pele e destruir-me os nervos.

A pedido da poeta Ângela Vilma, publico aqui o texto “Escorpião Amarelo”.

Foto: João Meirelles

Li um comentário sobre “Batata!” no Nacocó e não estou linkando aqui por ser elogioso. Beth Ponte, que assina, diz que “O Escorpião Amarelo” abusa do tom poético. Concordo, mas confesso que não faria diferente. Vi “Batata!” duas vezes em busca de aprendizado. Eu nunca havia escrito para teatro e fiquei meio deslocada na dinâmica. Talvez por extrapolar em lirismo, como anota Beth, ou pela inexperiência de autora iniciante, que não sabe aproveitar os recursos da linguagem. Mas o espetáculo é interessante, marca os 10 anos do “Dimenti”, e segue para Recife, PE, em junho.

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Uma das primeiras fotos de divulgação da peça, que estréia dia 4 de abril, às 21 horas, no Martins Gonçalves (Escola de Teatro da Ufba, no Canela).

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