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Dia 18 de dezembro e o Madame K completa três anos, o que significa muito para mim. A ideia pintou num caruru de Santa Bárbara, na casa de minha irmã mais velha, Bárbara, em 2006. Uma sugestão de Márcio Matos, do Cova Rasa. Até então, eu não sabia nada de blog. Fui pegando o jeito na prática, com as dicas dos blogueiros mais experientes. Tive momentos incríveis com o Madame, de grande movimento e acessos, de conhecer muita gente legal, de escrever poemas e vê-los no ar imediatamente, sendo lidos e comentados em minutos, de ter de mediar comentários, de posts confessionais, engraçados, chatos, constrangedores e de semanas sem muitos acessos, completamente paradas. Praticamente todos os poemas do meu segundo livro, “Uma balada para Janis”, passaram por aqui. Em certas ocasiões, quis jogar tudo no lixo. Em outras, pensei em encerrar esse e criar outro. Dei tempo também, com plaquinha de fechado para balanço e tudo. Aqui fiz grandes e-amigos e também aprendi a diferença entre e-amigos e amigos. No final das contas, não me arrependi de ter seguido o conselho de Márcio. Hoje coloco um ponto final. Em breve, estarei editando o blog que cobrirá o meu projeto premiado no edital da Secult de 2008. Fiquem bem!

Revi ainda amigos do coração da vida inteira (Franklin Carvalho, com Adauto, Linda Bezerra, com Terê, Adalberto Carvalho e José Eduardo Matos Franco, com Tom). As minhas duas irmãs queridas, Bárbara e Paula Lice. As duas sobrinhas lindas, Mariana e Júlia. O ator Rafael Medrado, namorado de Mari, que chegou mais tarde. O cunhado querido, Marcelo Sousa. Érica, presença essencial, e suas irmãs (Lêda, Sônia, Cátia e Cláudia, com Manoel Francisco). As sobrinhas de Érica, Victória, Silvinha e Nanda. E algumas ausências: Ângela Vilma, Ana Clélia e Bomfim, Mayrant Gallo, Marcus Gusmão e Soraya, Antonio, irmão de Érica, a mãe de Érica e a minha mãe.  Meu pai mandou um recado para mim em sonho na tarde do dia 10: “estou com você”. E estava.

Mercedes Sosa está morta. E não vi o show dela no TCA. Os ingressos estavam caros para mim na época. Não sou de pedir convites à produção. De última, fui tentar comprar e já estavam esgotados. Um dia triste em meu coração. Abaixo, uma das canções de que mais gosto na voz dela, composta por Fito Paez, Un vestido y un amor.

Outra canção maravilhosa, Como la cigarra, uma homenagem belíssima aos que lutam pela liberdade, na Argentina ou em qualquer país.

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De bonito, Danúbio já  tinha o nome, dado pelo médico assim que botou a cara no mundo e abriu os olhos. Eram uns olhos muito azuis, e mais azuis ainda em contraste com a pele, muito negra. A mãe aceitou aquele nome sem conversa, por respeito e timidez. Sem pais, sem pai, filho repentino nos braços, os dois nas graças de Deus. Assim foi criado, feito um grande rio sem margens, sem visão de um mar possível. Apanhou de padrastos vários que duravam no máximo dois verões até começar a bater. Ah, Danúbio. Bom menino, tranquilo, louco por um caminho que o levasse à nascente de alguma coisa verdadeiramente boa.

O barraco, os ratos, a comida rala, o dinheiro pouco. Aos 18 foi ser boy de um banco, graças a boa aparência, aquele encanto de ser preto com olhos de branco, as mulheres ficavam loucas. Tímido, o menino sonhava com outros prazeres, a vida mansa do patrão, caixa de banco, chegando em uma moto, calça e camisa engomados, barriga pronunciando a mesa farta, uns trocados a mais no bolso. Nada. Salário mínimo entregue para as despesas. No máximo, as gorjetas de quando ajudava senhoras com as compras no mercado. Jornada dupla e mais colégio. Primário sofrível, segundo grau esperto, com colas e mais colas. Iria para a faculdade em breve, contrariando os prognósticos. Filho de preta, a mãe dizia, tem que aprender uma profissão técnica. Nada, ele pensava. Vou é ser médico. Ser chamado de doutor, cortar o mal nos outros.

Não foi, não deu, bem antes caiu na malha dos amigos. Tessitura consistente que envolvia a todos na rua em que morava, praticamente vala, a casa de Danúbio. Com eles aprendeu a fumar erva, pular muros, catar bagulhos e prensar na boca com cuspe. Engolir, se fosse preciso, para escapar dos homens. Vendendo bagulho comprou um táxi. A mãe feliz: agora achou-se. O táxi rodava dia e noite, levando clientes dos traficantes, e logo ele fez jus ao nome. Virou o europeu, o maioral, deslizando feito a valsa azul, em afluentes de crimes. Bacana, comprou casa de varanda, geladeira duplex com dispenser na porta, fogão de seis bocas e forno micro-ondas. A mãe de vestido bonito, última moda, homens mais jovens na cama, apê em Copa, veraneio em Búzios, passeios de lancha. E Danúbio correndo, inexoravelmente, de terno Ermenegildo Zegna, rumo a um mar de sangue.

Aqui, vocês ouvem todas as faixas do novo disco de Caetano.

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