Falta de sentido da existência


As pessoas iam sumindo lentamente. E reapareciam, de repente, com branco nos cabelos. Menos ele, que usava um produto importado. Parecia ter a mesma idade de quando fomos buscar o exame. Será que sim, será que não? Fazia suas coisas às escondidas. Me diga, mano, que é isso?, perguntava distraída, como se não quisesse explicação. Ele sorria sem dizer. Soube depois da armadilha. Estava são, graças a Deus. Forte feito o mesmo de hoje em dia. Nunca tente incutir pressa em quem passou dos 40, por mais que force a cabeça, não entra. Essa coisa paranóica de celulares cheios de ferramentas, por exemplo. E gente ligando a toda hora para saber coisas que poderiam esperar o tempo certo. A fofoca é a alma do negócio de fazer amigos e influenciar pessoas. A fofoca move a febre por sites de relacionamento. Onde andará fulano, que não vejo há milênios? Tá lá no orkut, inteiro, só falta o endereço. Fotos dos filhos pequenos, da sogra de óculos com esparadrapo, da mulher com quem casou. Acho até que conheço. O menino, veja só, parece com ele, já a menina puxou mais à mãe. A sogra tem cara de sofrimento. Estão comendo, sei lá em que restaurante. E aquele irmão do tal, que só andava bêbado. Tá nos amigos do amigo, vítima de uma comunidade de nome engraçado. Ainda solteiro. Ninguém some mais, antes viram fotografias coloridas em perfis estáticos, que são quase uns epitáfios de vivos.

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Sem empregada, levo Billy para passear todos os dias. Acordo bem cedo, por volta das 7, e saio com ele no solzinho da manhã. Há muitas crianças com suas babás na pracinha. Dois gêmeos idênticos de um ano e pouco vestem roupinhas parecidas. Uma bebê linda sorri para mim. Vou de óculos escuros, cabelos mais curtos e escuros, cara de sono. No finzinho da tarde, saio com Billy novamente. Muita gente acha exagero, mas meu cachorro merece esses passeios. Gosto da tranquilidade do lugar onde moro, de poder andar dentro do condomínio até depois das 22 horas, das árvores cheias de micos, dos cães de rua adotados pela vizinhança, dos passarinhos que invadem a varanda atrás de migalhas, da baiana linda e sorridente que faz acarajé e abará como poucas, das barraquinhas que sempre têm cerveja bem gelada. Outro dia largaram uma cadela por lá. Minha mãe pegou ração e água e descemos para alimentar o animal, que parecia desnorteado. No estacionamento, encontramos uma vizinha, de outro prédio, que também estava preocupada com o cãozinho. Conversando, descobrimos que ela cuida de vários na mesma situação e tenta arrumar pessoas que os adotem. Também pega alguns e leva para casa. Um anjo. Essas caminhadas tem me feito um bem enorme, vivendo mais o cotidiano, a luz da manhã, o entardecer, olhando os rostos dos vizinhos. Alguns têm pássaros e descem com gaiolas que penduram nos galhos. Outros andam para manter a boa forma. Diariamente, um velhinho sai com sua cadela, uma cocker marron, e dá inacreditáveis voltas. Sisudo, parece pensar na vida, em seus 80 e tantos anos. Vou ouvindo música e tentando ser feliz.

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O que ando lendo: “A parte oculta de nós mesmos”, de Elisabeth Roudinesco

O que ando ouvindo: Uma lista de músicas batizada de “Caminhada”, começa com “Yellow”, do Coldplay, termina com “Namorinho de Portão”, de Tom Zé.

O que andei vendo: “O Curioso Caso de Benjamin Button”, no cinema. Em vídeo, “Short Bus”. Em TV, “BBB 9” e “House”.

Fatos marcantes da semana: Perdi 3 quilos. Demiti a empregada.

Fechado pra balanço

(Gilberto Gil)

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Tô fechado pra balanço
Meu saldo deve ser bom
Tô fechado pra balanço
Meu saldo deve ser bom
Deve ser bom

Um samba de roda, um coco
Um xaxado bem guardado
E mais algum trocado
Se tiver gingado, eu tô, eu tô
Eu tô de corpo fechado, eu tô, eu tô

Eu tô fechado pra balanço
Meu saldo deve ser bom
Tô fechado pra balanço
Meu saldo deve ser bom
Deve ser bom

Um pouco da minha grana
Gasto em saudade baiana
Ponho sempre por semana
Cinco cartas no correio

Gasto sola de sapato
Mas aqui custa barato
Cada sola de sapato
Custa um samba, um samba e meio

E o resto?

O resto não dá despesa
Viver não me custa nada
Viver só me custa a vida
A minha vida contada

Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor, sentir. E não me sinto bem. Experimente: Se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei. Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro. “Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos, enfim, em pleno, a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos, por vezes, tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

Para fechar o ano, deixo com vocês o texto de Clarice Lispector de que mais gosto. Meu único projeto para 2009 é ser muito mais eu.

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