Exercícios de observação


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Alzira gosta de cachaça. Bebe logo cedo, antes de ir pro cemitério. No bairro onde mora, na periferia da cidade, num boteco perto. Os copos pequenos sorvidos às talagadas, o cotovelo apoiado na bancada, o corpo pequeno sacudido pelo gesto. A boca faz um esgar engraçado que em nada combina com o olhar triste. Antes de subir no ônibus passa a mão molhada nos cabelos desgrenhados. Mostra a carteirinha de passe ao motorista. Ajeita a magreza entre os passageiros. Não tem horário, não bate ponto. Guarda o material de trabalho num mausóleu. Com passos lentos desce a escadinha para dentro. Apanha a água sanitária, o amoníaco, a soda cáustica, a vassoura, o balde vermelho. Quando sobe, canta músicas aprendidas no templo. Deixou de ir por falta de dinheiro. Vergonha de tirar poucas moedas do bolso. Trocava o pão pela bênção. Ficaram as canções na boca, entre os poucos dentes que restam e o ritmo de quando ainda sabia tocar sanfona. Se aparece um visitante, ela o segue em silêncio. Diante da lápide, oferece seus préstimos: limpeza diária, mensal, anual, só um trato breve. Um real por túmulo. Em Dia de Finados, cobra mais. Ali, nunca chorou seus mortos. Se pudesse, vejam só, seria cremada. Não daria trabalho a outros. Alzira cheira a álcool o tempo todo. Suas falas precisam de legenda como nos filmes mudos. Alzira não tem medo de fantasmas. Mas dos vivos, esses sim. A equipe de universitárias ajeita a câmera. Súbito, surge um féretro. Filmam. Depois, colocarão Piazzolla como trilha sonora. Alzira, protagonista, encena seus próprios movimentos. Onde andará agora? Me pergunto, enquanto caminho pelas alamedas quase desertas do Campo Santo.

Sem empregada, levo Billy para passear todos os dias. Acordo bem cedo, por volta das 7, e saio com ele no solzinho da manhã. Há muitas crianças com suas babás na pracinha. Dois gêmeos idênticos de um ano e pouco vestem roupinhas parecidas. Uma bebê linda sorri para mim. Vou de óculos escuros, cabelos mais curtos e escuros, cara de sono. No finzinho da tarde, saio com Billy novamente. Muita gente acha exagero, mas meu cachorro merece esses passeios. Gosto da tranquilidade do lugar onde moro, de poder andar dentro do condomínio até depois das 22 horas, das árvores cheias de micos, dos cães de rua adotados pela vizinhança, dos passarinhos que invadem a varanda atrás de migalhas, da baiana linda e sorridente que faz acarajé e abará como poucas, das barraquinhas que sempre têm cerveja bem gelada. Outro dia largaram uma cadela por lá. Minha mãe pegou ração e água e descemos para alimentar o animal, que parecia desnorteado. No estacionamento, encontramos uma vizinha, de outro prédio, que também estava preocupada com o cãozinho. Conversando, descobrimos que ela cuida de vários na mesma situação e tenta arrumar pessoas que os adotem. Também pega alguns e leva para casa. Um anjo. Essas caminhadas tem me feito um bem enorme, vivendo mais o cotidiano, a luz da manhã, o entardecer, olhando os rostos dos vizinhos. Alguns têm pássaros e descem com gaiolas que penduram nos galhos. Outros andam para manter a boa forma. Diariamente, um velhinho sai com sua cadela, uma cocker marron, e dá inacreditáveis voltas. Sisudo, parece pensar na vida, em seus 80 e tantos anos. Vou ouvindo música e tentando ser feliz.

No Breezes Costa de Sauípe tudo é superdimensionado, especialmente a comida. Um pé direito gigantesco abriga famílias de várias nacionalidades. As crianças correm por entre as mesas, sujas de doce, seguidas por empregadas vestidas de branco. Os homens bebem além da conta e desmaiam nas camas king size. As mulheres desfilam cangas e roupas de banho e corpos de sereia e rostos com botox. Na área da piscina, dois bares disparam centenas de doses de uísque 12 anos e drinques sacudidos em coqueteleiras de inox. Uma baiana oferece acarajés e abarás. Garçons equilibram fatias de pizza, sanduíches e pratos diversos. E é tanta comida que perde-se a fome. Após a meia-noite, nada acabou-se. Sai a ceia e há sempre mesas cheias. Num bar interno, lobos solitários… Jogamos baralho no lobby até quase 3 e meia. Às duas horas da madrugada, um rapaz vem repor os lanches. “É para amanhã?”, perguntamos. Quanta ingenuidade. “É para agora mesmo”, ele responde. Há sanduíches, café, chá, sucos e chocolate. E olhe que o Breezes já viveu dias melhores. Nos corredores, um exército de camareiras reveza-se na limpeza dos quartos. Há copos por todo o lado. Gente que pede um drink e dá apenas um gole. “Muito doce”. “Meio amargo”. “Muito fraco”. “Muito forte”. Mocinhas adolescentes bebem frisante. Homens fortes aplacam a sede com Logan. A boate é dominada pelos argentinos que tomam a pista sem animação e dançam.  Toca uma música esquisita. Fugimos entediados. No piano-bar, uma moça canta para uma platéia de três casais. E os restaurantes temáticos já estão fechados. Passeamos pelo saguão sem portas. Chove. Um grupo enorme aguarda o ônibus que o levará ao aeroporto.  Mais cedo, fomos à Vila da Praia.  E foi como estar em um cenário de novelas. Sem dramas. O luxo de cada coisa a neutralizar o caos em tons pastéis. Olho o céu. Há estrelas por detrás das nuvens. Adivinho o domingo ensolarado na piscina enorme.

O jardim de entrada. Olhando pela parede envidraçada do primeiro andar, tenho diante de mim as copas das árvores iluminadas pelo Sol do fim de tarde. À direita, um flat de fachada em vidro azul me espia com suas janelas abertas. Do lado dele, um prédio pequeno, residencial, de estilo antigo. Do outro, um mais alto, com minúsculas varandas e detalhes em amarelo. Numa gigantesca casa, atrás deles, tento adivinhar, pelo reflexo da luz na água, que se projeta no teto da área externa, a existência de uma piscina. No lado esquerdo, há edifícios comerciais, muitos, e, num deles, num cartaz imenso, uma simpática desconhecida sorri diariamente. Então, noto as ferragens vermelhas aparentes da Casa do Comércio. Desbotadas, suas pontas avançam sobre a movimentada Tancredo Neves. E um sem-número de antenas capta minha atenção. Parabólicas enormes, pequenas helicoidais de canais de TV, barras compridas e finas como varas de pescar. E há, ainda, as antigas, esquisitas, espinha de peixe. Se levanto da cadeira e dou uns passos, tenho diante de mim o estacionamento, o plano baixo, a guarita de segurança, a entrada da empresa, o movimento das pessoas, os seguranças elegantes de terno, a rua com carros em inacreditáveis filas, os carros alinhados, quietos, estacionados, os ambulantes guardando a saída-entrada do novíssimo viaduto que nos atravessa, e a paisagem que desaparece diante da pressa no redemoinho da cidade.

No condomínio em que moro, alguns lavadores de carro entram em ação antes do Sol. E, em meu sono leve, escuto a esponja usada, quase sem cerdas, a roçar a borracha dos tapetes, e o som da água a descer pelo capô, e mesmo o movimento dos braços, avançando sobre os vidros até o teto num exercício de polvo. E ouço também os alarmes que soam a cada abrir de portas – os donos dos veículos deixam as chaves nas portarias dos prédios – quando eles esquecem e entram rápido, em busca do botão que silencie as sirenes. Eles vêm de longe como se morassem ali perto, de bermudas e boné, todos beirando os 50, movimentam-se num território marcado por anos de atuação. Porteiros e zeladores simpáticos guardam seus apetrechos. E a água que usam desce dos tanques gigantescos dos edifícios, encarecendo o condomínio dos apartamentos, e marcando o piso escuro do estacionamento coletivo. São cinco, seis, espalhados pela vizinhança, dividem a mesma clientela classe média. Cobram entre R$ 5 e R$10 por lavagem completa. Nunca mais ou menos. Na larga faixa, incluem os menos simpáticos, os que dão calote, os que desejam apenas uma limpeza externa. E pelo menos um deles pode ser visto nos bares da região, aplicando em álcool o ganho do dia e acenando. O mais sério deles é aquele que chega mais cedo, grisalho, sempre de vermelho. Perto das 9 horas, já está longe, sabe-se lá onde, por certo, em outro emprego. Alguns também são porteiros ou serventes em outros prédios. Acrescentam um extra ao salário, sempre mínimo. Para os donos dos brilhantes automóveis, as paletas dos pára-brisas levantadas são um código, indicam que a limpeza foi feita e que o trabalho deve ser pago.