Divagações


Bom, pra mim chega. Não fui talhada pra isso. Na adolescêncida, dava um trabalhão ser depressiva. Rendia maus hábitos e poemas péssimos. Então, vamos logo com isso. Faça o primeiro movimento que vem o resto. Deixe de manha, arribe do canto. Nem tem espaço pra essa conversa. Sei disso e sei daquilo. Mas que importa? Lembra do dito? E do tom? Falo do velho provérbio oriental. É, é bem batido. Mas real. Garanto. Se o problema é pequeno, para que pensar. Se é grande, que adianta pensar. Agora, sacode a poeira e segue adiante, besta. Lembra de Caio F. olhando pela janela as pessoas indo e vindo, sem saber, sem perceber, tolamente seguindo. A beleza da vida é isso. Levantar cedo, passear com o cachorro, trabalhar a palavra (a sua e a dos outros). Para o que nasce, é. “Essencialmente equílibrio, nem máximo, nem mínimo”. O verso é lindo, mas nem pense em se recolher e ser como Orides Fontela. Ô, drama. Você sabe que isso é só jogo de cena, que a sua é outra. Poxa, deixa de ser espalhafatosamente tímida. Como é mesmo esse negócio de estar triste, esquisita? Deixa de ser fingida. Nunca na história deste País, houve pessoa mais otimisma, mais loucamente otimista, mais insanamente otimista. Gente que faz festa até com uma única pessoa. Vamos, querida, vamos. É agora, é nessa hora, é pra cima!

Finalmente concluí a leitura da biografia de Caio Fernando Abreu. Uma biografia diferente, narrada a partir da perspectiva da jornalista Paula Dip, amiga pessoal do escritor. O livro é longo, mas não cansativo, especialmente para quem gosta do cara. Tenho uma edição de Morangos Mofados de 1984, com capa e desenhos de Alex Vallauri. E outra bem mais nova, de 2005, do mesmo livro. Adoro edições antigas. Não sei de que ano, mas tenho um Onde andará Dulce Veiga? bem velhinho, uma capa meio brega. E um A Teus Pés, edição da Brasiliense, que não vendo nem empresto. Não boto na roda também os autografados. Um Ferreira Gullar. Dois Lygia Fagundes Telles. Um montão de autores baianos. Mas minha maior relíquia é mesmo o livrinho de bolso de um cara que nunca fez sucesso. Max Brod, o cara que não queimou os originais de Kafka. Achei num sebo, comprei em homenagem indireta, guardo como amuleto. Nunca li uma página.

As pessoas iam sumindo lentamente. E reapareciam, de repente, com branco nos cabelos. Menos ele, que usava um produto importado. Parecia ter a mesma idade de quando fomos buscar o exame. Será que sim, será que não? Fazia suas coisas às escondidas. Me diga, mano, que é isso?, perguntava distraída, como se não quisesse explicação. Ele sorria sem dizer. Soube depois da armadilha. Estava são, graças a Deus. Forte feito o mesmo de hoje em dia. Nunca tente incutir pressa em quem passou dos 40, por mais que force a cabeça, não entra. Essa coisa paranóica de celulares cheios de ferramentas, por exemplo. E gente ligando a toda hora para saber coisas que poderiam esperar o tempo certo. A fofoca é a alma do negócio de fazer amigos e influenciar pessoas. A fofoca move a febre por sites de relacionamento. Onde andará fulano, que não vejo há milênios? Tá lá no orkut, inteiro, só falta o endereço. Fotos dos filhos pequenos, da sogra de óculos com esparadrapo, da mulher com quem casou. Acho até que conheço. O menino, veja só, parece com ele, já a menina puxou mais à mãe. A sogra tem cara de sofrimento. Estão comendo, sei lá em que restaurante. E aquele irmão do tal, que só andava bêbado. Tá nos amigos do amigo, vítima de uma comunidade de nome engraçado. Ainda solteiro. Ninguém some mais, antes viram fotografias coloridas em perfis estáticos, que são quase uns epitáfios de vivos.

penelope02

Gerana Damulakis parou com o Leitora Crítica. Há motivos, não duvido. Já tive impulsos de acabar com o Madame inúmeras vezes. Montar outra estrutura, como fez Mayrant Gallo com o Não Leia! Algo bem organizado, menos confuso, uma revista literária séria como a Verbo 21 de Lima Trindade. Pensei até em criar um sebo virtual, o Bandini. Por conta de Ticket Zen, devo necessariamente criar um novo blog, exclusivamente para registrar as ações do projeto. Transparência, baby, é a palavra de ordem. No momento, espero. Esperar não é ruim. Esperar envolve um mecanismo interessante. Você precisa ocupar o seu tempo e aí surgem outras coisas. Tipo Penélope no aguardo de Ulisses, de repente surge um manto. É pano, mas envolve. Nem tudo é uma grande, uma terrível, uma inominável maldade. Não posso acreditar. Tento convencer um amigo querido a envelhecer serenamente. Mas como conseguir domar alguém do signo de câncer? Li um post interessante no Licuri recentemente, replicando as categorizações pescadas num outro blog.  Felizmente, não sei em qual se enquadra o Madame.

Mal concluí a leitura de “Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra”, de Mia Couto, engatei o raríssimo exemplar de “Espelho das horas”, de Carlos Anísio Melhor, empréstimo precioso de Adelmo Oliveira. Anísio é um dos meus poetas prediletos. Dele, tenho “Canto Agônico”. Meu exemplar poderia estar autografrado, mas por timidez nunca o levei ao autor, que conheci nos corredores do setor de cordel da Biblioteca Pública, nos Barris. Nunca esqueci a boa acolhida que deu aos meus primeiros versos, ainda manuscritos, e o bilhete em que citava Fernando Pessoa, no qual me recomendava a uma poeta, sua amiga. Não recordo o nome. Nunca entreguei a correspondência. Timidez absoluta. Cheguei a ir ao hospital, quando ele foi internado. Conversei um pouco com Maria Cesario Alvim, uma das organizadoras deste “Espelho das horas”, que me falou sobre as dificuldades que enfrentavam na época. Eu, estudante de poucas posses, desconhecida dos amigos e da família do poeta, me despedi silenciosamente. Soube depois de sua morte e nunca, nunca, nunca o esqueci.

Sim, talvez seja uma balada para Janis. Em novembro. No meio do redemoinho em que tudo se transformou. “O vento veio, passou por mim, senti na pele”. Tanta tensão que preciso ficar atenta. Guardo as palavras com calma dentro de uma sacola imaginária. Aguardo. A dama observa. Aguardo. Com a calma de quem já teve pressa.

Elvis-Presley

Ontem, me deu saudade de Elvis Presley. Do nada. Danada. Fui pro youtube atrás de um vídeo. Queria ver/ouvir, sei lá, “Suspicious Mind” ou “In the Gheto”, mas ficaria consolada se achasse “Love me tender”.  É incrível como desprezei Elvis na adolescência, depois de ter amado tanto na infância. Lembro de mim, aos 8 anos, decorando uma biografia tosca de “The King” numa revista em quadrinhos. E assistindo filmes na Sessão da Tarde da TV compulsivamente. Lindo, decadente, ridículo. Acho que foi na encruzilhada em que cruzei com Janis Joplin que o abandonei definitivamente. Não combinava com Rolling Stones, com Beatles… Os amigos também falavam mal daquele cara obeso e suado.  Mais que abandonei, eu reneguei Elvis. Neguei seu nome três mil vezes diante do altar do rock. Ignorante. Medo de parecer cafona como ele, naquela roupa esquisita. Medo da decadência que sua fase Vegas representava. Solidão, entorpecentes, sanduíches gigantescos, delírios com a CIA. Meu Elvis era ainda o adorável pracinha do exército americano. Meu Elvis era ainda o bonitão havaiano. Meu Elvis era também o excêntrico que fazia dancinhas inacreditáveis no palco. Hoje, não sei não. Esta saudade doida. Elvis foi o meu primeiro ídolo.

Próxima Página »