Carnaval


Carnaval esquisito. Adal deu sinal de vida após longo período de sumiço (disse que foi ao Capão e que produziu uma peça de teatro). Na quinta, me chamou para ir com ele, num grupo chamado “Os endiabrados”, todos com chifrinho pisca-pisca e tridente, para “Os mascarados”. Preferi ficar quieta no meu canto. Nos outros dias, joguei baralho com amigos em Praias do Flamengo, bebendo vinho, petiscando, ouvindo MPB, deliciosamente na contramão. No sábado, de surpresa, perdemos Vera, mãe de Zé Eduardo. Corremos para a Ribeira. Um susto. Zé parecia forte, firme em sua crença no espiritismo. Sinto que nada será como antes para o meu amigo. Nem pude ir ao enterro por causa do trabalho no domingo. Ainda estava meio mal, mas decidi aceitar o convite de Érica, que me ensinou a nadar e a dirigir (e olhe que nos conhecemos quando eu já estava com 27 anos), e sair pela primeira vez em um bloco na avenida. No dia seguinte, vestimos nossos abadás e fomos para o Eva. Gostinho do que é o Carnaval em 18 quilômetros. Foi lindo entrar no Campo Grande e ver as arquibancadas e os camarotes lotados. Voltamos estropiadas, meu tênis foi para o lixo. A ideia é retomar as caminhadas. Saio de férias na segunda que vem sem planos ou perspectivas. O Madame vai junto.

Corrigi o poema e a memória traiçoeira de menina. Saborosa e Jacaré eram marcas de cachaça mesmo, como Ari Coelho cantou desde o início. Maria Guimarães Sampaio me corrigiu (no romance dela, Rosália não diz que Saborosa e Jacaré eram cervejas, só cita as marcas). E Bernardo Guimarães confirmou, recordando até o aroma da Saborosa: “igual a paçoca com coco”. E foi além. Ainda lembrou mais marcas perdidas no tempo: Tatu, Pau nas Coxas e De Cabeça pra Baixo. Leiam a descrição feita por ele do trio elétrico (esse eu via passar na Cidade Baixa): “era montado na forma de uma garrafa de cachaça, com a “orquestra” no meio e zilhões de altofalantes nas beiradas em cima. Uma beleza! Mais anos 70 impossível”. E Maria também descreve lindamente: “O trio elétrico da Jacaré era um jacarezão verdão que abria e fechava a boca. O da Saborosa uma imensa garrafa branca deitada. Tudo com muita luz e a amplificação era daquelas bocas redondas encaixadinhas nos “desenhos-esculturas”. Havia umas varandas laterais onde ia a percussão, caixa, tarol… Não lembro se os sopros iam nessas varandinhas ou em cima com as cordas”.  Deu até saudade da Lavagem do Bonfim daqueles tempos. Não existia essa besteirada chic de Bonfim Light e todo mundo ia de caminhão e carroça para a Cidade Baixa. Os trios chegavam até o pé da colina e as barracas eram de madeira, com banquinhos pintados. Na nossa rua, caminho do cortejo, a festa começava de madrugada e não tinha hora para terminar.

Não me guardei para o Carnaval. Ele passou veloz. Como as mãos dos meliantes nos bolsos de quem vai espremido na pipoca, em busca da carteira ou de dinheiro solto. Em compensação, fui ao Bonfim este ano. E uma baiana de sorriso bonito batizou meus cabelos com alfazema no meio da ladeira da colina sagrada. Políticos passavam em bandos ruidosos. Estava com minhas irmãs e meu amor, o sol escaldante, algumas cervejas. E tive vontade de chorar no meio da zoeira e da alegria quando passou uma bandinha de sopros. Minha infância inteira ali na festa de largo. Meu pai de bermuda e camisa branca, sorriso imenso no rosto. Minha mãe cuidando dos convidados. Uma feijoada no fogo. E os vizinhos livrando uma grana em barracas improvisada ao longo do trajeto. Não me guardei para o Carnaval. Ele passou bem rápido. Como os catadores, pequenos e maltrapilhos, atrás de algo que brilha e não é ouro. O alumínio das latinhas amassadas.  A folia passou e não foi nada. Nada além de uma explosão de estrelas de todas as gradações. Que nem vi da minha janela. Que em nada me interessou. Eu me guardei intensamente para mim.