novembro 2009


Por  Gerana Damulakis

Kátia Borges não precisa mais de avaliações. Sua poesia já está inserida na literatura baiana contemporânea como uma das vozes mais singulares. Voz enriquecedora, pois que aumenta a quilatagem que a nossa poesia alcança. No implacável conteúdo emocional, nas constatações que procuram a cumplicidade do leitor, a poeta alicia.

O segundo livro de poemas de Kátia Borges, Uma balada para Janis (P55 Edições, 2009), da Coleção Cartas Bahianas, traz algumas mudanças substancias se comparado com De volta à caixa de abelhas (SCT/ FUNCEB/ EGBA, 2001), da Coleção Selo Editorial Letras da Bahia. Primeiramente por tratar, já no título, de uma empreitada maior do que a anterior, a qual reunia poemas sem enlaçar, digamos, um determinado tema. Daí que, seja apenas devido à essência poética, seja pelo necessário movimento sequencial do texto de agora em cima de um personagem (vida e morte), carregando-o ou sobrecarregando-o de maior responsabilidade, um acréscimo se deu em relação ao livro de estreia.

A escrita poética foi tecida com precisão para que se saiba exatamente sobre o que deve ganhar reflexão. Vem, portanto, ajudada por sua dicção peculiar, como se um prisma fosse, deixando a integração por conta da combinatória temática sugerida desde o título. Sim, porque A balada para Janis não é o título de um poema que foi parar na capa como título do volume: o volume mesmo tem quatro poemas, todos relacionados ao mundo de Janis Joplin, do nascimento até a morte.

O primeiro poema é “Port Arthur, Texas”. A cidade Port Arthur, onde nasceu Janis, no Texas: seus 10 cantos – sim, vou chamar de cantos – falam de uma menina ( a poeta, há um “eu”), de uma infância, de sua mãe e de seu pai e do medo do que há por vir. Lugares são frisados, o título fala no Texas, mas os cantos falam da Baía de Todos os Santos, de Barra Grande. 1. Mãe, não ponha a mesa, parece que sou visita, parece que sou princesa. Ah, é, sim, ela me diz, naquele seu jeito terno dela, para mim, você é princesa. Depois de recordar, de lembrar uma festa sem herói, no canto 10, encerrada está a infância: “Minha infância é um país/ destruído, do qual parti em sobressalto,/ numa noite sem sonhos”. Mas é como num sonho que o leitor encontra atrás daquele “eu” que falava com a mãe, uma voz de mulher que vai partir: “não sei dos outros,/ mas cheguei aturdida/ – sem adolescência que desse conta,/ do passaporte e da bagagem – / numa outra espécie de vida”.

Assim a viagem interior começa e o título nos deu a pista de que não se deve perder de mira a ambiguidade; as mulheres são duas, apenas uma pode olhar para a outra, uma delas já não existe. O segundo poema é “High Ashbury, San Francisco”. Quando Janis se aproximou de uma comunidade hippie em Haight-Ashbury, San Francisco, sua carreira finalmente se iniciou e logo ela gravou um disco. Três anos depois, Janis esteve no Brasil e foi expulsa do Copacabana Palace, quando nadou nua na piscina do hotel. São 11 cantos.

 1. Nossa Senhora de Copacabana, daí-nos o Sol todos os dias, mesmo no Inverno. Dai-nos o seu calor sem termo, Nossa senhora de Copacabana. Há sombras, uma história de um piquenique, de novo a Baía de Todos os Santos, a Carlos Gomes, a Praça Castro Alves: não há dúvida, o poema continua também em Salvador. Ao fundo, toca um rock. O mais sublime prevalece:

7. Espero com a paciência dos desesperados que o destino teça seus dramas Dama ás que Deus guardou na manga para provar que existe e é bom. [quando eu já duvidava] Não existem mais mistérios o meu aparelho é stereo e vai do jazz ao [rock n’roll [e ouço poesia, todo dia, no volume máximo]

Neste ponto, confesso que senti o quanto o lado da contadora Kátia está aparecendo, sobrepondo, por vezes, a lírica com gosto de mel (mas não melosa, atentar na diferença, pois Kátia jamais fez poesia água com açúcar) daquela caixa de abelhas. Quanto engano. Já no 8 e seguindo o 9, o 10 e o 11, encontro “coração aberto”, “olhos brilhantes” e amor. Em 9, a referência é clara, estamos a sós com Janis: “Só lembro dos olhos brilhantes/ da moça dentro da piscina,/ bebendo uísque numa caneca”, enquanto a outra aparece na estrofe seguinte: “Só lembro dos olhos brilhantes/ da boneca, desfilando, seminua,/ na Carlos Gomes…” Um jogo, a poeta vê, ela vê Janis em alguém. Vale apontar uma homenagem merecida para o poeta Damário Dacruz, citado no terceiro verso do canto 11. O terceiro poema, “Pearl”, título do álbum de JJ, lançado 6 meses após sua morte. Talvez o poema que mais me encantou. São 15 cantos. O de número 14 é especialmente interessante e novamente conta, pois vemos um aeroporto, uma alfândega, uma moça e, no entanto, é poesia, pura poesia. Este o mistério de Kátia Borges, seu jeito de dizer, cada vez mais próprio. O quarto, “Landmark Hotel”, nome do hotel em cujo quarto Janis morreu de overdose. O 11 aborda um suicídio planejado. Os poemas com os números 5 e 7 e a sensação do 14 leitura e releitura. O 15 traz de volta a poeta, ela mesma e sua memória. Enfim, do jeito de KB: reviver através da poesia. 5. Fazendo poesia, vamos, os delicados, sendo triturados pelas engrenagens desta grande máquina. Alguns, mais selvagens, farão versos com sangue, escrevendo impropérios com a ponta das unhas. Outros, mais tranquilos, perseverarão no lirismo com o que lhes restar de sanidade. Fazendo poesia, vamos, os delicados, sendo triturados pela grande máquina (até que Deus nos salve).

falar algo bem íntimo
mostrar os dedos tudo
para que não diga sim
nada importa agora
amar suave anomalia
o mundo é dos feios
parar ouvir fantasmas
olhar seus seios
tv ligada no máximo
tão perfeitos esses
personagens eram
calar algo bem íntimo
qualquer palavra sã
que diga se sinto
mesmo se é preciso
navegar se basta
espiar barcos partindo
se hoje me perco e peco
por esperar o erro
se amanhã será lindo

Poeminha chato, imperfeito, cutucando o juízo, ainda disforme, sem ponto e vírgula.

Por João Filho

Solidão, abandono, pouco dinheiro e afeto, muito afeto. Pode-se dizer em termos gerais que esses são os temas do novo livro de poemas de Kátia Borges, Uma balada para Janis, que integra a Coleção Cartas Bahianas, da Editora P55. Coleção que se iniciou em janeiro deste ano e já está com 12 títulos publicados. O livro é dividido em quatro pequenas seções: Port Arthur, Texas/High Ashbury, San Francisco/Pearl/Landmark Hotel, e os poemas são numerados. Essa divisão é a trajetória pessoal da cantora e persona Janis Joplin, mas pode ser lido também como um andamento de compasso.

Fica visível o fundo geracional de onde provém a autora. Não somente através das influências musicais e literárias, também porque quase todos os poemas são atravessados por esse lirismo dark de tom romântico e melancólico que encontramos muitas vezes nas letras de rock dos anos 1960 e 1970. Porém, ela não fica presa somente à sua geração, ou tribo. Kátia Borges consegue voos mais longos e duradouros, e toca em pontos nevrálgicos da nossa condição.

A suave densidade de muitas imagens: Simples como se nota/na ponta do lápis/uma ínfima parte/do branco da folha. A linguagem simples, não fácil, e musical contrastando com os temas ásperos. Em vários momentos há nessa junção um desespero que não explode. Ao contrário, aceita as baixezas e armadilhas da vida e prossegue. É comovente o tom de resignação reflexiva da autora: Tão pouca, esta minha vida,/pela qual agradeço, cada órgão/que funciona a contento. […] Tão pouco, este amor,/pelo qual agradeço./E tão imenso. Como quem saboreia um gole fresco de água ou cerveja e agradece ao sol do dia.

Certo prosaísmo, que não diminui, antes acrescenta à dicção da autora, pois muitos poemas foram originados de cenas cotidianas, como este: Na porta da mercearia/de bairro, fumo um cigarro,/o primeiro do dia, após/ um acontecimento que/não é de amor ou de poesia. O viés estilístico ao construir o verso, principalmente os iniciais de cada poema, possibilita singularidades como esta: A vida é mais punk /que Joan Jett e Carmen Electra juntas,/ e nem tem o charme endinheirado/de uma Second Life.

Esse segundo livro mostra a maturidade da autora, seus melhores recursos técnicos, uma variedade de ritmos interessante, construção imagética fértil calcada numa densa reflexão sobre o estar no mundo, maior referência literária, musical e plástica. As confluências incidentais mais visíveis são Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Ana Cristina César e Mario Quintana. Esse segundo livro faz com que Kátia Borges se afirme como uma das poetas mais importantes de sua geração nascidas em solo baiano.

Um pequeno arranhão, a meu ver, nesse belo livro-vinil: o poema nº 9 da última seção denota certo panfletarismo com laivos feministas. Apesar da saudável rebeldia que perpassa alguns poemas, esse nº 9 destoa do conjunto.

Confesso que o seu primeiro livro De volta à caixa de abelhas não me cativou como esse. Sim, livros de poemas são coisas vivas, ou nos cativam ou nos enxotam e Uma balada para Janis embala-nos.

Serviço

Livro: Uma balada para Janis
Autor: Kátia Borges
Editora: P55 Edições
Preço: R$ 10

 

Resenha de João Filho sobre a Balada, publicada no Portal Literal. Acabei de receber via e-mail, tinha que postar.

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Ficarei uns dias sem postar, concentrada num projeto essencial.  Talvez tenha boas notícias em breve, não sei.

Revi ainda amigos do coração da vida inteira (Franklin Carvalho, com Adauto, Linda Bezerra, com Terê, Adalberto Carvalho e José Eduardo Matos Franco, com Tom). As minhas duas irmãs queridas, Bárbara e Paula Lice. As duas sobrinhas lindas, Mariana e Júlia. O ator Rafael Medrado, namorado de Mari, que chegou mais tarde. O cunhado querido, Marcelo Sousa. Érica, presença essencial, e suas irmãs (Lêda, Sônia, Cátia e Cláudia, com Manoel Francisco). As sobrinhas de Érica, Victória, Silvinha e Nanda. E algumas ausências: Ângela Vilma, Ana Clélia e Bomfim, Mayrant Gallo, Marcus Gusmão e Soraya, Antonio, irmão de Érica, a mãe de Érica e a minha mãe.  Meu pai mandou um recado para mim em sonho na tarde do dia 10: “estou com você”. E estava.

Muitos artistas visuais também estiveram na Tom do Saber. Foram festejar Maxim Malhado, quase tão nervoso quanto eu. Valéria Simões, Zuarte, Edgard Oliva… E os colegas de jornalismo, de agora e de sempre. A galera da revista Muito (Nadja Vladi e Priscila Lolata, Ronaldo Jacobina, Marcos Dias, Tatiana Mendonça, Katherine Funke) e do jornal (Ranulfo Bocayuva, Florisvaldo Mattos, Iloma Sales, Patrícia Moreira, Regina de Sá, Josélia Ribeiro). Lucy Bruni e Agnes Cardoso, que conheci no primeiro estágio profissional da vida, na Rádio Educadora. Minha homônima Kátia Borges, do Crear. O músico Tuzé de Abreu. Devo estar esquecendo alguém, peço desculpas.

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