As pessoas iam sumindo lentamente. E reapareciam, de repente, com branco nos cabelos. Menos ele, que usava um produto importado. Parecia ter a mesma idade de quando fomos buscar o exame. Será que sim, será que não? Fazia suas coisas às escondidas. Me diga, mano, que é isso?, perguntava distraída, como se não quisesse explicação. Ele sorria sem dizer. Soube depois da armadilha. Estava são, graças a Deus. Forte feito o mesmo de hoje em dia. Nunca tente incutir pressa em quem passou dos 40, por mais que force a cabeça, não entra. Essa coisa paranóica de celulares cheios de ferramentas, por exemplo. E gente ligando a toda hora para saber coisas que poderiam esperar o tempo certo. A fofoca é a alma do negócio de fazer amigos e influenciar pessoas. A fofoca move a febre por sites de relacionamento. Onde andará fulano, que não vejo há milênios? Tá lá no orkut, inteiro, só falta o endereço. Fotos dos filhos pequenos, da sogra de óculos com esparadrapo, da mulher com quem casou. Acho até que conheço. O menino, veja só, parece com ele, já a menina puxou mais à mãe. A sogra tem cara de sofrimento. Estão comendo, sei lá em que restaurante. E aquele irmão do tal, que só andava bêbado. Tá nos amigos do amigo, vítima de uma comunidade de nome engraçado. Ainda solteiro. Ninguém some mais, antes viram fotografias coloridas em perfis estáticos, que são quase uns epitáfios de vivos.

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