Mal concluí a leitura de “Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra”, de Mia Couto, engatei o raríssimo exemplar de “Espelho das horas”, de Carlos Anísio Melhor, empréstimo precioso de Adelmo Oliveira. Anísio é um dos meus poetas prediletos. Dele, tenho “Canto Agônico”. Meu exemplar poderia estar autografrado, mas por timidez nunca o levei ao autor, que conheci nos corredores do setor de cordel da Biblioteca Pública, nos Barris. Nunca esqueci a boa acolhida que deu aos meus primeiros versos, ainda manuscritos, e o bilhete em que citava Fernando Pessoa, no qual me recomendava a uma poeta, sua amiga. Não recordo o nome. Nunca entreguei a correspondência. Timidez absoluta. Cheguei a ir ao hospital, quando ele foi internado. Conversei um pouco com Maria Cesario Alvim, uma das organizadoras deste “Espelho das horas”, que me falou sobre as dificuldades que enfrentavam na época. Eu, estudante de poucas posses, desconhecida dos amigos e da família do poeta, me despedi silenciosamente. Soube depois de sua morte e nunca, nunca, nunca o esqueci.

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