CeciliaMeireles

 Sabia que escreveria com mágoa. A pessoa difícil. Recuso os rótulos. Acho graça de arrogância. Vai pensando que é assim. Que se pode classificar inconsequentemente as coisas. E falo de gente, que não é apenas isso ou aquilo. Mas moro na ingenuidade, não na filosofia. Daí esse engano. Tá bom, aceito mais essa mentira. Linda, oca. Faço seu jogo. Te olho, o bondoso, o desprendido. Te sei o invejoso. Você sabe que sei. Daí o golpe abaixo da cintura. Os olhos baixos. Tem a coisa de ser meio fraco do juízo. Bem diferente de ser genuinamente louco. Fraco de seguir na manada, de se deixar guiar por todos, de se deixar marcar no lombo. Eu me arrisco. Ando só, a cada manhã, o meu Santiago.  Durmo vez ou outra nos abrigos. Levo seixos nos bolsos.  Sabia que escreveria com mágoa. A pessoa difícil. Tudo bem, vou indo, o caminho talvez seja longo. Talvez nem seja nada disso. Você apenas fecha seus olhos e pensa estar no centro do círculo. Para então notar que não, que está definitivamente fora. E nem rola estranhamento ou tristeza. É quase como era antigamente. Como no recreio na escola. Como nas festinhas de adolescentes. Você apenas aprende a deixa-se cortar e a voltar sempre inteira, como no poema. E olhe, Cecília, que ainda nem é primavera.

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