Alzira

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Alzira gosta de cachaça. Bebe logo cedo, antes de ir pro cemitério. No bairro onde mora, na periferia da cidade, num boteco perto. Os copos pequenos sorvidos às talagadas, o cotovelo apoiado na bancada, o corpo pequeno sacudido pelo gesto. A boca faz um esgar engraçado que em nada combina com o olhar triste. Antes de subir no ônibus passa a mão molhada nos cabelos desgrenhados. Mostra a carteirinha de passe ao motorista. Ajeita a magreza entre os passageiros. Não tem horário, não bate ponto. Guarda o material de trabalho num mausóleu. Com passos lentos desce a escadinha para dentro. Apanha a água sanitária, o amoníaco, a soda cáustica, a vassoura, o balde vermelho. Quando sobe, canta músicas aprendidas no templo. Deixou de ir por falta de dinheiro. Vergonha de tirar poucas moedas do bolso. Trocava o pão pela bênção. Ficaram as canções na boca, entre os poucos dentes que restam e o ritmo de quando ainda sabia tocar sanfona. Se aparece um visitante, ela o segue em silêncio. Diante da lápide, oferece seus préstimos: limpeza diária, mensal, anual, só um trato breve. Um real por túmulo. Em Dia de Finados, cobra mais. Ali, nunca chorou seus mortos. Se pudesse, vejam só, seria cremada. Não daria trabalho a outros. Alzira cheira a álcool o tempo todo. Suas falas precisam de legenda como nos filmes mudos. Alzira não tem medo de fantasmas. Mas dos vivos, esses sim. A equipe de universitárias ajeita a câmera. Súbito, surge um féretro. Filmam. Depois, colocarão Piazzolla como trilha sonora. Alzira, protagonista, encena seus próprios movimentos. Onde andará agora? Me pergunto, enquanto caminho pelas alamedas quase desertas do Campo Santo.

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8 comentários Adicione o seu

  1. Celso disse:

    O texto me prendeu com as duas primeiras frases. Você desenvolveu a trama com maestria Kátia. A vergonha de tirar poucas moedas, o serviço oferecido, a vontade de ser cremada, o medo dos vivos, a trilha com Astor Piazolla. Originalíssimo, como sempre.

  2. Marcus disse:

    Alzira deve ter ressuscitado.

  3. tremderisco disse:

    Muito bom o seu texto,interessante a visão do que é tragico,triste que é o momento final da vida de alguém, ou mesmo uma visita ao túmulo de um ente querido, pode ser para outros fonte de renda, coisa para ser muito bem pensada.bj

  4. Kátia, eu conheci Alzira.

  5. maria sampaio disse:

    Grande texto, Kátia.

  6. Lima disse:

    Onde andará Alzira? Que pergunta inquietante… E a velocidade com que vc inverte a perspectiva, não mais a bebida como bálsamo, apenas um lugar, indefinido, o lugar de protagonista num filminho de universitários… Alzira esquecida, Alzira anônima, Alzira entregue…

  7. que texto! gostei muito!
    me lembrei desta letra de lenine:

    Alzira bebendo vodka defronte da Torre Malakof
    Descobre que o chão do Recife afunda um milímetro a cada gole
    Alzira na Rua do Hospício, no meio do asfalto, fez um jardim
    Em que paraíso distante, Alzira, ela espera por mim?

    Alzira virada pra Lua, rezando na igreja de são ninguém
    Se o mundo for só de mentira, só ela acredita que existe além
    Que existe outra natureza que venha ocupar o lugar do fim
    Em que paraíso distante, Alzira, ela espera por mim?

    Oi, Karina, conheço essa música. Fizemos um vídeo com Alzira e ela entrou na trilha sonora

  8. blag disse:

    Grande personagem, grande texto!!!

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