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Alzira gosta de cachaça. Bebe logo cedo, antes de ir pro cemitério. No bairro onde mora, na periferia da cidade, num boteco perto. Os copos pequenos sorvidos às talagadas, o cotovelo apoiado na bancada, o corpo pequeno sacudido pelo gesto. A boca faz um esgar engraçado que em nada combina com o olhar triste. Antes de subir no ônibus passa a mão molhada nos cabelos desgrenhados. Mostra a carteirinha de passe ao motorista. Ajeita a magreza entre os passageiros. Não tem horário, não bate ponto. Guarda o material de trabalho num mausóleu. Com passos lentos desce a escadinha para dentro. Apanha a água sanitária, o amoníaco, a soda cáustica, a vassoura, o balde vermelho. Quando sobe, canta músicas aprendidas no templo. Deixou de ir por falta de dinheiro. Vergonha de tirar poucas moedas do bolso. Trocava o pão pela bênção. Ficaram as canções na boca, entre os poucos dentes que restam e o ritmo de quando ainda sabia tocar sanfona. Se aparece um visitante, ela o segue em silêncio. Diante da lápide, oferece seus préstimos: limpeza diária, mensal, anual, só um trato breve. Um real por túmulo. Em Dia de Finados, cobra mais. Ali, nunca chorou seus mortos. Se pudesse, vejam só, seria cremada. Não daria trabalho a outros. Alzira cheira a álcool o tempo todo. Suas falas precisam de legenda como nos filmes mudos. Alzira não tem medo de fantasmas. Mas dos vivos, esses sim. A equipe de universitárias ajeita a câmera. Súbito, surge um féretro. Filmam. Depois, colocarão Piazzolla como trilha sonora. Alzira, protagonista, encena seus próprios movimentos. Onde andará agora? Me pergunto, enquanto caminho pelas alamedas quase desertas do Campo Santo.

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