agosto 2009


Gl%C3%A1ucia

Elvis-Presley

Ontem, me deu saudade de Elvis Presley. Do nada. Danada. Fui pro youtube atrás de um vídeo. Queria ver/ouvir, sei lá, “Suspicious Mind” ou “In the Gheto”, mas ficaria consolada se achasse “Love me tender”.  É incrível como desprezei Elvis na adolescência, depois de ter amado tanto na infância. Lembro de mim, aos 8 anos, decorando uma biografia tosca de “The King” numa revista em quadrinhos. E assistindo filmes na Sessão da Tarde da TV compulsivamente. Lindo, decadente, ridículo. Acho que foi na encruzilhada em que cruzei com Janis Joplin que o abandonei definitivamente. Não combinava com Rolling Stones, com Beatles… Os amigos também falavam mal daquele cara obeso e suado.  Mais que abandonei, eu reneguei Elvis. Neguei seu nome três mil vezes diante do altar do rock. Ignorante. Medo de parecer cafona como ele, naquela roupa esquisita. Medo da decadência que sua fase Vegas representava. Solidão, entorpecentes, sanduíches gigantescos, delírios com a CIA. Meu Elvis era ainda o adorável pracinha do exército americano. Meu Elvis era ainda o bonitão havaiano. Meu Elvis era também o excêntrico que fazia dancinhas inacreditáveis no palco. Hoje, não sei não. Esta saudade doida. Elvis foi o meu primeiro ídolo.

CeciliaMeireles

 Sabia que escreveria com mágoa. A pessoa difícil. Recuso os rótulos. Acho graça de arrogância. Vai pensando que é assim. Que se pode classificar inconsequentemente as coisas. E falo de gente, que não é apenas isso ou aquilo. Mas moro na ingenuidade, não na filosofia. Daí esse engano. Tá bom, aceito mais essa mentira. Linda, oca. Faço seu jogo. Te olho, o bondoso, o desprendido. Te sei o invejoso. Você sabe que sei. Daí o golpe abaixo da cintura. Os olhos baixos. Tem a coisa de ser meio fraco do juízo. Bem diferente de ser genuinamente louco. Fraco de seguir na manada, de se deixar guiar por todos, de se deixar marcar no lombo. Eu me arrisco. Ando só, a cada manhã, o meu Santiago.  Durmo vez ou outra nos abrigos. Levo seixos nos bolsos.  Sabia que escreveria com mágoa. A pessoa difícil. Tudo bem, vou indo, o caminho talvez seja longo. Talvez nem seja nada disso. Você apenas fecha seus olhos e pensa estar no centro do círculo. Para então notar que não, que está definitivamente fora. E nem rola estranhamento ou tristeza. É quase como era antigamente. Como no recreio na escola. Como nas festinhas de adolescentes. Você apenas aprende a deixa-se cortar e a voltar sempre inteira, como no poema. E olhe, Cecília, que ainda nem é primavera.

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Alzira gosta de cachaça. Bebe logo cedo, antes de ir pro cemitério. No bairro onde mora, na periferia da cidade, num boteco perto. Os copos pequenos sorvidos às talagadas, o cotovelo apoiado na bancada, o corpo pequeno sacudido pelo gesto. A boca faz um esgar engraçado que em nada combina com o olhar triste. Antes de subir no ônibus passa a mão molhada nos cabelos desgrenhados. Mostra a carteirinha de passe ao motorista. Ajeita a magreza entre os passageiros. Não tem horário, não bate ponto. Guarda o material de trabalho num mausóleu. Com passos lentos desce a escadinha para dentro. Apanha a água sanitária, o amoníaco, a soda cáustica, a vassoura, o balde vermelho. Quando sobe, canta músicas aprendidas no templo. Deixou de ir por falta de dinheiro. Vergonha de tirar poucas moedas do bolso. Trocava o pão pela bênção. Ficaram as canções na boca, entre os poucos dentes que restam e o ritmo de quando ainda sabia tocar sanfona. Se aparece um visitante, ela o segue em silêncio. Diante da lápide, oferece seus préstimos: limpeza diária, mensal, anual, só um trato breve. Um real por túmulo. Em Dia de Finados, cobra mais. Ali, nunca chorou seus mortos. Se pudesse, vejam só, seria cremada. Não daria trabalho a outros. Alzira cheira a álcool o tempo todo. Suas falas precisam de legenda como nos filmes mudos. Alzira não tem medo de fantasmas. Mas dos vivos, esses sim. A equipe de universitárias ajeita a câmera. Súbito, surge um féretro. Filmam. Depois, colocarão Piazzolla como trilha sonora. Alzira, protagonista, encena seus próprios movimentos. Onde andará agora? Me pergunto, enquanto caminho pelas alamedas quase desertas do Campo Santo.

Mauro Faustino colagem

 

Que faço deste dia, que me adora?

Pega-lo pela cauda, antes da hora

Vermelha de furtar-se ao meu festim?

Ou colocá-lo em música, em palavra,

Ou grava-lo na pedra, que o sol lavra?

Força é guarda-lo em mim, que um dia assim

Tremenda noite deixa se ela ao leito

Da noite precedente o leva, feito

Escravo dessa fêmea a quem fugira

Por mim, por minha voz e minha lira.

 

     (Mas já se sombras vejo que se cobre

      Tão surdo ao sonho de ficar – tão nobre.

      Já nele a luz da lua – a morte – mora,

      De traição foi feito: vai-se embora.)

 

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Passei o dia escapando da data. E quase consegui. No sábado, a ida para Maracás. Um frio de 13 graus na cidade. Mais de cem pessoas no auditório municipal. Caravanas de Brejões e do KM 100. Zé Inácio e Edmar junto comigo. Os meninos do Concriz, com olhinhos brilhando e um recital aplaudido de pé. Almoço e pizza na Forneto. Lugar simples, comida boa. Na volta, fomos parando, distraídas, para comprar manteiga de garrafa, requeijão, beiju, pimenta… Os caminhões lentos, CDs se sucedendo para espantar o tédio. Quase em Salvador, descobrimos que na casa de Érica as irmãs dela rezaram um terço em homenagem ao pai morto. Um silêncio no carrro. E eu firme na decisão de escapar da data. Aí, já em meu apartamento, visitando os blogs que gosto, leio o poema de Gerana Damulakis no Leitora Crítica. Saudade do meu pai, vontade de ver meu pai sambar, sorrir, comentar política. Silêncio é ouro, me dizia. Ah, pai, é mesmo impossível ser feliz nesse dia.

Queria falar do edital da Secult, repartir a alegria, a perspectiva de edição, mas não sabia como. É algo que espero desde o ano passado. Quase nem participava, descrente que sou de seleções. No que aumentaram o prazo, corri atrás e fiz a inscrição. Com projeto, cronograma e livro. O livro. Antes de tudo, generosamente incentivado por Maria Sampaio, que me cedeu fotos para a capa, um luxo. Hoje, fui no Solar Cunha Guedes, entrega do prêmio do Banco Capital. Tantos escritores, tanta gente de teatro, uma noite linda. Gente, estou feliz, mas não estou feliz. Não bestamente feliz. É uma felicidade completamente diferente, aquela que se sente diante da esperança. A frágil esperança, esse bichinho verde, fácil de esmagar entre as mãos.

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