Versos encantados desde la Habana

florbela_espanca

eu cometo versos
como quem lê Florbela Espanca numa quinta de Lisboa
repousado entre o branco marfim da cidade e o vermelho do sol
na mesa de uma taberna ao lado de uma garrafa de vinho tinto
descubro e me enamoro da musa e da brisa e do sal do mar
ao longe a praia aguarda pelos marinheiros que nunca se foram
 
eu cometo versos
como uma ilha chilena atenta à espera de um náufrago
como colheres de prata ao sol matinal de Madrid
a desconfiança da liberdade ante um campo florido
como quem vê com alma e por isso não precisa mais dos olhos
 
Eu cometo versos
Como quem nasce de repente como quem avista a Andaluzia
Como quem brinca com a luz sobre a pele das coisas
Como o vento cochichando com o porto e com as velas brancas
Como quem busca sereias e tesouros em mares perdidos
 
Eu cometo versos
Como amantes ensandecidos pela beleza ardem numa tarde de Andorra
Como os suicidas que partirão ao amanhecer na carruagem do indizível
Sem cartas nem bilhetes suicidas
 
Eu cometo versos
Como quem comete um crime e aguarda pelo castigo dos deuses.

 

Poema inédito de Narlan Matos, baiano que vive hoje no Novo México (EUA)

 

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5 comentários Adicione o seu

  1. Gostei muito. Faz tempo que não vejo Narlan. Parabéns, Narlan!

  2. blag disse:

    Muito bom, mesmo. Bravo!!

  3. Grande Narlan!
    Grande, sim, grande!

  4. Hilcelia Falcão disse:

    Bravíssimo!

  5. sandro disse:

    E Narlan? Nunca mais volta? Vai virar terrorista no Novo México?

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