Poeminha anos 80

Organizamos um piquenique dentro do parque da cidade toalha xadrez, cesta de vime – a santa ceia – Convidamos um Judas de aspecto meio junkie e um Pedro afeito a negar todas as coisas. E, claro, aquele que faria milagres. Fazia um sol dos diabos, Tiago levaria anfetaminas. Ele subiu as alamedas com as bolinhas…

Tudo é verão, e nada é

Tudo é verão, e nada é nunca mais. Um dia foi só em outra encarnação, se acreditasse. Você calou, olhando triste. Tudo é verão, e nada é a madrugada leva a noite fria, fogueira, bandeirolas, e deixa para trás todos dormindo. Velhas lições, amar outonos, folhas caídas amarelando jardins de inverno, só em sonho, se acreditasse….

Um dia comum

Um dia comum não te guarda. Há furacões ao sol, nuvens de azogue prontas a dar o bote. Um dia comum não te guarda. O passar das horas esconde o laço e noites sem alvorada aguardam em camarilha. Um dia comum enovela todos os dias no que avessa o calendário, a armadilha. E nem Maeve, Miguel Arcanjo ou…

O sal das coisas

A esperança não veio no pacote, brinde, envelope minúsculo laminado holograma, ticket, esperança, réstia do sal das coisas que solitariamente vivem dentro das outras, pérolas nem sempre, ostras são bivalves, valvas esperanças, táctil ortóptero, verde em mim na palma.

Perry

Fiquei triste com a morte de Perry Salles. Poucos sabem, mas trabalhei brevemente com Perry na época em que  ele administrava o Teatro Gamboa em Salvador. Não lembro como nos conhecemos, mas foi uma experiência intensa. Ele me ligava às vezes de madrugada, com ideias para a divulgação da peça que ensaiava. Eu o achava um…

Aviso

Ele veio do nada e deu um chute na porta frágil  da casa. Escutei a pancada forte e cobri a cabeça com o lençol. Sabia quem era e o que viria em seguida. Chuva de tiros. Fiquei quieto, golfos ensopando o tecido. Morto, talvez. Quando o silêncio surgiu, breve, fui arrastando o que restara do…