junho 2009


large_pollock8

Organizamos um piquenique
dentro do parque da cidade
toalha xadrez, cesta de vime
– a santa ceia –
Convidamos um Judas
de aspecto meio junkie
e um Pedro afeito a negar
todas as coisas. E, claro,
aquele que faria milagres.
Fazia um sol dos diabos,
Tiago levaria anfetaminas.
Ele subiu as alamedas
com as bolinhas coloridas
apertadas entre os dedos,
assobiando um rock.
Quando chegou, vimos,
espantados, o que os
comprimidos derretidos
haviam deixado:
em suas mãos,
uma tela de Pollock.

Tudo é verão, e nada é
nunca mais. Um dia foi
só em outra encarnação,
se acreditasse. Você
calou, olhando triste.
Tudo é verão, e nada é
a madrugada leva a noite
fria, fogueira, bandeirolas,
e deixa para trás todos
dormindo. Velhas lições,
amar outonos, folhas caídas
amarelando jardins de
inverno, só em sonho,
se acreditasse. Ah, essa
história, a beleza de ser
triste, ler On the road,
beber como se não
existisse um amanhã.
Tudo é verão, e nada é,
esta certeza, fechar a porta,
e entrever, na fosca fresta,
o seu olhar que nada diz,
que apenas olha, olha,
só em poesia, se acreditasse.

lisbon-portugal

Um dia comum não te guarda.
Há furacões ao sol, nuvens
de azogue prontas a dar o bote.
Um dia comum não te guarda.
O passar das horas esconde o laço
e noites sem alvorada aguardam
em camarilha. Um dia comum
enovela todos os dias no que avessa
o calendário, a armadilha.
E nem Maeve, Miguel Arcanjo ou Exu.
Nem mesmo Exu te guarda.

A esperança não veio
no pacote, brinde, envelope
minúsculo laminado
holograma, ticket,
esperança, réstia
do sal das coisas que
solitariamente vivem
dentro das outras,
pérolas nem sempre,
ostras são bivalves,
valvas esperanças,
táctil ortóptero, verde
em mim na palma.

Fiquei triste com a morte de Perry Salles. Poucos sabem, mas trabalhei brevemente com Perry na época em que  ele administrava o Teatro Gamboa em Salvador. Não lembro como nos conhecemos, mas foi uma experiência intensa. Ele me ligava às vezes de madrugada, com ideias para a divulgação da peça que ensaiava. Eu o achava um louco. Batíamos uns papos legais, olhando a paisagem (alucinante de tão bela) do subsolo do Gamboa. A casa parecia um submarino. Até achei que ele havia ficado chateado comigo por ter caído repentinamente fora do projeto (tive uns bons motivos). Mas, antes de ir para o Rio de Janeiro, ele esteve no jornal e, ao me ver, gritou de lá um “Katinha” tão alegre e sincero que me surpreendi. Foi a última vez que o vi pessoalmente.

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Ele veio do nada e deu um chute na porta frágil  da casa. Escutei a pancada forte e cobri a cabeça com o lençol. Sabia quem era e o que viria em seguida. Chuva de tiros. Fiquei quieto, golfos ensopando o tecido. Morto, talvez. Quando o silêncio surgiu, breve, fui arrastando o que restara do corpo para fora. Polícia é grave, chegando assim, investigando as coisas. Madrugada do Dias dos Mortos. Um vizinho me puxou pelos braços, estendidos, até me esconder inteiro embaixo da cama. A mancha de sangue, o rastro de sangue? Nada havia. Mais calmo, conferi a pele intacta sobre os ossos.

Fabulas delicadas lançamento

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