Desassossego

melancolia

Na porta da mercearia
de bairro, fumo um cigarro,
o primeiro do dia, após
um acontecimento que
não é de amor ou de poesia.

Na porta da mercearia,
sonhos antigos passam,
acenam, pedem adeus.
Ah, Deus, se vão,
“com o mistério das coisas,
por baixo das pedras e dos seres”.

Três moedas tilintam no bolso
da bermuda xadrez, ouço
uma canção distante.
Peço que tirem os chapéus
em respeito aos meus sonhos
mortos, um momento solene
no café, algo que celebre
esta melancolia ou a dilacere de vez.

(E, como este “fumo leve
que foge entre meus dedos”,
segue o segredo de viver sem culpas
que desconheço)

Na porta da mercearia de bairro,
pouco importam os astros,
e a água da Lua. Na Terra, só
esta secura envolta em bruma.
Na Terra, só este desassossego…

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6 comentários Adicione o seu

  1. Martha disse:

    lindo, Kátia, é assim que gente se sente.

  2. maria sampaio disse:

    Kátia, seus poemas são tão bonitos!
    beijo maria

  3. Você está em fase bendita. Fiquei simplesmente extasiada com este poema.

  4. aeronauta disse:

    Kátia, você é uma das melhores vozes poéticas dessa Bahia de tantos “poetas” que fazem apenas vida literária e não literatura.

  5. blag disse:

    Uau!! Bonito demais! Vou ‘roubar’ pro Blag!!

  6. Janaina Amado disse:

    Kátia, acabei de ler este poema no blag do Nilson – gosto desse cotidiano que aperta os sonhos e estimula desassossegos.

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