melancolia

Na porta da mercearia
de bairro, fumo um cigarro,
o primeiro do dia, após
um acontecimento que
não é de amor ou de poesia.

Na porta da mercearia,
sonhos antigos passam,
acenam, pedem adeus.
Ah, Deus, se vão,
“com o mistério das coisas,
por baixo das pedras e dos seres”.

Três moedas tilintam no bolso
da bermuda xadrez, ouço
uma canção distante.
Peço que tirem os chapéus
em respeito aos meus sonhos
mortos, um momento solene
no café, algo que celebre
esta melancolia ou a dilacere de vez.

(E, como este “fumo leve
que foge entre meus dedos”,
segue o segredo de viver sem culpas
que desconheço)

Na porta da mercearia de bairro,
pouco importam os astros,
e a água da Lua. Na Terra, só
esta secura envolta em bruma.
Na Terra, só este desassossego…

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