Oração pelo poema (Alberto da Cunha Melo)

A cem quilômetros por hora,
solto a direção do automóvel,
para escrever alguma coisa
mais urgente que minha vida.

Devo portanto utilizar
o vocabulário econômico
do Século: é proibido
amar, fumar, pisar na grama.

Mas gostaria que restasse
algum tempo para dizer
no poema as palavras súbitas
de recompensa e remissão.

Ó meu Deus, eu quero escrever
a minha vida, não teu Céu.
Eu estou só e enlouquecido
como as ovelhas mais longínquas.

Dá pelo menos a esperança
de terminar o doloroso
poema. Dá isso a teu filho,
caído, e coberto de sal.

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5 comentários Adicione o seu

  1. aeronauta disse:

    Forte e lírico poema para ser lido na última terça-feira das férias.

  2. Celso disse:

    Madame K,
    interessante um poema que ora por si. Outro ponto curioso é o metro octossilábico empregado pelo poeta, nesse e em outras centenas de poesias.
    Abs

  3. martha disse:

    ALBERTO! Acho que esse poema é o meu preferido.

  4. aeronauta disse:

    Kátia, seu comentário lá no aeronauta (“Como publicar um livro”) me deu força e coragem; através dele fico sabendo que não estou só. Também me pergunto se vale a pena…

  5. ari donato disse:

    “Eu estou só e enlouquecido
    como as ovelhas mais longínquas.”

    Para mim isso é tudo. Não é um resumo, é o poema.

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