dezembro 2008


Clarice, “se eu fosse eu” não faz sentido.
É como se eu pudesse ser alguém.
Pois nem ser eu sei ser, quanto mais quem
houvesse além de si haver havido.
 
Melhor deixar aquém o ser contido
e se deixar além de todo além.
Há muito que essa vida não faz bem
a quem vive pensando ou comovido.
 
Melhor não ser Clarice nem ser eu,
Clarice, nem ser eu a te dizer
o que é melhor – a ti, que já morreu
 
em mim o que queria conhecer
o que sentia, o que queria meu
um jeito, no sem jeito de viver.

Poema inédito de Luís Antonio Cajazeira Ramos.

Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor, sentir. E não me sinto bem. Experimente: Se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei. Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro. “Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos, enfim, em pleno, a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos, por vezes, tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

Para fechar o ano, deixo com vocês o texto de Clarice Lispector de que mais gosto. Meu único projeto para 2009 é ser muito mais eu.

vivo e bem
Billy de Papai Noel: vivo e bem

Meu cachorro foi atacado covardemente. Estávamos esperando o elevador, no hall do prédio em que moro, quando o cão da vizinha do segundo andar, sem coleira, desceu furioso e agarrou Billy pela pata dianteira de surpresa. Fiz o que pude para defender meu cachorro, mas só a chegada do porteiro fez o outro cão, bem maior que o meu, se afastar. Minha mãe passou mal, estava comigo. Meu cachorro ficou mancando. Minhas mãos estão arranhadas, machucadas. Teve um momento em que achei que o cachorrão iria me morder, pois eu batia nele com as mãos. Meu medo era só de que Billy ficasse muito ferido. O síndico do prédio, avisado pelo porteiro, estava dormindo. Não espero qualquer atitude decente dele. A dona do cão que atacou Billy tem problemas mentais. Pago o condomínio rigorosamente em dia. Preciso começar a pensar em mudar de apartamento.

Corrigi o poema e a memória traiçoeira de menina. Saborosa e Jacaré eram marcas de cachaça mesmo, como Ari Coelho cantou desde o início. Maria Guimarães Sampaio me corrigiu (no romance dela, Rosália não diz que Saborosa e Jacaré eram cervejas, só cita as marcas). E Bernardo Guimarães confirmou, recordando até o aroma da Saborosa: “igual a paçoca com coco”. E foi além. Ainda lembrou mais marcas perdidas no tempo: Tatu, Pau nas Coxas e De Cabeça pra Baixo. Leiam a descrição feita por ele do trio elétrico (esse eu via passar na Cidade Baixa): “era montado na forma de uma garrafa de cachaça, com a “orquestra” no meio e zilhões de altofalantes nas beiradas em cima. Uma beleza! Mais anos 70 impossível”. E Maria também descreve lindamente: “O trio elétrico da Jacaré era um jacarezão verdão que abria e fechava a boca. O da Saborosa uma imensa garrafa branca deitada. Tudo com muita luz e a amplificação era daquelas bocas redondas encaixadinhas nos “desenhos-esculturas”. Havia umas varandas laterais onde ia a percussão, caixa, tarol… Não lembro se os sopros iam nessas varandinhas ou em cima com as cordas”.  Deu até saudade da Lavagem do Bonfim daqueles tempos. Não existia essa besteirada chic de Bonfim Light e todo mundo ia de caminhão e carroça para a Cidade Baixa. Os trios chegavam até o pé da colina e as barracas eram de madeira, com banquinhos pintados. Na nossa rua, caminho do cortejo, a festa começava de madrugada e não tinha hora para terminar.

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Ari Coelho questionou se Saborosa era mesmo marca de cerveja ou cachaça. Lendo o romance “Rosália Roseiral”, de Maria Guimarães Sampaio, vi que a protagonista cita justamente a Saborosa numa das falas. Ela diz: “Você não conheceu o Jacaré…a garrafa de Saborosa, tremendamente iluminados! Beleza!”. O jacaré era o símbolo da marca. Tinha até um prédio na Cidade Baixa (existe ainda) que chamavam de Jacaré por conta da cerveja. No livro, Maria faz um passeio musical pela história da Bahia e do Brasil e ainda reserva uma surpresa, fortes emoções, para o final. A quem protestou em relação ao Bahia, digo apenas que ele era e é o meu time de coração.

Fiquei besta ao ver que no dia 18 o “Madame” completa dois anos de poesia e papo furado. Desde o episódio da conjuntivite, tenho postado bem menos para poupar os olhos, que já ficam grudados no monitor o dia inteiro. Aí, deixo passar coisas bacanas que leio nos vizinhos e que queria comentar. A bela oração de Renata Belmonte, “Nossa Senhora das Asas das Borboletas”, o poema mais recente de Nilson no Blag, a lista dos melhores livros de 2008 feita por Sandro Ornellas, a retrospectiva de Santiago Nazarian no Amor e Hemárcias. E também ando sem paciência para resenhar o mundo, opinar longamente sobre isso ou aquilo. Me dei o direito de ir desacelerando até o dia 11 de janeiro. Devagar, a gente aprecia melhor a paisagem.

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