setembro 2008


Vivia em conserto,
a casa antiga.
Mudavam as telhas,
compravam madeira,
renovavam as ripas,
ajeitavam a cumieira.
 
A casa antiga, apenas
25 metros quadrados,
era tudo que restara
do passado, da família,
na vila, na vida. E não havia
outro modo de ter um teto.

Feito enxurrada, mais
e mais trocados iam
na eterna reforma.
E as janelas caindo,
o beiral carcomido, 
o caibro, a terça, o pendural.

E pedreiros amigos
visitando as lojas,
carro cheio de tijolos,
meio torto, e a casa antiga.
De nada adiantava
pintar paredes e portas
pôr cores sóbrias,
caprichar na tinta.

A cada chuva, o mofo
brotava do invísivel,
esparramando, negro,
venenoso visgo, engolindo
todo esforço de mudança
e viço. Eram fantasmas,
ou memórias, que escorriam,
corroendo as novas vigas.

Até tornar ir embora imperativo.

 

Lembro do dia do nascimento dela, 6 de outubro de 1988, no Hospital Evangélico, em Brotas. Meu cunhado pálido de emoção. Em poucos dias, aquela coisinha loura lá em casa. Morávamos na Ribeira, num sobrado, e eles ficaram conosco por um tempo. Ela mobilizava as atenções, as emoções. E é assim até hoje. Quando nasceu, eu tinha exatamente a idade que ela completa daqui a uma semana. Vinte anos. Uma idade linda de se ter e de se ver. Ela já foi bailarina e ginasta, já viajou muito (conhece até a Bulgária), possui uma coleção inacreditável de medalhas, está fazendo o curso livre de teatro e canta incrivelmente bem. Hoje, cantou lindamente para mim “Me and Bob MgGee”, de Janis. Para ela, a bênção é incondicional. Para ela, peço diariamente a proteção de todos os anjos.

Não sei que cinamomos tolos
chorarão por mim.
Sim, de olhos bem abertos,
nesta varanda,
enquanto o sol vai se pondo
no ritmo do soul, eu vou
orando, tolamente só,
nesta varanda.

E nem os cinamomos chorarão por mim.

Quando criança, um dos meus grandes medos era pegar fogo. Literalmente. Tudo culpa do sensacionalismo do “Fantástico”, que divulgava casos de combustão humana espontânea. Isso existe, sim, tem até na wikipedia. Sempre fui fissurada por lendas urbanas. Teorias de conspiração e que tais incendiavam a minha imaginação. Agora, uma australiana chamada Blossom Goodchild, que diz conversar com seres extraterrestres, afirma que eles farão uma visita ao nosso planeta no dia 14 de outubro. Será apenas uma aparição, sem papo, uma ação de mídia intergaláctica. Tem até vídeo no Youtube (veja aí em cima). Quando Cássia Candra me contou, reagi na boa. Apenas perguntei: “será que eles são do bem?” Parece que sim, pois o nome da facção é “Federação da Luz”. Eles pretendem ficar por aqui durante três dias e revelam a intenção de assumir o controle da Terra.

 

Vamos sair um dia desses,
por essas ruas antigas.
Sim, a passeio, por essas ruas
de piso cabeça-de-nego,
por essas ruas muito lindas.

Vamos caminhar pela cidade,
sem destino. Sim, por essa cidade
de todos os becos, como anjos
margeando em vôo o azul da Baía
de todos os santos. Sim, vamos

juntos, compondo, com linhas de água
o percurso, pois não quero ficar esperando,
feito Penélope, a chegada de amantes distantes.

Quero mais é partir com você
pelo centro antigo, ver as vitrines
da Politécnica, e os inferninhos
da Carlos Gomes, dar um beijo no poeta na Praça
Castro Alves.

Sim, diga que sim,
que vamos juntos, olhar os casarões
do Santo Antônio, e ficar por ali,
enquanto o sol vai baixando,
e a noite, e tudo, convida.

 

Essa eu peguei no blog de Márcia Rodrigues, o delicioso Sarapatel. Adorei “Claudinha Boca Doce”, mais até que “Marcela Chave de Fenda”.

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