Desencontros de primavera

Minha avó Alice, mãe de meu pai, era uma figura. Meio índia, cega, cheia de crendices, sabia histórias de assombração que fariam até Poe tremer. Eu e minha irmã ficávamos sentadas na porta da casa dela, escutando, impressionadas. Mais que cantar, minha avó amava ouvir canções. E me pedia para cantar para ela “Desencontros de Primavera” de Hermes Aquino. Às vezes, eu estava brincando com as crianças da vizinhança e ela me gritava da porta e pedia: “Canta para mim aquela modinha que eu gosto”. E eu cantava. A letra, decorada especialmente para atender ao pedido, eu sei até hoje:

Uma andorinha, no céu, passou e disse
que o amor que eu tinha foi-se embora

Ai, desacerto que cruza nossas vidas tão normais
é solidão que já vem,
é alegria que vai

Uma tristeza que corta a alma da gente
antes que a primavera se decida
à por as flores nos campos,
e o verde nas folhas,
com banhos de mar
O sol por sobre a cidade,
O vento vai cessar.

Ah! a solidão é uma canoa
navega o corpo e a alma voa
além do céu, além do mar

Ah! No pensamento a gente voa,
qualquer problema é coisa à toa,
fica tão fácil de se amar…

Eu me recordo dos beijos, gosto e tudo
E dos amores que praticamos juntos,
O sal do corpo esquecido
Nas noites tão doces de beijos e paz
Realidade é uma sombra
Eu começo a sonhar…

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4 comentários Adicione o seu

  1. ari donato disse:

    Kátia, que beleza de modinha. Posso imaginar sua alegria ao recordar coisas assim da sua avó, pois eu, também, sempre fico a recordar das modas (os sertanejos falam em modas) que minha avó cantava e se acompanhava com uma gaita de boca. Era uma beleza, que agora me faz chorar de alegria…Ela também escrevia modas e transcrevia em cadernos as que ouvia. Tenho parte disso guardado comigo. Um beijo e que Deus proteja nossos avós, onde quer que eles estejam. Bjs.

  2. Mais que bom, delícia: avós! Bela recordação. Um beijo bem grande.

  3. Sei bem como é ouvir a avó cantando. E contando histórias. Que bom que você tem essas memórias. Elas são poesias em forma de lembrança e com cheirinho de vovó. Minha vó, Rosita, me conta muita coisa, e canta em alemão. Beijo.

  4. gláucia lemos disse:

    Em clima de avós, já tenho me referido a minha avó, nas minhas crônicas, à casa dela, principalmente àquele jardim no qual eu tinha certeza de que morava um gigante comedor de pedrinhas, debaixo da terra, toda vez que eu transitava por ele. Nunca porém, falei da influência que a minha avó materna exerceu sobre mim. Ela tinha sido professora de piano e muito me apoiava na minha rebeldia quando minha mãe me colocava nas mãos uma costura para bordar e eu detestava. Ela me dava montes de papel e lapis para eu fazer o que gostava, desenhar e escrever minhas histórias. Avós nem sabem a importância que têm na vida da gente. Tomara que eu esteja sabendo ser a avó que pretendo para os meus netos, que merecem o melhor.

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