Minha avó Alice, mãe de meu pai, era uma figura. Meio índia, cega, cheia de crendices, sabia histórias de assombração que fariam até Poe tremer. Eu e minha irmã ficávamos sentadas na porta da casa dela, escutando, impressionadas. Mais que cantar, minha avó amava ouvir canções. E me pedia para cantar para ela “Desencontros de Primavera” de Hermes Aquino. Às vezes, eu estava brincando com as crianças da vizinhança e ela me gritava da porta e pedia: “Canta para mim aquela modinha que eu gosto”. E eu cantava. A letra, decorada especialmente para atender ao pedido, eu sei até hoje:

Uma andorinha, no céu, passou e disse
que o amor que eu tinha foi-se embora

Ai, desacerto que cruza nossas vidas tão normais
é solidão que já vem,
é alegria que vai

Uma tristeza que corta a alma da gente
antes que a primavera se decida
à por as flores nos campos,
e o verde nas folhas,
com banhos de mar
O sol por sobre a cidade,
O vento vai cessar.

Ah! a solidão é uma canoa
navega o corpo e a alma voa
além do céu, além do mar

Ah! No pensamento a gente voa,
qualquer problema é coisa à toa,
fica tão fácil de se amar…

Eu me recordo dos beijos, gosto e tudo
E dos amores que praticamos juntos,
O sal do corpo esquecido
Nas noites tão doces de beijos e paz
Realidade é uma sombra
Eu começo a sonhar…

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