Calçadão da Barra

Cheguei da Europa e soube, aqui, do crime que o prefeito de Salvador está cometendo no Porto da Barra. Não posso ficar calado. É uma indecência manter as pessoas desinformadas a ponto de entrarem na guerra suicida à calçada portuguesa. O calçamento português é marca importante da nossa vida física e espiritual. Os incômodos que porventura venham de sua má conservação não são motivo para destruí-lo. Em São Luís (atualmente a cidade mais bonita do Brasil), as antigas calçadas portuguesas foram restauradas com o esmero técnico adequado e não provocam trepidação em carrinhos de bebê nem engolem saltos de madames. E são vastas e extensas áreas da cidade que as ostentam. As praças de Lisboa apresentam a mesma firmeza e a mesma elegância. Por que há tantos baianos votando a favor desse descalabro? Será que voltamos ao mau gosto vulgar que dominava antes de Jaime Lerner recuperar o Largo da Ordem em Curitiba? Regredimos para visão grosseira que teria deixado o Pelourinho, em Salvador, e o Largo da Lapa, no Rio, virarem pó e serem substituídos pelo caos dos restos da arquitetura moderna que enfeiam o Brasil? São restos culturais de baixa qualidade que se oferece aos grupos emergentes da sociedade, em nome da democracia. Não creio que seja um caso para votações inspiradas nesse tipo degradado de democracia. É caso para ouvirem-se os especialistas, respeitarem-se os locais históricos e míticos, esboçar-se uma reestruturação inteligente da cidade. Se isso não agrada de imediato a uma (suposta) maioria desavisada, não importa. O essencial está num texto escrito por Ordep Serra: um texto excelente sob todos os pontos de vista. Então, um lugar como o Porto da Barra pode ser violado assim? Não. Protesto veementemente. Não se pode adotar piso de concreto e granito polido na curva do Porto e tampouco a retirada das árvores. O que é que há com Salvador que o prefeito começou a construção de uma favela nas areias da orla e esse esboço continua lá, enquanto uma horda de desinformados apóia a destruição do Porto da Barra?

(Carta de Caetano Veloso, publicada hoje em A TARDE)

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10 comentários Adicione o seu

  1. martha disse:

    Apoiado, Caetano, apoiado.

  2. Ives Röpke disse:

    Eu já tinha visto as obras do atentado, mas não sabia dessa votação esdrúxula que decidiu sobre a retirada das pedras portuguesas do Porto da Barra. Caetano foi preciso quando disse que não cabe escolha popular para assunto tão técnico. Sobretudo porque os mais interessados na “remodelagem” são grupos emergentes sabidamente bregas e deslumbrados.

  3. gláucia lemos disse:

    Dá gosto ver que Caetano, “um homem do mundo”, continua vigilante às coisas que se passam na sua terra, aos desmandos de alguns baianos de coração bastardo que, em nome de uma modernidade vesga, procuram desfigurar nossas tradições e nossa história.

  4. Miro Paternostro disse:

    só posso dizer que assino em baixo! sinto-me profundamente indignado e triste com a burrice inenarrável que a Bahia está cometendo. impressionante ter visto que a maioria avalassadora dos votos na internet concordam com este absurdo.

  5. A cidade é evolutiva. Hoje vale mais priorizar a segurança em lugar da estética. Já vi idosos tropeçarem naquelas pedras e eles costumam caminhar ali; de agora em diante, caminharão com mais segurança. Uma queda na velhice pode ser fatal e os idosos podem e devem sair de casa. Outra coisa que mudou: antigamente a pessoa mais velha ficava enfurnada em casa; agora participa mais, o velho vive todavia. E irá caminhar com segurança na Barra!

  6. Kátia Borges disse:

    Gerana, concordo com Caetano. Uma restauração técnica poderia sanar os problemas sem que fosse necessário destruir e descaracterizar o calçadão. Mas o que se pode esperar de um prefeito que permite a destruição de um terreiro? BJ

  7. Meu comentário está restrito ao debate sobre a calçada. Acho que a tradição cultural é, sem dúvida, importante. Daí ficar no assunto da calçada: as pedras portuguesas não guardam uma tradição cultural que seja mais importante do que a proteção daqueles que precisam caminhar ao sol para melhorar a osteoporose. Não concordo quando ele cita carrinhos e saltos de madame, pois mostra que esqueceu dos idosos. Garanto que caminham ali mais idosos do que madames (e menos ainda as de saltos altos). Mais: em Lisboa as calçadas estão, em sua maioria, de granito! Lá, já é tradição pensar mais nos velhos.

  8. Katia Borges disse:

    Oi, Gerana, mas existe a possibilidade de restauração técnica do calçadão, o que ofereceria segurança a todos, tanto idosos quanto madames.

  9. maria sampaio disse:

    vocês já pensaram que além do prefeito existe toda uma corja à sua volta a ajudá-lo a pensar todas as bobagens que vem “construindo”? nos arquitetos que assumem realizar o projeto, acompanhar uma obra como a da Barra? A restauração do calçamento competente e técnica provavelmente até seria mais barata… mas… seria menos cimento para o fornecedor ganhar (?) comissão etc etc, sem fornecedor de granito e por aí vai.
    Não se fala mais nas “barracas” de alvenaria. E o absurdo de fechar o RIO da av. Centenário afinal fazendo dele um ESGOTO para sempre?
    Já vou

  10. Quero deixar claro que não estou defendendo prefeito. Explico: aqui, se ficamos a favor de alguma coisa, parece que estamos defendendo ou temos algo com o prefeito. Não tenho ligação com ele e sequer o vi alguma vez. Repito que estou restrita ao debate sobre a calçada. E por não acreditar em manutenção técnica, sei que logo as pedras portuguesas soltariam e novamente o perigo se apresentaria. Ah, e nada tenho com fornecedores de cimento ou granito etc. Apenas gostei da mudança.

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