agosto 2008


Contando: 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10…

Um dia vazo,
profundo mar.

Hoje, tem lançamento do “Livros de Imagens” de Antonio Naud Júnior e de vários livros do extinto selo As Letras da Bahia, a partir das 17 horas, no Palácio Rio Branco (Praça Municipal). Serão lançados: “Capoeira de Angola como treinamento” (Evani Tavares Lima); “O velho coronel e outras crônicas” (Regina Oliveira), “Ruínas aladas” (Luiz Fernando Calaça); “Ari Barroso e a invenção do Brasil brasileiro” (João Edson Rufino), “A poesia em crise, a palavra em pânico, o espelho náufrago” (Jorge Lima), “Ao amigo desconhecido” (Lago Júnior), “A outra margem” (Idmar Boaventura); “As voltas do tempo” (Lucia Santori-Carneiro) e “Belas e feras baianas” (Doralice Alcoforado, póstumo). E, no sábado, às 18 horas, tem lançamento do livro do gaúcho Paulo Scott, “Ainda Orangotangos”, no pátio do Icba, numa parceria do grupo Corte, que é Wladimir Cazé, Lima Trindade, Katherine Funke, Sandro Ornellas e Gustavo Rios, com o pessoal do Remix-se.

O poeta em mim

O poeta disse que há um Deus em mim.
E disse sem dizer – ou não dissesse.
Ah, poeta, eu sou o Deus de tua prece,
erva daninha axial de teu jardim.

Melhor: eu sou o totem do esconjuro
que dá sentido a teu mundéu de fé.
Ainda melhor: sou tudo o que não é
senão o escuro que disfarça o escuro.

Que Deus te disse! Tua própria voz
abre horizontes, mas os fecha em nós.
E o fado triste alegra-se em destino…

Eu creio, poeta, pois que Deus me disse,
olhando a hora como quem sorrisse:
tu és meu bálsamo do desatino.

Nova versão do poema de Luís Antonio Cajazeira Ramos

Há um poeta em mim

O poeta disse que há um Deus em mim…
E o disse sem dizer, ou não dissesse.
Ah, poeta, eu sou o Deus de tua prece,
erva daninha axial de teu jardim.

Melhor: eu sou o totem do esconjuro
que satisfaz a teu mundéu de fé.
Inda melhor: sou tudo que não é
senão o escuro que disfarça o escuro.

Que Deus te disse! Tua própria voz
abre horizontes que se fecham nós,
e o fado triste alegra-se em destino.

Eu creio, poeta (pois que Deus me disse,
da Sua efêmera e espectral ledice):
tu és meu bálsamo do desatino.

Luís Antonio Cajazeira Ramos

Minha avó Alice, mãe de meu pai, era uma figura. Meio índia, cega, cheia de crendices, sabia histórias de assombração que fariam até Poe tremer. Eu e minha irmã ficávamos sentadas na porta da casa dela, escutando, impressionadas. Mais que cantar, minha avó amava ouvir canções. E me pedia para cantar para ela “Desencontros de Primavera” de Hermes Aquino. Às vezes, eu estava brincando com as crianças da vizinhança e ela me gritava da porta e pedia: “Canta para mim aquela modinha que eu gosto”. E eu cantava. A letra, decorada especialmente para atender ao pedido, eu sei até hoje:

Uma andorinha, no céu, passou e disse
que o amor que eu tinha foi-se embora

Ai, desacerto que cruza nossas vidas tão normais
é solidão que já vem,
é alegria que vai

Uma tristeza que corta a alma da gente
antes que a primavera se decida
à por as flores nos campos,
e o verde nas folhas,
com banhos de mar
O sol por sobre a cidade,
O vento vai cessar.

Ah! a solidão é uma canoa
navega o corpo e a alma voa
além do céu, além do mar

Ah! No pensamento a gente voa,
qualquer problema é coisa à toa,
fica tão fácil de se amar…

Eu me recordo dos beijos, gosto e tudo
E dos amores que praticamos juntos,
O sal do corpo esquecido
Nas noites tão doces de beijos e paz
Realidade é uma sombra
Eu começo a sonhar…

“Que a malvadeza desse mundo é grande em extensão
E muita vez tem ar de anjo
E garras de dragão”

(Medalha de São Jorge, letra de Moacyr Luz e Aldir Blanc)

Próxima Página »