Estou lendo Borges, o primeiro volume das obras completas, e tentando escrever um romance de nome esquisito, “O coração de galinha”. Fico o dia inteiro com a história na cabeça, esperando oportunidade para desenvolver uma ou duas páginas. Vai lento, trabalhoso. Agora, por exemplo, imagino a cerimônia de cremação de um dos personagens. A certa altura, o irmão do morto se enche de coragem e decide recitar um poema. Escolhe justamente Borges, “Remorso por qualquer morte”, de “Fervor de Buenos Aires”.

Livre da memória e da esperança,
ilimitado, abstrato, quase futuro,
o morto não é um morto; é a morte.
Como o Deus dos místicos,
de Quem deve negar-se todos os predicados,
o morto ubiquamente alheio
não é senão a perdição e ausência do mundo.
Tudo dele roubamos,
não lhe deixamos nem uma cor nem uma sílaba:
aqui está o pátio que já não compartilham seus olhos,
ali a calçada onde sua esperança espreitava.
Até o que pensamos poderia estar pensando ele também;
repartimos como ladrões
o caudal das noites e dos dias.

Ao sair do cemitério, o personagem segue para o apartamento do irmão, onde tudo permanece à espera. Como cães domesticados, enfileirados nos armários, os ternos parecem aguardar o corpo cremado há pouco. Ele é apenas um intruso a percorrer o imóvel gigantesco, debruçado sobre a Baía de Todos os Santos. “Até o que pensamos poderia estar pensando ele também”. Imagina o irmão em seu minúsculo quarto-e-sala no Dois de Julho. Certamente, estaria considerando a possibilidade de doar suas quinquilharias. E ele, morto, deixaria ao outro muitos livros e pequenas dívidas.

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