A minha avó era cega.
Dela, herdei a capacidade
de ver sem usar os olhos. E a paixão
por uns sambas antigos,
partido alto e dona Ivone Lara.

A minha avó era alta. Seus cabelos,
muito lisos e compridos,
envolviam a cintura.
Eram penteados com cuidado
todas as tardes, e presos em um coque.

Os seus vestidos, de tecido barato,
quase cobriam os pés. A minha avó
contava histórias de assombrar,
ensinava a amar certas canções
e fazia predições todo fim de ano.

Eu fugia com medo do futuro
e me escondia no quarto.
O presente me bastava,
com seus fantasmas,
e as notícias do mundo no Fantástico.

A minha avó gostava de beber aperitivo,
de mascar fumo e de me ouvir cantar
a música de um português chamado Hermes Aquino.
Poucos se lembram dele.
Poucos se lembram dela.
Poucos se lembrarão de mim.

A minha avó era cega.
Dela, herdei a capacidade de ver sem usar os olhos.

Hoje, sei lá, deu vontade de lembrar esse poema, escrito para minha avó Alice.

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6 comentários Adicione o seu

  1. aeronauta disse:

    Considero esse poema um dos seus grandes momentos. Inclusive meus alunos também.

  2. Também já escrevi poema sobre minhas avós, mas este seu é arrepiante. Belo.

  3. martha disse:

    Lindo, Kátia.
    Estou muito triste porque hoje fazem oito dias que meu pai morreu.
    É bom a gente sabe que carrega nossos mortos.
    beijo,
    MArtha

  4. martha disse:

    Kátia, soou mal esse “fazem” aí. Deve ser o peso dos dias…

  5. blag disse:

    Belo, belo.

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