Dendê

Quando Dinha morreu,
alguém gritou de lá
“antes ela, do que eu”,
e fez piada do tacho vazio
no Largo de Santana.
A vida estava quieta, branca,
feito sexta-feira na Bahia,
e lembrei o pai,
perguntando ao médico
se, após a quimio,
poderia voltar a comer acarajé.

De bermudas e boné, o pai,
sambava sozinho entre a sala e a cozinha
e, na bebida, chorava meu avô:
“naquela mesa tá faltando ele”.
Alguma coisa mexia [uma tristeza?],
às seis da tarde da Ave Maria.
Vivíamos, os dois, naquele estreito.
E Dinha? Comia acarajé todo santo dia.

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3 comentários Adicione o seu

  1. aeronauta disse:

    Kátia, que poema! Só um poema desse (terno, lírico, comovente) faz eu encarar o domingo com outro olhar. Obrigada.

  2. blag disse:

    Fiquei uns dias fora e, aí, um monte de coisa nova. Esse, então, tá blz. Um tabuleiro de ternura! Bjs.

  3. janina fleury disse:

    Você pode não acreditar,mas estava procurando um vídeo que vi sobre esta música,naquela mesa tá faltando ele,pra mandar sugerir pra vc,pois é um cara que filmou a mãe dele na sala,quieta, na mesa,lembrando do marido que se foi,é simples e lindo, e achei madame k,este seu poema.Enfim,se quiser,procçure pois é bonito,pensei em te mandar por causa do seu carinho pela sua mãe,que é bom e bonito de se ver.Um abraço amigo,janina fleury

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