Quando Dinha morreu,
alguém gritou de lá
“antes ela, do que eu”,
e fez piada do tacho vazio
no Largo de Santana.
A vida estava quieta, branca,
feito sexta-feira na Bahia,
e lembrei o pai,
perguntando ao médico
se, após a quimio,
poderia voltar a comer acarajé.

De bermudas e boné, o pai,
sambava sozinho entre a sala e a cozinha
e, na bebida, chorava meu avô:
“naquela mesa tá faltando ele”.
Alguma coisa mexia [uma tristeza?],
às seis da tarde da Ave Maria.
Vivíamos, os dois, naquele estreito.
E Dinha? Comia acarajé todo santo dia.

Anúncios