julho 2008


Minha Santa Cecília,
povoai o crânio de quem amanhece
com a alma escapada da poesia!
Dai-me, Santa Cecília,
teu cajado emprestado
e eu vou pastorear minhas nuvens
levando-as para bem longe…
Ah, minha Santa Cecília,
Desce de onde estás e aquece
esses versos sem paradeiro certo
esses versos de sons quebrados
esses versos feios e mal-feitos
Adornai, minha Santa
a alma de plantas e palavras
e quando eu acordar bem cedo
soprai para mim duas vezes
o mais leve segredo.


(Não resisti à tentação e “roubei” esse poema, inacreditável de tão belo, do blog da Aeronauta)

Meu homem chega cansado,
o suor grudado na pele.
E eu, que o imagino calmo, me deito,
rosto contra o travesseiro
e aguardo.
Ele deita seu peso sobre meu corpo,
e seu cheiro é forte,
como o de um cavalo.
Sinto seu hálito no pescoço,
suas pernas forçando passagem
entre minhas pernas.
O amor não tem rosto, penso,
é essa pressão — pele contra pele
— esse atrito de pêlos.
Quero dormir e sonhar que nos amamos,
e que antes de me possuir, ele me despe, delicado.
Quero dormir e sonhar que ele chega,
só em sonho posso tê-lo sem essa fúria.

(poema do livro “De Volta à Caixa de Abelhas”)

(para Vanderlei Carvalho)

Não veria o inverno, aquele ano,
com os termômetros loucos,
marcando 17 graus na cidade quente.
Nem as ondas, no Flamengo,
espargindo sobre as rochas,
seu salitre. Em março,
sumiria na floresta de Bara,
como Ram, o novo Buda,
encarnação do lendário príncipe.
E, após a morte, em sono, em sonho,
reapareceria outra vez. Tão docemente,
como se, em suas entranhas, as raízes
de peepal iluminassem, em fogo santo,
as vestes. Só o verão, guardaria nos olhos,
levando aos horizontes de Lumbini.

Meu blog predileto é o Cadernos Grampeados, de Celso Júnior. Desde que o conheci, via Paulinha, minha irmã, fiquei viciada. Adoro o modo como Celso, que é ator e diretor teatral, narra seus dramas, suas viagens, seus passeios pela cidade e suas experiências gastronômicas e culturais. De quebra, ainda tem o fotolog Fotos Grampeadas, com imagens que ele faz, o que inclui registros de pratos elaborados. Agora, ele está em São Paulo e descreve cada dia das férias, com detalhes sobre onde comeu, o que assistiu, o que comprou, enfim, um diário mesmo. Como são o Soterópolis Sampa, de Paloma Guedes, e o Buko e Whisky, de Renato Gaiarsa, namorado dela. Deliciosos diários virtuais, compartilhados generosamente. Celso, conheço só de vista. Paloma e Renato foram colegas na especialização da Facom. É engraçada essa blogosfera.

Pingüins perdidos vieram parar na Bahia. Um cara tentou ontem vender um deles por R$ 500. Comentei com um amigo e ele falou pra mim: “Ainda bem que ele não encontrou minha mãe, ela ficou louca para ter um”. Outro disse que queria um para colocar num cercadinho no alto da geladeira. Os pingüins estão em vantagem em relação aos humanos. Uma moça tentou vender a filha por R$ 5 a um traficante. Negociou com uma alma caridosa por R$ 15. A criança foi parar na Vara da Infância e Juventude. Os R$ 15 viraram crack.

Foi debaixo da máquina de costura
de minha mãe que eu aprendi a ler,
juntando uma letra na outra
numa revista em quadrinhos.

Quando o som da sílaba era enigma,
minha mãe freava o cerzir, em sua Singer antiga,
e vinha pra perto de mim, ensinar como o s pode soar como z
ou como faz o eleagá quando se junta com o a.

Depois, saindo de carro, com meu pai,
pela cidade, eu ia olhando os cartazes
e lendo os anúncios gigantes e as placas
nas portas dos bares. E ele, admirado,
perguntava pra minha mãe:
– Como ela aprendeu tão rápido?

Quando comecei a ler de verdade
foi como se engatassem um trem veloz nos meus trilhos,
e ele corresse com vontade, descortinando paisagens,
levando-me ao meu destino.

Mania é coisa que a gente tem mas não sabe por que.
Mania de querer bem, às vezes de falar mal.
Mania de não deitar sem antes ler o jornal.
De só entrar no chuveiro cantando a mesma canção.
De só pedir o cinzeiro depois da cinza no chão.
Eu tenho várias manias, delas não faço segredo.
Quem pode ver tinta fresca sem logo passar o dedo?
De contar sempre aumentando, tudo o que diz ou que fez.
De guardar fósforo usado dentro da caixa outra vez.
Mania é coisa que a gente tem mas não saber por que.
Dentre as manias que eu tenho, uma é gostar de você.

(Manias, de Flávio e Celso Cavalcanti)

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