Sexta-feira, 13, dia de Santo Antônio. Fui ajudar na montagem do blog de Luís, mas acabamos apenas tomando café com um bolo de milho inacreditavelmente delicioso. Conosco estavam Lima Trindade, da Verbo 21, e Gerana Damulakis, do Leitora Crítica, minha madrinha literária. Terminamos a noite com um recital improvisado na sala do apartamento (Sá Carneiro, João Cabral de Melo Neto e Fernando Pessoa). Também falamos sobre livros marcantes, poetas queridos e autores indispensáveis em qualquer repertório, de Salinger a Dostoiévski. Gerana e Luís leram bem mais que eu. Fiquei arrepiada com “A mulher e a casa”, poema de Cabral que eu não conhecia e que Luís recitou. Vale ler ou reler. Publico aqui. E, lentamente, o “Madame” chega aos 20 mil acessos, de novembro de 2007 até agora.

A mulher e a casa

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
pelos recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.

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