Judite morou lá em casa quando eu era criança e ela, adolescente. Minha prima, quase uma segunda mãe. Ficou conosco algum tempo e, depois, voltou para Baixa Grande. Dava aulas e trabalhava na coletoria da cidade. Eu adorava ficar lá com ela, fingindo mexer nas máquinas de escrever enormes. Judite queria muito ter filhos e colecionava fotos de bebês, que cobriam inteiramente uma das paredes do seu quarto. Vivia cantarolando “Eu só quero um xodó”. Um belo dia, Judite apareceu em Salvador com um namorado. Em pouco tempo, casou, teve duas meninas e construiu uma casa em Baixa Grande. Passou a sonhar, então, com a aposentadoria e a mudança para a capital. Afinal, as filhas, já crescidas, precisavam entrar na faculdade. E, tenho a intuição, ela também pensava em voltar a estudar. Um dia antes de a aposentadoria ser publicada no “Diário Oficial”, Judite foi assassinada por um desconhecido na rodoviária de Feira de Santana. Ela estava de carona com o irmão, de carro, e marcara ali, por acaso, o encontro para o retorno. Judite lia um livro quando o assassino afanou um estilete na barbearia (atrás do banco em que ela estava) e, do nada, cortou-lhe o pescoço. Preso, contou que vinha de um outro Estado e, por impulso, descera do ônibus naquele ponto.

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