Manuel, meu amigo imaginário

Chove fino em Salvador neste último sábado de maio. E eu pensando em cerveja e em comida de botequim. E no São João, essa festa melancolicamente alegre. Como no poema de Bandeira que li criança em “Estrela da Vida Inteira”, livro que ainda guardo comigo, mesmo velhíssimo e sem a capa. Manuel, meu amigo imaginário,…

O congresso internacional do medo

Ai, querido, estou quieta. E durmo enrolando os cabelos. Me ponho no sonho ou pesadelo. Ai, querido, esta vida tem me dado tanto. Se faço uma lista, fico besta. Não como do lixo, não tiro meu sustento do lixo. Apenas sigo. E seguir é tudo. De mais verdadeiro e de mais bonito. E, enquanto sigo,…

Fragmento de um poema de Ginsberg (para E.)

O peso do mundo é o amor. Sob o fardo da solidão, sob o fardo da insatisfação, o peso. o peso que carregamos é o amor. Quem poderia negá-lo? Em sonhos nos toca o corpo, em pensamentos constrói um milagre, na imaginação aflige-se até tornar-se humano – sai para fora do coração ardendo de pureza…

Só a ignorância me acompanha

Nada sei de rimas ou de poesia, Martha/Maria. Só a ignorância me acompanha, e uma brisa de infinita sabedoria é o que mantém suspensa no papel a frágil tinta em águas turvas – tenho visto tantas vezes afogar-se meu lirismo – e aquela flor, triste/raríssima, cultivada com cuidado no vaso onde jaz o que não…

Essa doeu

Estou ouvindo horrores um disco de 1995 do “Nouvelle Cuisine”. O título é “Novelhonovo” e traz canções deliciosas. Há três anos, quando mudei para este apartamento, joguei no maleiro do guarda-roupas uns seiscentos CDs. Não tenho mais vinil, um único. Dei os últimos ao pedreiro que fez a reforma da casa antiga na Cidade Baixa….

E se chover?

Foto: Marina Novelli | Divulgação Muito bacana o “Dois em um”, formado por Luisão Pereira, baiano, e Fernanda Monteiro, carioca. Li uma matéria sobre eles em “A TARDE”, assinada por Chico Castro Jr. Já conhecia o som do casal do Myspace. Gosto do clipe da canção, e da canção, “E se chover?” O desenho do…

Zélia e Jorge

Foto: Adriana Lorete Ao saber da morte de Zélia Gattai, fiquei triste e lembrei a última entrevista que fiz com ela para A TARDE. Já morando no Horto Florestal, a escritora me recebeu com simpatia no amplo apartamento e conversamos longamente. Zélia Fez questão de me mostrar os cômodos, como se eu fosse uma visita,…

Tanto veneno, meu Deus!

E, então, eu seguro o pequeno animal peçonhento entre os dedos como se ele fosse um tesouro. Um único escorpião amarelo pode gerar até 40 outros. E sem necessidade de macho. Duas crias em um ano, 20 filhotes em cada cria. Uma espécie formada apenas por fêmeas, na qual os óvulos se desenvolvem sem fecundação….

Amadurecer para sobreviver

Vi umas fotos péssimas de Amy Winehouse em sites de fofoca. Há quem faça piadas. Penso em Janis Joplin, principalmente nos registros da passagem dela pelo Brasil, uns meses antes de morrer de overdose, aos 27 anos. As fotos de Joplin foram publicadas originalmente na revistra “Trip”. Ponho as duas lado a lado aqui no…

Soneto peripatético

Se a solidão adensa com seus frios humores o silêncio de geleiras, a esperança derrete como guizos de festa o gelo em cores de aquarelas. E se a esperança se contorce em risos, como a graça incontida de donzelas, a solidão imposta-se de brios, como um asco escolástico de freiras. Essas inseparáveis inimigas giram em…

Como se

Como se cantasse por bebida na Belleville e tivesse uma amiga, uma única amiga, chamada Mitre, com a qual dividisse um quarto na sarjeta, e um sonho absurdo, embalado em absinto. E, de repente, ela visse claramente que não presto e me deixasse só, com poucas moedas no bolso. E, então, em meu pesadelo, eu…