maio 2008


Chove fino em Salvador neste último sábado de maio. E eu pensando em cerveja e em comida de botequim. E no São João, essa festa melancolicamente alegre. Como no poema de Bandeira que li criança em “Estrela da Vida Inteira”, livro que ainda guardo comigo, mesmo velhíssimo e sem a capa. Manuel, meu amigo imaginário, meu porquinho da índia, meu querido. Chove fino em Salvador neste último sábado de maio. E eu quero muito que a vida siga seu rumo. Ah, eu quero muito encontrar um lugar legal, com chopp gelado e petiscos quentes, para ir depois do trabalho…

Ai, querido, estou quieta. E durmo enrolando os cabelos. Me ponho no sonho ou pesadelo. Ai, querido, esta vida tem me dado tanto. Se faço uma lista, fico besta. Não como do lixo, não tiro meu sustento do lixo. Apenas sigo. E seguir é tudo. De mais verdadeiro e de mais bonito. E, enquanto sigo, aprecio a paisagem do mundo. Não é Google Earth. É a vida mesmo, com sua beleza e monstruosidade. Não pretendo parar de escrever. Prefiro Rilke a Pécora. E perco sempre o prazo de inscrição no Congresso Internacional do Medo.

O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação,

o peso.
o peso que carregamos
é o amor.

Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano –

sai para fora do coração
ardendo de pureza –

pois o fardo da vida
é o amor,

mas nós carregamos o peso,
cansados,
e, assim, temos que descansar
nos braços do amor,
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.

Nada sei de rimas ou de poesia, Martha/Maria.
Só a ignorância me acompanha,

e uma brisa de infinita sabedoria
é o que mantém suspensa no papel a frágil tinta

em águas turvas
– tenho visto tantas vezes afogar-se meu lirismo –

e aquela flor, triste/raríssima, cultivada com cuidado
no vaso onde jaz o que não sei de rimas.

Ah, o meu lirismo –
e toda poesia – voltarão singelamente ao nada

algum dia, este lugar sagrado no qual repousam
versos que respiram imperfeitamente.

Ah, sim, por mais que digam e por mais que tentem
me convencer de que esta rosa é cardo agreste.

Estou ouvindo horrores um disco de 1995 do “Nouvelle Cuisine”. O título é “Novelhonovo” e traz canções deliciosas. Há três anos, quando mudei para este apartamento, joguei no maleiro do guarda-roupas uns seiscentos CDs. Não tenho mais vinil, um único. Dei os últimos ao pedreiro que fez a reforma da casa antiga na Cidade Baixa. “Hatful of Hollow”, dos Smiths. “Fruto Proibido”, de Rita Lee, “Dois”, da Legião Urbana, e “Cheap Thrills”, de Joplin. Essa doeu, embora eu tenha um montão de gravações remasterizadas, incluindo a caixa que a Sony Music lançou e que traz várias faixas-bônus com sobras de estúdio. Algumas são inacreditavelmente ruins e ainda assim preciosas. Não vivo sem Janis desde os 14 anos.

Foto: Marina Novelli | Divulgação

Muito bacana o “Dois em um”, formado por Luisão Pereira, baiano, e Fernanda Monteiro, carioca. Li uma matéria sobre eles em “A TARDE”, assinada por Chico Castro Jr. Já conhecia o som do casal do Myspace. Gosto do clipe da canção, e da canção, “E se chover?” O desenho do clipe é de Michael Dudok de Wit (“Father and Daughter”), que ganhou o Oscar de melhor curta de animação em 2000. Ia postar, mas ficou lento demais para executar. Curiosos e fãs podem clicar aqui.

Foto: Adriana Lorete

Ao saber da morte de Zélia Gattai, fiquei triste e lembrei a última entrevista que fiz com ela para A TARDE. Já morando no Horto Florestal, a escritora me recebeu com simpatia no amplo apartamento e conversamos longamente. Zélia Fez questão de me mostrar os cômodos, como se eu fosse uma visita, e, com o talento de contadora de histórias que a tornou famosa, recordou algumas peripécias de Jorge, com especial destaque para a divertida amizade que o autor baiano manteve com Pablo Neruda. Saí de lá entristecida por ter presenciado, ainda que de modo breve, e sempre por força da profissão, três momentos diversos da vida daquele casal. No primeiro, ainda foca, entrevistei Jorge Amado para o jornalzinho da Coelba. No segundo, já profissional, ao entrevistar Zélia, na Rua Alagoinhas, para A TARDE, não consegui tirar os olhos de Jorge, deitado numa espreguiçadeira, quase cego e muito deprimido. E, finalmente, este último, no Horto, conversando com ela, já viúva, longe da casa do Rio Vermelho, mas cercada por lembranças materiais e imateriais. Espero sinceramente, embora saiba que muitos discordam, que o jardim, onde estarão agora as cinzas dos dois, seja considerado solo culturalmente sagrado na Bahia

Próxima Página »