abril 2008


Na noite passada, sonhei que meu cachorro havia desaparecido. Desde a operação, ele tem sido mantido distante. Anda nervoso com isso, pois é muito mimado. Outro dia, Érica o levou para passear no condomínio e ele quebrou a coleira e atacou um outro cão. Nunca havia feito coisa parecida antes. Pelo contrário, é absolutamente tranqüilo. Todas as manhãs, ele vem ao meu quarto e fica me olhando de longe. Às vezes, dorme no vão da porta, como se estivesse de guarda. Quando posso, faço um carinho rápido na cabeça dele. Meu cachorro é como uma criança. Domingo de manhã e três canais (inclusive o GloboNews) transmitem ao vivo a reconstituição do Caso Isabella. São tantos os detalhes sórdidos que, confesso, sou incapaz de processar. Eles me fazem perder o sono e a fé na humanidade. E não falo apenas do assassinato, mas da cobertura “jornalística”. Sempre que penso na versão apresentada pelo pai, Alexandre Nardoni, me vem à mente o conto “Os Crimes da Rua Morgue”, de Poe. Quem dera descobrissem que foi um orangotango furioso, que, em sua inocência selvagem, espancou, asfixiou e lançou a menina do sexto andar.

Como quem vive na quietude,
deixando que o tumulto passe.
E acompanha a turba,
disfarçado de padre, ou guarda
a placa de protesto sob a burca.

Como quem morre na quietude,
deixando que os anjos voem.
E desaba sobre os joelhos,
engolindo a juventude, ou vomita
diante de todos na última noite.

Como quem sabe: “Ah, é inútil
insistir no erro”. E grita, sem nome.

Só o domingo não é um dia da semana,
só o domingo é
alto e anterior ao calendário,
só o domingo pertence
ao que é invisível ao homem,
só o domingo se põe como um cavalo vermelho
sobre as nuvens…

Há dez dias, entrei pela primeira vez na vida numa sala cirúrgica. Daí o “Madame” estar às moscas. O pós-operatório tem sido doloroso. De licença médica, em casa, ando sem paciência para ler e cansada de cama e TV. Ontem, finalmente, consegui postar um São Jorge (era o dia dele!). Hoje, decidi me aventurar num post inteiro. Mas não quero forçar muito. Não há grandes novidades, como vocês podem imaginar. E nem inspiração. Amanhã, talvez, se as dores derem nova trégua. Hoje, além de postar, até cantei. Canções de Dalto.

Trechos da entrevista que fiz com um dos meus autores prediletos, João Gilberto Noll, para o jornal A TARDE em 2004. Ele fala sobre o romance “Lorde”. A foto é de Felipe Zig.

João Gilberto Noll é daqueles raros autores que não perdem a simplicidade, mesmo sendo um dos mais festejados e premiados do País. Sua bagagem inclui quatro Jabutis e prêmios da Fundação Guggenheim, Academia Brasileira de Letras (ABL), Instituto Nacional do Livro e Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), além de bolsas concedidas pela principais instituições, e de um convite, recebido em 1997, para lecionar Literatura Brasileira no Campus de Berkeley da Universidade da Califórnia (EUA). Noll é formado em Letras pela PUC-RJ. Autor de vários livros e estreando em uma nova editora (a W11), ele passou dois meses em Londres, este ano, como escritor-residente no King’s College. E foi na capital londrina que surgiu a idéia para Lorde. Nessa entrevista, ele fala também sobre o livro anterior pela W11, a coletânea Mínimos, Múltiplos, Comuns, que reúne contos publicados na Folha de S. Paulo, e sobre criação, arte e o esgotamento do eu, um dos temas contemporâneos que mais o inspira.

Kátia Borges – Você escreveu Lorde depois de uma experiência londrina. Podemos dizer que o livro, de certo modo, engana o leitor, já que autor e personagem parecem meio misturados nas primeiras páginas?
João Gilberto Noll – Eu escrevi o livro no período em que fui escritor residente do King’s College e eu me alimentei muito da minha experiência em Londres, embora o livro não seja uma autobiografia. Existem uns toques ficcionais.

KB – O protagonista vai se distanciando do autor à medida em que se afasta do aeroporto e inicia um processo de mutação. Concorda?
JGN – Sim. Acho que você fez uma leitura muito sensível do livro. É assim mesmo. À medida em que ele se afasta daquele aeroporto, ele vai se distanciando também da identidade que ele tinha. No meu caso, havia uma instituição sólida e verdadeira por trás do convite para ir a Londres. No caso dele, não. Ali começa a haver a necessidade de uma transformação, de uma metamorfose, que ele também estava ansiando ao atender ao chamamento do inglês.

KB – A estranheza que envolve o personagem principal fisga a curiosidade do leitor, e eu ousaria dizer que ela permanece, para além da última página, já que esta nos lança em um novo enigma.
JGN – Concordo com essa análise, tanto que estou idealizando uma trilogia a partir desse livro. Acho que tenho muito a dizer sobre esse pequeno Frankenstein em que o personagem se transformou, sob um novo heterônimo, para usar uma palavra de Fernando Pessoa. O aspecto de consciência continuou sendo a dele, mas o corpo passou a ser o de um inglês.

KB – Em alguma medida, como a sua experiência no King’s College de Londres estimulou a criação de Lorde?
JGN – Foi total. O estímulo foi total. Eu fui para dar andamento ao meu projeto de romance. Quando tenho um projeto, eu parto de manchas muito difusas, gosto que os personagens tomem conta da ação. Os destinos deles se fazem no ato da escrita. É o meu modo de escrever. Evidentemente, há outros. Eu sou um escritor que trabalha o inconsciente e que gosta de ser surpreendido. Se eu soubesse o final, escrever deixaria de ser necessário. Para mim, a escrita é uma investigação. Sou um escritor da linguagem e é ela que vai abrindo o caminho, com seu ritmo e sua melodia. No caso de Lorde, a idéia veio do ato de caminhar pelas ruas de Londres. O personagem central, seguindo o exemplo de outros personagens centrais meus, é um andarilho, que gosta de se sentir mergulhado na multidão. Alguém que quer ser todo mundo e, ao mesmo tempo, ninguém. E isso expressa uma grande paixão, um grande amor, mas tem o perigo de representar a morte. O amor é essa mistura.

KB – Lorde acaba propondo também uma reflexão sobre a função do escritor no planeta. E, ao mesmo tempo, sobre o envelhecimento e a identidade. E não deixa de ser ironia que o ensino da língua portuguesa seja o resgate do personagem.
JGN – Ele quer ser outro, por estar sofrendo de um esgotamento do eu. É por isso que ele se maquia e pinta o cabelo. Mas não só por isso, é muito pelo processo da decrepitude. Ele nem é tão velho assim, tem uns 50 e poucos anos, mas já está antevendo a condição da velhice. Em relação ao ensino da língua portuguesa, como já dizia Fernando Pessoa: “Minha pátria é minha língua”. E isso é só o que ele tem, no final, a língua portuguesa. Não é à toa que ali eu cito Manuel Bandeira, de quem ele se lembra. Bandeira é o poeta da simplicidade.

KB – Como surgiu a idéia de trabalhar com instantes ficcionais em Mínimos, Múltiplos, Comuns?
JGN – Esse processo é resultado do que eu escrevi, duas vezes por semana, para a Folha de S. Paulo. Hoje, não sei se são contos. Acho que “instantes ficcionais” é uma boa definição. Fiz uma seleção, junto com Wagner Careli. Sou responsável pela criação, mas foi o Wagner que os organizou por temas. Eu parti de um convite e fiquei completamente envolvido com isso durante três anos e meio. Agora, tenho feito a mesma coisa para o Correio Braziliense, só que, desta vez, é um conto grande, publicado quinzenalmente no suplemento Pensar, e que ocupa duas páginas em tamanho tablóide. Não aceito fazer crônicas, não sou um cronista, não gosto de falar de coisas reais, não tenho vocação para isso. Não gosto de escrever a partir de um tema, de um assunto, mas de deixar que a linguagem me tome e me leve.

KB – Você diz que a linguagem é o “abre-te sésamo deste novo mundo”. Esse, em sua visão, é o lugar destinado à literatura, à linguagem, no século XXI?
JGN – Eu acho que sim. Evidentemente, para o sujeito que se propõe a ser artista da palavra, sobretudo o poeta. Mas a poesia não está somente nos versos. A prosa também pode ter um cunho poético. Essa questão de deixar o inconsciente fluir através da linguagem é a função do escritor. Ele tem que “presentificar”, mostrar ao leitor, como é difícil o parto da linguagem. Às vezes, as questões que ele trabalha não têm, aparentemente, nenhuma importância política. Mas, por exemplo, considero a crise das identidades e a solidão urbana como um assunto de importância política, principalmente no mundo violento em que vivemos.

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