fevereiro 2008


O segredo da felicidade estava o tempo inteiro na Bíblia. “A cada dia o seu mal”.  Hoje é um sábado incrivelmente ensolarado. Dirigi até o trabalho rezando silenciosamente. É que na sexta, ao pegar meu carro no estacionamento, vi um casal remexendo o lixo do prédio atrás de restos. E conversei com minha mãe sobre um tema que a inquieta muito, o envelhecimento. Nunca ouvi, ou vi, a minha mãe daquele modo. Nunca a compreendi tão completamente. Então, hoje, fui para o trabalho (numa manhã de sábado incrivelmente ensolarada), rezando silenciosamente e agradecendo. Por viver dignamente num país miserável. Por estar envelhecendo ao lado da  minha mãe.

Mudo sempre. De tédio, não morro. Renovo. Energia parada atrai insetos. E, mesmo sem assunto sério, escrevo. Não prometo nada muito… Leiam o subtítulo de novo: “poesia e papo furado”. Entre os dois, alterno. E, assim, passamos de um ano.  Detesto ter que dar conta do mundo. Basta o interno. O inferno são os outros? Então, deixa meu blogue quieto, inquieto, meio burro. De tudo, o universo precisa um pouco. Até do que é médio. O máximo bate no teto. Acaba danificado. E o rasteiro, e o réptil, também compõem o absoluto. Querer perfeição é absurdo até para quem anda em linha reta. Ah, deixa que eu siga meio estúpida, absolutamente média. Felicidade é bicho caprichoso. De repente, distraídos, a gente acerta. 

*Com referências óbvias ao “Poema em Linha Reta”, de Pessoa, e ao livro “Distraídos, Venceremos”, de Paulo Leminski. 

Não há nada mais irritante que a mania de levar máquinas digitais de fotografia para todo lugar. Noite dessas, num restaurante, mudei de lugar para escapar da luminosidade dos flashes. E nem eram turistas. Apenas amigos meio altos eternizando um encontro, possivelmente para atualizar o álbum do Orkut. Em outra ocasião, dentro de um teatro, minutos antes do início do espetáculo, meninas resolveram acrescentar novas aquisições ao fotolog. E tome-lhe mais espoucadas de luz nos olhos dos outros. E nem falei ainda sobre os celulares. Até no cinema, quando não tocam, eles acendem de repente no escuro, dando sustos em quem estava concentrado no filme. E qual o aparelho que não tem uma câmera embutida? Algumas chegam a 3 ou 4 megapixel. Mas basta o VGA, bem básico, para justificar o registro de qualquer movimento. Quem nunca tropeçou em gente posando nos corredores dos shoppings centers? E penso inevitavelmente nas fotos que uma grande amiga guarda da filha que morreu aos 14 anos em um acidente de carro. Foram tiradas pelo namorado da garota sem que ela soubesse, quando fotografar envolvia um filme. Foram tiradas poucas horas antes do acidente. E sem nenhuma pose.

E por falar em saudade, Joana,
me mande notícias da filha
que você me deu pra batismo
numa carta vinda de São Paulo.

Me fale da vida, me diga
como sobreviver aos pedaços,
e encaixar as rodas nos trilhos,
pois eu, por aqui, descarrilho.

Me diga, Joana, me diga,
se levou de mim algo bom,
do ensino das constelações,
e de outras experimentações.

Escreva sobre as coisas boas,
me mande notícias da filha
que você me deu pra batismo
e que eu nunca abençoei.

Foi pela distância? Me diga.
Ou por algo que eu não falei?

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Fim de semana de folgão. Dormi bastante no sábado e só saí de casa quando o dia escureceu. Olhando as opções de cinema no jornal de sexta, fiquei dividida entre “Onde os Fracos Não Têm Vez”, dos irmãos Coen, e “Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet”, de Tim Burton. Acabei indo ao teatro nos Barris com Érica ver a peça “Avental Todo Sujo de Ovo”, belo texto de Marcos Barbosa, atuação impecável de Christiane Veigga, e esticamos no “Beco da Rosália”, um bar  que fica perto do “Espaço Xisto Bahia”. No domingo, almoço com Érica no “Frango do Moura”, passeio de carro com meus sobrinhos, atrás de pão fresco no Cidade Jardim, um giro pelo condomínio com meu cachorro, Billy Negão. Bobeira santa o dia todo. Como deve ser. Antes de dormir, uma blogada básica. E saudades do meu I Ching…

O “Big Brother” não é coisa nossa. Foi criado por um holandês, o produtor John De Mol. E engana-se quem pensa que o formato é inspirado no livro de George Orwell. O próprio De Mol nega e diz que a idéia surgiu a partir de um projeto científico chamado “Biosfera 2”. A referência a “1984” foi um modo de escapar do duvidoso “A Gaiola Dourada”, primeira sugestão de batismo. O “Biosfera 2” foi criado em 1986 no deserto do Arizona e custou 200 milhões de dólares. Financiamento particular, feito por um empresário do Texas. Além de seres humanos, mais de 3 mil espécies (animais e vegetais) foram confinados numa espécie de redoma de vidro e aço com 12 mil metros quadrados e réplicas de montanhas, lagos e até um oceano artificial, com 4 mil litros de água. Em 1991, oito pessoas inauguraram a experiência e ficaram trancafiadas por dois anos. O projeto fracassou, embora a Universidade de Columbia tenha se interessado por ele em 1996. Não havia câmeras, apenas sensores de temperatura e umidade. 

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