fevereiro 2008


O ano é 1997. Madrugada de sábado em São Paulo. Cinco ladrões invadem o Bodega, reduto de artistas e jovens de classe média alta no bairro de Moema. Um rapaz é atingido no braço por um tiro ao sair do banheiro. Outros dois  têm menos sorte. São baleados e mortos. A sociedade desperta da habitual letargia junto com a mídia. Movimentos contra a violência são rapidamente criados. E, com a mesma desenvoltura, a polícia civil  aponta culpados. Nove rapazes negros e pardos, moradores da periferia. São detidos como suspeitos e confessam. A imprensa notícia tudo por um ângulo, o da autoridade policial. Não leva em consideração sequer as contradições entre o que dizem testemunhas e funcionários – cinco rapazes brancos foram descritos como autores do assalto – e os fatos. Mas, denunciados ao Ministério Público, os acusados são libertados por um promotor de apenas 29 anos, que discretamente acompanhava o caso a distância. Todos haviam sido barbaramente torturados. Nenhum deles jamais pôs os pés no Bodega. Após um linchamento público, o promotor mostra  que estava certo. Os verdadeiros criminosos são presos e julgados. E nem assim a grande imprensa – com exceção de Luís Nassif – dedica qualquer espaço à correção de seus erros. Dez anos depois, um jornalista,  repórter de TV, percorre as ruas de terra batida das favelas. Busca, um a um, os sobreviventes do episódio. Encontra vidas destruídas pelo caminho. E narra tudo em um livro.

 Bar Bodega – Um Crime de Imprensa, de Carlos Dorneles

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Gosto de mim. Eu me namoraria. Me daria um tempo até para emagrecer. Ah, eu juro que teria essa paciência comigo. Pesaria apenas as minhas qualidades. Uma pessoa bacana assim não se ama todo dia. E ainda mais com tanta modéstia e humildade. E sabe das coisas. Ah, como sabe! Se eu fosse de áries, então, sem sombra de dúvidas, diria: “você é a pessoa que eu esperava”. Ah, sim, eu diria. Quem mais poderia cantar com tanta propriedade uma canção de Janis Joplin? Sim, quem poderia? E as coisas loucas e lindas que eu me daria? Uma viagem romântica e pronto. Mil pontos no meu coração card. Eu me daria livros interessantes. Eu me daria um CD raro de Fausto Fawcett. Eu me daria uma passagem de ida e volta para Marte. Eu me daria a chance de ser feliz inteira, que nada serve pela metade. Eu me daria inteira. Sim, eu me daria. Gosto de mim. Da minha cara sempre pronta pra sorrir. Do meu jeito meio sem jeito de me vestir. Da minha garra, do meu talento, do meu estilo. Gosto de mim. De como enfrento as adversidades, e desse blog louco e mutante. Até mesmo do meu passado e das coisas que perdi. É pecado amar-se? Eu me pediria em casamento, sabendo que teria para sempre ao meu lado alguém interessante, que me faria gargalhar nos momentos mais angustiantes. E viveria comigo feliz por toda a eternidade.

Leito de hospital. O ex-deputado federal Chico Pinto tem uma revista à mão e interrompe a leitura ao menor barulho da porta. “Rapaz, eu estava mesmo lhe procurando!”. Deseja registrar nossos papos informais sobre sua vida pública, antes que seja recolhido pelo silêncio. Melancolia e inquietação, três horas e meia de depoimento. Esbarro em um rio incontido de histórias.
Penso que Chico Pinto era nutrido por palavras. Sua insônia teria nascido dessa angústia de compreender, verbalmente, o mundo? Sebastião Nery me descreve o companheiro de prisão no quartel do Barbalho, em 1964: cigarro aceso, às vezes falava sozinho, madrugada afora. Com quem debatia? “Deus”, a resposta de Chico. E convidava Nery a perder uma noite. Porque uma noite também se perdia com palavras.
A ironia mal se fazia esconder no sorriso de beato. Traz saudade a conciliação do discurso de esquerda com a crença mais profunda no humor. No leito, força o gogó para cantar o jingle da campanha a prefeito de Feira de Santana, em 1962: “Pinto, ô Pinto, querem te passar pra trás, Pinto, ô Pinto, querem te roubar a paz…”. Esquece o resto da letra, e volta à lembrança das conspirações com militares nacionalistas.
O militarismo marcou os anos juvenis de Chico Pinto. Nasceu sob as estrelas de 1930, ano da Revolução. Para compreender seus diálogos na caserna, é preciso situá-lo como um brasileiro que testemunhou os tenentes no poder e assistiu às intervenções militares do Estado Novo a 1964. No MDB (Movimento Democrático Brasileiro), estudou a presença do Exército na política, municiou-se com o ideário nacionalista.
Bem mais remota era a ausência de preconceitos com o fardão. Em menino, se enlevava com os desfiles militares. Ouço-o explicar:
– Eu tinha o maior encantamento pela farda. Achava bonito, admirava. Portanto, esse sentimento infantil me desarmou, eu não tinha ódio dos militares. Havia até respeito.
Sua saída da política, em 1990, coincide com as ruínas da Guerra Fria e a retomada do civilismo no Brasil. Outro mundo. Mas sua geração – principalmente a parcela que conduziu a resistência democrática no MDB – deixou uma herança rejeitada pelos novos líderes: a defesa e a prática dos princípios republicanos.
Insistia em defender a República dos seus detratores e da lamúria do ex-senador Saldanha Marinho: “Essa não é a República dos nossos sonhos!”.
– Sempre me irritou a idéia de que o povo assistiu bestializado à proclamação da República. É um erro. Porque as idéias repúblicanas estavam disseminadas na sociedade. Não houve surpresa coisa nenhuma.
Chico olhava para a frente, tirânico com o tempo que lhe restava. Não cogitava a morte; essa indiferença tornou sua despedida ainda mais terna. “Quando eu sair daqui, vamos voltar a nos reunir”, repetia à amiga Olívia Soares. Ao lado da mulher e da filha, recebeu os amigos fundamentais, refletiu sobre o cigarro e os homens. Um velho companheiro de MDB – também de vitamina de abacate e bolinho da Cubana – lhe fez uma confissão de silêncio e tristeza:
– Tenho andado calado, Chico.
– Por quê? Não pode. Deixa eu sair daqui! Vamos voltar a discutir o País…
Três horas e meia, a despedida, o avião à espera. Com um pé no corredor, volto a saudar Chico Pinto. Fagulham os olhos. “Deus lhe gratifique”, diz-me. Por questão de princípios, Chico completa a frase: “Se é que você acredita Nele!”. Puxa a coberta ao peito, desdenha da fraqueza pulmonar, abre o sorriso que me faz merecer a desconfiança de Deus. Último encontro, um quarto de hospital. Palavra: o amigo ainda sorri.

De Claudio Leal, enviado por e-mail a Ceci Alves. Ao ler um texto dele sempre acho que a profissão ainda vale a pena, e que nenhuma alma é pequena. 

Tenho feito um grande esforço para manter a regularidade do blog. Talvez por essa razão, os textos estejam mais confessionais. Poesia, que é bom, nada. Aí falo de outro tipo de lirismo, o da vida mesmo. Com afetos perdidos para a morte, desafios profissionais, pequenas tristezas e derrotas, alegrias de final de semana. Enfim, falo de mim. No post “Subornos de Chocolate”, falei de Guilherme. Bem pouco. Retomo a narrativa da vida curta de um amigo, e de como nossos destinos se cruzaram num festival de música. Guilherme era fisicamente muito bonito. Um cara apaixonado por rock e que adorava vestir roupas pretas. Inspirou até a criação de uma banda, a “Isla Negra”. Casou muito jovem e teve dois filhos, uma menina e um menino. Vivia reclamando de que eu o procurava pouco. Queria me levar no bolso, um dia me disse: “Ah, se eu pudesse transformar você num chaveirinho…”.  Guilherme morreu de um modo louco. Dizem que brincava com o revólver do vigia do local em que trabalhava quando a arma disparou, versão em que não acredito. Vivia preocupado em estar presente durante o crescimento das crianças, ser um pai bacana. Vivia dividido entre o trabalho, a vida séria de homem casado, e uma pá de sonhos.

Coisas tristes pedem certa resistência. Assim, quando a vida fica quase insuportável, vou à praia. Mesmo se é Inverno. É a minha maneira de mandar as dificuldades a merda. Foi o que fiz no sábado. Voltei leve, como quem coloca a cabeça na janela e percebe a existência plena da paisagem. Já me conferi, pedaço por pedaço, e estou inteira. Já olhei os dons que levo na bagagem e estão todos lá, intactos. Já vasculhei também minha frasqueira de talentos. Não há muitos, mas não falta um único. É que coisas tristes pedem realmente certa resistência. E, sim, quando a vida fica quase insuportável, vou à praia. É a minha maneira de mandar as dificuldades a merda.

Foi Barata quem me apresentou aos Smiths. Ele me deu “Hatful of Hollow”, discão de vinil que passei a ouvir o dia inteiro. Era o final da década de 80 e as boas amizades surgiam do nada. Barata, por exemplo. Nem lembro como foi. Só sei que ele conhecia Joca e Guilherme e que os dois hoje estão mortos. Foi Barata quem me deu a notícia da morte de Guilherme numa das últimas vezes em que nos falamos. E tudo isso me veio após escutar um CD da banda de Morrisssey. Joca morreu bem cedo, aos 19, de leucemia. Guilherme morreu beirando a maturidade, com quase 30, e um tiro. Raquel também morreu antes dos 30. Não sei como e nem interessa. Sempre que penso nela, só me lembro de coisas boas, ternas, engraçadas. O apelido que ela me deu quando ainda éramos duas crianças. Os subornos de chocolate para que eu não contasse a ninguém que ela estava furando a dieta. E o porre maravilhoso que tomamos juntas, misturando cerveja e o vinho ganho numa barraca de praia após adivinhar a música do Whitesnake. E tudo isso me veio ao escutar um CD da banda de Morrissey.

Katherine Funke me ofereceu incensos budistas hoje. Varetinhas verdes de aroma delicado. E eu fiquei imensamente grata e feliz, pois ela sem saber me trouxe uma mensagem do universo: “paz interior no tumulto do mundo”. Podem me chamar de louca, mas não acredito que nada aconteça por acaso. Tudo se move interligado no tecido do tempo. E viajamos nessa imensa paisagem sem fim ou começo, numa divisão que simplificamos em horas, dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos. Já escrevi sobre a briga com meu mestre? É assim que reverencio o I Ching desde 1994. Saudade dos hexagramas riscando no espaço o mapa do meu processo de crescimento. E tudo me diz que é hora de voltarmos a progredir juntos.

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