Escorpião amarelo

Sobrevivi aos 15 anos. E, assim como os escorpiões amarelos, criei hábitos noturnos e crepusculares. Uma dose de álcool, algum fumo. Coisas normais para quem traz um ferrão cravado no peito. Casei, acasalei, emudeci, gritei durante os partos. Sou uma mulher absolutamente comum. Do tipo que prepara lanches deliciosos para os filhos, joga buraco com…

Uivo

De um sumiço na vida, e ócio, fiz a cutícula, e todos os dedos agarraram-se uns nos outros, em punho, um uivo, as unhas cravadas na própria pele, gotículas frias de suor no rosto, e um riso que escorrega até onde os pés cravam-se, as plantas, nessa terra que é de ninguém. Nem soco, nem…

Inventário (Miguel Sanches Neto)

Ouço os sons da chuva e de um carro que passa na rua. Tudo me dá de ombros, a mim e a meus escombros.Sofro como se existisse de fato tal esta casa e este sapato em que, por descuido, habito com meu vazio sem vínculos. A noite me sonega o ser. Pela manhã serei o…

Riso

Eu vivia feliz o dia inteiro até topar com uma pedra, a poesia, e desaprender o riso fácil. Mas este mar, Senhor, esta brisa fazem qualquer um derreter-se em elogios. E, no entanto, a mesma paisagem nos desarma. Ainda outro dia, no Solar, quando pensei que nada mais valia, revi a moça da Talidomida, e…

Amor

Ter você nas mãos, amor, é a coisa que mais me acalma, como uma delicada flor, que eu colho e deixo de molho na alma, e que eu rego com risos e lágrimas, e que é toda prazer, toda dor, paixão que me despetala, e que sabe me ter como sou.

Balanço

O que faria diferença, o que transformaria 2008 no melhor ano da minha vida? Eu sei, logicamente. E nem preciso visitar o campo de concentração de Dachau para ter uma iluminação ou percorrer os 800 quilômetros do Caminho de Santiago. O primeiro passo para todos, acredito, é levar a sério a brincadeira do “se eu…