dezembro 2007


Sobrevivi aos 15 anos. E, assim como os escorpiões amarelos, criei hábitos noturnos e crepusculares. Uma dose de álcool, algum fumo. Coisas normais para quem traz um ferrão cravado no peito. Casei, acasalei, emudeci, gritei durante os partos. Sou uma mulher absolutamente comum. Do tipo que prepara lanches deliciosos para os filhos, joga buraco com os amigos e faz amor duas vezes por semana com o marido. Olhem meus braços. Não há sinal de ferroadas. A cada manhã, escapo inteira do mesmo sonho.

Trecho do texto “Escorpião Amarelo”, ainda inédito.

De um sumiço na vida, e ócio,
fiz a cutícula, e todos os dedos
agarraram-se uns nos outros,
em punho, um uivo, as unhas cravadas
na própria pele, gotículas
frias de suor no rosto, e um riso
que escorrega até onde os pés
cravam-se, as plantas, nessa terra
que é de ninguém. Nem soco,
nem brisa, que venha acordar
o que, morno, deslizará.


Ouço os sons da chuva
e de um carro que passa na rua.
Tudo me dá de ombros,
a mim e a meus escombros.
Sofro como se existisse de fato
tal esta casa e este sapato
em que, por descuido, habito
com meu vazio sem vínculos.

A noite me sonega o ser.
Pela manhã serei o homem que sai,
funcionário cumpridor de regras,
aquele que tem fome e sede

e por isso vai ao mercado
e se entusiasma com queijos,
vinho pão fresco cerveja,
fugindo de toda incerteza.

Não. Não é este o tipo
de alimento que me sustenta
e sim a sombra que me inquieta
e que, com sua mão, me inventa.

Gerado na dor e na dúvida
no duro exercício da descrença,
sou vento enchendo roupas no varal
num inventário da própria ausência.



Eu vivia feliz o dia inteiro
até topar com uma pedra, a poesia,
e desaprender o riso fácil.
Mas este mar, Senhor, esta brisa
fazem qualquer um derreter-se
em elogios. E, no entanto,
a mesma paisagem nos desarma.
Ainda outro dia, no Solar,
quando pensei que nada mais valia,
revi a moça da Talidomida, e ela ria,
sem braços, diante do Sol.

Ter você nas mãos, amor,
é a coisa que mais me acalma,
como uma delicada flor,
que eu colho e deixo
de molho na alma, e que eu rego
com risos e lágrimas,
e que é toda prazer, toda dor,
paixão que me despetala,
e que sabe me ter como sou.

O que faria diferença, o que transformaria 2008 no melhor ano da minha vida? Eu sei, logicamente. E nem preciso visitar o campo de concentração de Dachau para ter uma iluminação ou percorrer os 800 quilômetros do Caminho de Santiago. O primeiro passo para todos, acredito, é levar a sério a brincadeira do “se eu fosse eu”, proposta por Clarice Lispector. Há outro atalho. Mas os que não gostam de dizer palavrão podem trocar a palavra com “f” por “dane-se!” Trabalharei quatro dias direto no feriado do Natal, incluindo o sábado e o domingo. Daí, como dizem lá em Pato Branco, viajo para Lençóis depois da virada do ano. Planejo ficar uma semana por lá. Anotações de um dia ensolarado que será de trampo e sem praia.

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