novembro 2007


Não tenha medo, meu grande amor, eu estou firme.
O vento veio, passou por mim, senti na pele.
Não creio em cartas, desenho pontes, eu atravesso.
Meu forte I Ching me orienta na grande água.
Ah, meu amor, não tenha medo, conte comigo.
Estou de pé, olho pro céu, o mundo é grande.
Desta janela, meu doce amor, eu vejo o mar.
Todo horizonte é só promessa de vir a ser.
Não fique triste, não interessa se choro agora.
Há um sorriso que vem de dentro, e sem demora.

Passou a raiva dos cambistas. Tudo se resolveu e vou ver Marina Lima no sábado, graças a Adalberto e a Ana Paula. E tenho que agradecer também a Emília, que me ligou de manhã e ofereceu ajuda na troca. Uma colega dela queria ir ao show no domingo. Como dizem os meninos do caderno Dez!, acho que “dramei” legal.  

Mesmo com convites no bolso para domingo, fui ao TCA atrás de ingressos para o show de Marina. É que trabalho justo no domingo. A bilheteria abriria ao meio-dia, iniciando as vendas hoje. Levei a minha mãe ao médico e corri para o teatro logo depois. Cheguei lá às 14 horas e 15 minutos e não havia um único mísero ingresso para qualquer dia do show. “Esgotado”, dizia com sorriso cínico o cara da bilheteria. Mas bastava descer a ladeirinha, a menos de cinco metros dali, que os cambistas já abordavam as pessoas vendendo os ingressos por 20 reais (o preço é 14). Na sexta, deve chegar a 25 ou 30, dependendo da demanda. Um dos cambistas com quem conversei me propôs o seguinte negócio: “Cê me dá os seus dois convites de domingo e mais 26 reais por dois ingressos para sábado”. Pirem nessa. Somos otários ou o quê?  Vou ver se amanhã pinta uma solução natural, do tipo milagre: alguém que queira trocar o plantão ou os bilhetes. Só não quero cair na armadilha dos cambistas. Cadê a fiscalização, gente? Cadê a vergonha na cara, direção do TCA?

O que fazer, amigos,
quando não há saída
e ainda se precisa agradecer
pelo pão de cada dia?
O que fazer, amigos,
quando o destino nos amarra
numa camisa de força
para que sejamos lúcidos?
Tudo é sempre por alguma coisa.
Sim, é pela casa, ou pelo carro,
é pelas contas, ou pelo mínimo
conforto, o enorme desconforto.
Fecham-se as janelas
e nenhuma porta se abre,
nenhuma via que dê acesso
a algo mais nobre.
“Nunca mais passarei fome”,
grita Scarlet na tela.
E o que fazer, amigos, quando
não é um filme, mas a vida?

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Ainda não falei sobre o curso que estou fazendo, de crítica teatral, com Fátima Barreto. Ela foi minha colega em A TARDE e está concluindo o doutorado na Escola de Teatro. É uma pessoa cheia de vida, de olhos brilhantes, sorriso aberto e gestos largos. O curso é de extensão, oferecido pela Ufba, e gratuito. Tenho lido textos e mais textos. No último dia 16, tivemos uma palestra de Saja, professor de filosofia. Saí da sala com lágrimas nos olhos. Emocionada com a vida mesmo, com a inteligência do cara e, sobretudo, com algo especial que ele lembrou. A famosa pergunta de Rilke em “Cartas a um Jovem Poeta”. Fiquei pensando em como seria viver sem colocar um único verso no papel. Tenho esperado Godot.  E em cada coisa que faço, ponho o coração.

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O peso do mundo, sua mão na minha,
pena leve com que desenho em torno
finas linhas, cada um dos dedos, e a palma.
Um koan de encantamento: qual é o som
de uma única mão batendo? E todo peso
em mim magicamente se desarma.

A boate fervia, passava da meia-noite. Nada aparentemente anormal. Shirley atravessou a pista de dança ao som de “Light My Fire”, dos Doors, chegou ao bar minúsculo e pediu um uísque.
– Jack Daniel´s, sem gelo.
O barman, um anão, atendia aos clientes dependurado em uma espécie de trapézio. Ela viu o pequeno corpo balançar até a estante e a mão gorda, com dedos curtos, agarrar a garrafa habilmente. Equilibrando-se no ar, o pequerrucho jogou o líquido no copo, colocado sobre o balcão. Shirley bebeu de um gole.
Além do número circense, estava espantada com o corredor escuro ao fundo. Podia vê-lo, através da cortina negra com um símbolo em dourado bordado no tecido. Para entrar, precisaria driblar a atenção daquela estranha criatura, tão pequena quanto uma miniatura de garrafa de bebidas.
Ela pensava sobre isso quando uma voz masculina ao seu lado pediu uma dose de gim. O homenzinho repetiu o ritual malabarista, mas acabou errando a pontaria. O líquido a atingiu em cheio. Enquanto o cliente sumia, visivelmente envergonhado, o anão desceu do seu posto e abriu a parte móvel do balcão.
– Venha comigo. Vou ajudar a limpar seu vestido, disse.
A mãozinha fria agarrou o braço da moça e, com firmeza, a puxou para a escuridão. Na passagem, Shirley pôde observar de perto o desenho: a imagem de um sol atravessado por uma  espada. 

O início de um romance policial que escrevi em 1998. Há alguns dias, reencontrei o disquete com o texto e estou reescrevendo. Shirley é uma garota de programa que troca o calçadão pelo jornalismo.

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