outubro 2007



isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

Paulo Leminski

Renovando a energia do “Madame”, agradeço os comentários sobre o poema que estava aqui e que a gata comeu. Então tá, vamos falar de música? Essa canção do “Metrô” é daquelas que todos os críticos enterram. Mas confesso que há duas canções de Virginie que eu ainda adoro. Uma delas é “Olhar”, que merece uma regravação. A outra é “Johnny Love”, que ela canta em dueto com Léo Jaime no filme “Rock Estrela” e que eu pesquei no YouTube. Ninguém é perfeito.

Não paro de pensar em ti esta noite, Walt Whitman,
caminho pela calçada, sob as árvores, com uma dor de
cabeça constante e olhando a lua cheia.
Em meu faminto cansaço, faço compras na imaginação, entro
num supermercado de néon sonhando com tuas listas!
Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras
nas compras da noite! Corredores cheios de maridos!
Mulheres nos abacates, bebês nos tomates!
– e tu, Garcia Lorca, o que fazes aí na frente dos melões?

Te vi, Walt Whitman, sem filhos, velho comilão solitário,
apalpando as carnes no refrigerador, de olho nos
funcionários garotões.Te ouvi perguntando a cada um:
quem matou as costeletasde porco? Qual o preço das bananas?
És o meu Anjo? Perambulei pelas brilhantes prateleiras
dos enlatados, te seguindo e sendo seguido
pelo detetive da casa, em minha imaginação.

Percorremos todo o supermercado juntos
em nossa solitária fantasia, provando alcachofras,
pegando cada delícia congelada sem passar pelo caixa.
Para onde estamos indo, Walt Whitman?
Daqui a uma hora as portas se fecham.
Que caminho a tua barba hoje aponta?
(Toco em teu livro e sonho
com nossa odisséia no supermercado – que absurdo.)

Caminharemos a noite toda por essas ruas solitárias?
As árvores fazem sombra às sombras,
luzes apagadas nas casas, estaremos sozinhos.
Andando e sonhando com a América perdida de amor,
passando por automóveis azuis parados,
a caminho de nosso solitário refúgio?
Ah, querido pai de barbas grisalhas,
velho e solitário mestre de coragem,
que América conhecestes
quando Caronte parou de conduzir
e desceu-te na margem enfumaçada
enquanto vias o barco desaparecer
nas negras águas do Letes?

Ando sem tempo para mim e para o “Madame”. No sábado, fui para a LDM dar um abraço em Lima Trindade e acabei no Baobá do Rio Vermelho, ouvindo sambão e comendo feijoada a 12,90. No domingão, festa de comunhão da sobrinha de 10 anos com a família e trampo até às 21 horas no jornal. Só hoje senti vontade de dar um pulinho no “Madame”. Não para escrever poesia, mas para uma anotação rápida de umbigo. Dormi mal e porcamente e acordei cansada, sem humor. O meu I Ching só aponta transição e duração. Mas não são opostos?

“No meu sonho o filme não tinha nenhum minuto a mais, nem verde, nem voz em off. O fim era o exato the end…”

Conheço Lima Trindade desde “Supermercado da Solidão” (LGE, 2005), cujo título me fisgou de imediato pela referência, não sei se proposital, ao poema de Ginsberg, “Um Supermercado na Califórnia”. O segundo, “Todo Sol Mais o Espírito Santo” (Ateliê, 2005), também me ganhou de cara, da capa à prosa. Amanhã, a partir das 9, ele lança “Corações, Blues e Serpentinas” (Arte Pau Brasil, 2007) na LDM (Rua Direita da Piedade), seu terceiro livro. Não há pompa nos contos de Lima. As circunstâncias interessam mais ao autor, como no belo e curto “O Balão Amarelo”. A narrativa nasce dentro dos personagens, como no poema de Quintana, uma arquitetura humana que se confude com a paisagem no mesmo mapa, o da anatomia dos sentimentos. Um autor que cresce na caminhada com leveza, sem pesadas pretensões na bagagem, mas com grande talento e sensibilidade.

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será.
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem no amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade)

O poema acima é de Orides Fontela e se chama “Fala”. A foto é de Juan Esteves, da Folha Imagem. Ela morreu em 1998.

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