setembro 2007


Finalmente pus o decodificador da Sky no quarto e ele transformou a TV antiga num rádio de 32 polegadas. Assisto “Zuzu Angel” enquanto ouço música techno. Como sou a rainha da sublimação, faço que nem os infelizes da propaganda do novo Fiesta: sorrio e digo “tudo bem!”. De tardezinha, revi “Bete Balanço” no Canal Brasil. Em 1980, eu tinha apenas 12 anos. Era só um pouco menos tola e ingênua. Acho graça quando dizem que blogar é se expor. O que deixo entrever aqui é menos ainda do que parece que sou. Conhecer alguém de verdade é conhecer seus pesadelos.

Joinville é só silêncio
e telhados achatados
no Google Earth.
Percorro as ruas
sem tocar o solo,
alterno entre céu e terra,
e vejo estrelas e lua,
do mesmo ângulo em que Mariana
as vê agora. O céu de Joinville.
Piscis. Austrinus. Grus.
Aquarius. Capricórnio.
O movimento na ponta
dos dedos, o mundo inteiro,
objeto, diante dos olhos. Vôo
até Mianmar, Yagoon, os monges
têm os pés ensangüentados,
as imagens não mostram.
O planeta azul, na tela,
é apenas um brinquedo morto.

Já dizia o mestre Fernando Pessoa. Em homenagem ao descanso dos neurônios, inauguro hoje uma enquete sobre o assassinato da gêmea má da novela das oito. Participem!

Vou falar, sim, sobre a morte de Taís Grimaldi. Afinal, na próxima sexta, o Brasil vai parar, não por cansaço ou para colocar nariz de palhaço, mas para ver o último capítulo de “Paraíso Tropical”. Eu era criança quando, em “O Astro”, de Janete Clair, o país ficou estatelado diante do assassinato de Salomão Ayala. Mas, na minha opinião, nenhuma novela supera o engenho de “Vale Tudo”, também de Gilberto Braga, que traz o melhor primeiro capítulo de todos os tempos. Naquela época, mais uma vez, paramos de pensar na prestação da casa própria para especular sobre um crime imaginário. Como diria Roberta Miranda, vou confessar. Antes mesmo da fatídica cena ir ao ar, eu já antecipava mentalmente as possibilidades que os autores teriam. Lembram que falei de noites de insônia? Pois. Finalmente, ontem, tive um insight. Já sei quem matou Taís Grimaldi. Um personagem que estava fora de todas as minhas listas iniciais de suspeitos e que transita pela trama com fortes sentimentos e muitas informações. Claro que Gilberto Braga e Ricardo Linhares podem optar por um final clichê, do tipo Marion ou Olavo, ou entregar o crime nas mãos de Alice ou Otília, neutras e “surpreendentes”. Tudo pode acontecer. Até Daniel ter se apaixonado por Taís e matado Paula, em cumplicidade com ela. Sim, pode, e entraria para a história da teledramaturgia nacional. Mas, pelas declarações recentes dos autores, prevalecerá a lógica. E, nesse caso, reforço a minha aposta. Não direi quem matou Taís Grimaldi. Mas, caso esteja certa, foi alguém que a gêmea má conhecia, com a qual compartilhava algo precioso e a quem devia um acerto de contas que nada tinha a ver com suas tramóias ou chantagens.

E para não dizer que não falei de poesia, o título do post é o de um poema de Vinicius de Moraes

Não comerei da alface a verde pétala
Nem da cenoura as hóstias desbotadas
Deixarei as pastagens às manadas
E a quem maior aprouver fazer dieta.

Cajus hei de chupar, mangas-espadas
Talvez pouco elegantes para um poeta
Mas peras e maçãs, deixo-as ao esteta
Que acredita no cromo das saladas.

Não nasci ruminante como os bois
Nem como os coelhos, roedor; nasci
Omnívoro: dêem-me feijão com arroz

E um bife, e um queijo forte, e parati
E eu morrerei feliz, do coração
De ter vivido sem comer em vão.

E era assim, feriado de semana santa,
na ilha de itaparica, eu e minhas amigas,
e rock no rádio de pilha, nobre, pobre,
tocando sem parar. Nós, as estrelas
de um filme barato. Olhe, veja, é
Whitesnaker. Vale um vinho na praia.
Mais um porre inocente. E jipes
de desconhecidos deslizando na areia.
Fomos de carona com Peter, que trouxe
um violão de doze cordas, e dez dedos,
e a Lua, tamanha, nos protegerá do resto.

Próxima Página »