Pequeno poema inspirado em Ferlinghetti

Comprei uma cama para o meu cachorro,pois as noites de inverno são rigorosas,mesmo na América do Sul – essa históriade Sol brilhando o ano inteiro é lorota.Também chove em Salvador e a ventaniade uma única noite quebrou o toldoda minha janela. Dormi de meias e,ainda assim, só peguei no sono quando o dia clareou.Minha mãe…

E eu escrevo orações

E eu escrevo orações. Sem a esperança tola de que alguém vá lançar mão delas. Eu escrevo orações para mim mesma. Pelo prazer de buscar atalhos até Deus. Ou, talvez, pela influência da primeira oração que aprendi com minha mãe, a belíssima “Salve Rainha”, ainda acesa na memória afetiva com sua espantosa grandeza. A primeira…

Santa Rita, mãe amantíssima, tantas orações louvam teu nome, e eis mais uma, a que dedico, coração em chamas. Nada digo, apenas busco abrigo sob teu manto, e lhe suplico misericórdia para quem amo, mãe amantíssima, em ti confio. Que o meu pranto não seja em vão, e que minha fé mova montanhas, e, em…

Caixa Preta (poema de Nilson Galvão, do blog Blag)

Coração, caixa de guardaro que em seu courorepercute. Caixa do peito,invólucro do tempo, ouveo relojoeiro maluco, que nada,que tudo, que nada, que tudo,que nada, que tudo.Caixa de abrir-se diante da ciênciae negar-lhe a verdade, se o gatomorreu, se viveu, se morreu, se viveu,se morreu, se viveu. Coração caixa oca,bumbo da crueza, bumbo da beleza,bumbo da…

Mulher de Cabelos Amarelos

Matisse Há uma mulher chamada nomede quem o rosto desconheço,sempre que chego dizem: “Oh, elasaiu daqui agora mesmo”.Ah, esta jovem senhorasabe a aurora, tece com finos dedos fios de ouro envelhecido, seus cabelos, manto amarelo, e o universo inteiro cedea um encantamento que ninguém conseguenominar. Há uma mulher chamada espelho.

Lição

Eu sei que poderia amar esse menino insolenteque comenta sobre mim sorrindo,mas cujos olhos fisgo sempre. Esse meninoainda tem muito a aprender sobre lirismoe laticínios, muito a dar, muito a comer…Eu sei que poderia amar esse menino,e colocar-lhe uma aliança de ouro no anulare me deitar com ele, ter um filho,e fugir noite alta com…

Morte no Avião (Carlos Drummond de Andrade)

“Ó brancura, serenidade sob a violência da morte sem aviso prévio, cautelosa, não obstante irreprimível aproximação de um perigo atmosférico, golpe vibrado no ar, lâmina de vento no pescoço, raio, choque, estrondo, fulguração, rolamos pulverizados, caio verticalmente e me transformo em notícia”

No tumulto do mundo

Foto: BBC BrasilAi, Senhor, quero ser simples. E tão banalque até os passarinhos reconheçame, sem estranhamento, pousem perto. Quero ser a que Deus quase esquece,alma quieta sob o Seu comando,apenas uma ovelha no rebanho que o segue. Ai, Senhor, quero ser doce. E tão sutilque nenhum som se mova em minha voz,e que ela caia…

Canção (Murilo Mendes)

Para o Oriente do amormeus sentidos aparelham. Bandeiras azuis, vermelhas,cruzaram-se no horizonte.De onde vem tal embriaguez,que aurora terei tomado?Vem do fundo de mim mesmo,vem da minha alma correndo. Minha amada na varandaarrulha, me faz sinais.Vôo com abril nas mãos,para continuar o cicloda antiga revolução:aboli as dissonâncias,o sentimento renascecomo no início do mundo.

Reverências ao meu mestre

Alfred Huang é um mestre taoísta que foi preso em 1966, durante a Revolução Cultural, na China. Condenado à morte, ficou na cadeia até 1979, quando foi libertado e emigrou para os EUA. Ao longo dos 13 anos de prisão, Huang dedicou-se a estudar o I Ching. Livre, ele conta que ouviu um chamado interior…

Por enquanto

Tomei a liberdade de pegar um tempo pra mim. Ando cansada da dissimulação necessária para conviver saudavelmente em sociedade. Preciso centrar energias num projeto pessoal e importante pra mim. Peço licença a Iroco, sob a sombra de quem cresci e creço. E agradeço a quem me seguiu até aqui. Qualquer hora volto, mas sem compromisso….