julho 2007



Comprei uma cama para o meu cachorro,
pois as noites de inverno são rigorosas,
mesmo na América do Sul – essa história
de Sol brilhando o ano inteiro é lorota.
Também chove em Salvador e a ventania
de uma única noite quebrou o toldo
da minha janela. Dormi de meias e,
ainda assim, só peguei no sono quando o dia clareou.
Minha mãe conta que teve muito medo
de que os prédios desabassem, uns sobre os outros,
feito dominó, no Vale das Flores, Tulipa sobre Miósotis.
E eu olhei enternecida para ela e ri, diante da hipótese
de morrermos assim. E imaginei o que me fez querer
morar tão alto, e tão longe do oceano.
Perto das minhas duas irmãs e dos sobrinhos louros,
e do cunhado que me salvou do ataque de um pombo.
E nem é vergonha, ora bolas,
comprar uma cama colorida para o meu cachorro.

E eu escrevo orações. Sem a esperança tola de que alguém vá lançar mão delas. Eu escrevo orações para mim mesma. Pelo prazer de buscar atalhos até Deus. Ou, talvez, pela influência da primeira oração que aprendi com minha mãe, a belíssima “Salve Rainha”, ainda acesa na memória afetiva com sua espantosa grandeza. A primeira que fiz foi para “Nossa Senhora dos Esquisitos”, a santa que inventei em meu primeiro livro, protetora dos desvairados, freaks e nerds. E aí sempre que vejo um santo, me vem a vontade de escrever uma súplica ou uma louvação. Impossível descrever como me emocionam essas minhas orações. Aqui no blog sinto que ficam quase tão deslocadas quanto eu no mundo. É que elas pedem um oratório, certo suporte material para o espiritual. Minha mãe acende velas e, com elas, estabelece um contato com Deus. E eu escrevo orações. Sem a esperança tola de que sirvam para alguém. Eu escrevo orações para mim mesma.

Santa Rita, mãe amantíssima, tantas orações
louvam teu nome, e eis mais uma, a que dedico,
coração em chamas. Nada digo, apenas busco
abrigo sob teu manto, e lhe suplico
misericórdia para quem amo, mãe
amantíssima, em ti confio. Que o meu pranto
não seja em vão, e que minha fé mova montanhas,
e, em suas mãos, o meu pedido chegue ao Cristo.

Coração, caixa de guardar
o que em seu couro
repercute. Caixa do peito,
invólucro do tempo, ouve
o relojoeiro maluco, que nada,
que tudo, que nada, que tudo,
que nada, que tudo.
Caixa de abrir-se diante da ciência
e negar-lhe a verdade, se o gato
morreu, se viveu, se morreu, se viveu,
se morreu, se viveu. Coração caixa oca,
bumbo da crueza, bumbo da beleza,
bumbo da incerteza.

Matisse

Há uma mulher chamada nome
de quem o rosto desconheço,
sempre que chego dizem: “Oh, ela
saiu daqui agora mesmo”.
Ah, esta jovem senhora
sabe a aurora, tece com finos dedos
fios de ouro envelhecido, seus cabelos,
manto amarelo, e o universo inteiro cede
a um encantamento que ninguém consegue
nominar. Há uma mulher chamada espelho.

Eu sei que poderia amar esse menino insolente
que comenta sobre mim sorrindo,
mas cujos olhos fisgo sempre. Esse menino
ainda tem muito a aprender sobre lirismo
e laticínios, muito a dar, muito a comer…
Eu sei que poderia amar esse menino,
e colocar-lhe uma aliança de ouro no anular
e me deitar com ele, ter um filho,
e fugir noite alta com a sua irmã.
Mas apenas deixo que ele vá, que passe, suma,
dobrando esquinas, recriando ruas,
e leve embora a alma em desalinho
e o tal destino, e as pedras de runa.

Nem paciência para ensinar-lhe, tenho,
que amizade é muito mais do que amor.
E o que ele amarga – toda vez que tenta me tirar a calma –
é esse franzir de cenho que lhe dou.

“As mulheres e as crianças são as primeiras que desistem de afundar navios.”

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