Tenho lido e lido e lido “As Elegias de Duíno” e os “Sonetos de Orpheu”. A ponto de sentir falta deles na rua. Mais uma vez, a leitura me resgata da dor. Feliz, ou infelizmente, é nela que tenho me encontrado ainda a mesma menina que sonha com coisas. Me abrigado seria melhor, já que olho o céu azul e só vejo bombas caindo. Fora dela, da leitura, os dias cinzas de sempre, a confusão dos vôos, a violência estampada nos jornais, covarde, banal, inaceitável. E as vozes das pessoas. Dentro dela, a amplidão, o espaço aberto de quem indaga aos anjos, sem a pretensão de ser ouvido. Pior na guerra, dizem os cínicos. E eu rio. Tenho rido cada vez mais sem saber sequer de que sentido. Só para encerrar a conversa depressa e esconder a bunda nua, os seios nus, como nos sonhos em que se está em lugares públicos sem roupas. “As Elegias de Duíno” me conquistaram justo quando sinto me faltarem as forças. Grandiosas, elas acenam com asas sobre o abismo: Aqui há coisas ainda a serem conquistadas. O mesmo sonho, terrível como um anjo, e divino. E, nos “Sonetos”, o mesmo animal sem nome, que, amado, ganha uma forma visível.

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