Li “Salgueiro” (Civilização Brasileira, 1935/2007), de Lúcio Cardoso, de um só fôlego, sem sequer olhar o relógio. Não sei a que horas adormeci, mas as vivas sensações provocadas pela leitura me fizeram acordar disposta a escrever. O Salgueiro a que se refere o autor em seu segundo livro – O primeiro foi “Maleita”, de 1934 – é o morro carioca. Estamos em 1935 e as sementes da violência estão lançadas, dormem sob o barro que soterra famílias inteiras. Não há traficantes. Malandros descansam seus cotovelos nas mesas das pequenas mercearias que vendem de tudo, incluindo cachaça barata, que pode ser paga com qualquer vintém. E casebres de um único cômodo abrigam quatro, cinco pessoas. Neles, casais regulam seu desejo pelo sono, inda que fingido, dos outros. Viver em pecado é simplesmente um incômodo.
Uns poucos sustentam os muitos que vagam pelas vielas escorregadias. As mulheres passam de cama em cama, equilibrando suas vidas nos ombros dos homens. E é tênue a linha entre a honestidade e o abandono. Em um dos barracos, José Gabriel tenta manter-se arrimo de família e ser feliz com Rosa, a negra que seus pais, sua irmã e seu filho odeiam. Jovem e briguenta, a mulher perturba a morte lenta e agonizante do velho, vítima de tuberculose e sem dinheiro para remédios. Não há luz. Só o acender e apagar das velas e das lamparinas de querosene. Marta, a recatada irmã, decide vender o corpo, seu único bem, enquanto a mãe, Genoveva, resignada, apenas observa a vida que se desintegra.
Ao filho de José Gabriel, Geraldo, cabe a condução do drama. Chamado de “idiota” desde criança, a tia diz dele apenas “vai roubar”, o adolescente desabrocha em dor, desapontamento e violência, até perceber como o morro o aprisiona. Por dentro. Operário honesto, José Gabriel rouba para submeter a rebelde Rosa e, ainda assim, a perde. Passa a ser procurado pela polícia, denunciado pela ex-amante, e perde qualquer contato com a família. O olhar sobre essas vidas, unidas/desunidas pela miséria, é de compaixão pelo humano e o modo como Cardoso compõe as cenas rouba do cinema os cortes rápidos que impõem ritmo às seqüências: “Mas rompeu de fora, subitamente, o tropel de uma corrida. E Rosa, abrindo violentamente a porta, apareceu rindo, sufocada, as mãos sobre o peito, com o corpo inclinado para a frente, desamparada. Era um riso vivo, histérico, de animal forte na consciência da sua força”.
Do mesmo modo, o autor (morto em 1968, após um segundo derrame), presenteia o leitor com uma bela panorâmica em uma das passagens mais tocantes de “Salgueiro”: Quando o velho Seu Manuel é retirado de casa para ser levado ao hospital, onde morrerá abandonado e desgostoso. O morro se mobiliza para ajudá-lo a descer, providenciam uma cadeira, e meias azuis para os pés, e desce o homem, acuado e envergonhado, sob os olhares de todos, em direção ao nada das paredes brancas da Santa Casa. E alguém grita: “Olha só, ele não calça sapatos”.
Dividido em três partes – O avô, o pai e o filho –, o livro mostra as dores de três gerações submetidas a uma realidade selvagem, e que eles não conseguem alcançar e dominar completamente. Como escreve Milton Hatoum na orelha, “o morro configura as personagens”, e de tal modo que elas consideram um luxo morrer na Santa Casa. Autor do clássico “Crônica de Uma Casa Assassinada”, Lúcio é um escritor que se deve ler pelas beiradas, representadas por “Maleita”, “Salgueiro”, “Mãos Vazias” ou “A Luz no Subsolo”.
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