Vinham de mãos dadas no banco de trás do táxi, duas moças, saídas da boate da Contorno. O moço, de olhos grudados no retrovisor, iniciou uma cantilena religiosa sobre o fim dos tempos. Ah, se matar não fosse pecado. E o taxímetro correndo. O carro desceu a rua, bem ali, em frente ao Solar do Unhão. E toda prudência mandaria que descessem bem rápido do automóvel. Mas enquanto o motorista falava sobre a destruição de Sodoma e Gomorra, elas sentaram-se ainda mais próximas. “Pra onde mesmo?”, ele perguntou, pegando o sentido da Barra. “Pára aqui”, uma delas disse sem pensar, apanhando a carteira na bolsa. A outra não falou nada, apenas olhou a rua deserta das três da madruga. Passavam pelos fundos do Goethe Institut. “Pára, já disse”. O homem freou com a cara fechada. “Desçam. E nem precisam pagar. Não quero nada de gente como…”. Num repente, a passageira mais afoita amassou duas notas de dez e enfiou na boca do homem antes que ele terminasse a frase. Sufocado, atônito, ele abriu o porta-luvas atrás de algo, um revólver?, enquanto tentava cuspir o dinheiro no assoalho. Mas, quando se deu conta, elas já estavam do outro lado da rua, subindo a passarela em direção ao Campo Grande, de mãos dadas. A que olhou para trás garante ter visto o taxista correr atrás delas, segurando um pé de cabra. A outra nem quis ver nada. Medo de virar uma estátua de sal.

Anúncios