janeiro 2007


Eu sentia que estava quase desvendando Mulholland Drive. Foi quando percebi que podia morrer a qualquer minuto. Como o monge do conto oriental que enfrenta sozinho o assassino sanguinário que invade a aldeia ou como Rebeca Del Rio, a chorona de Los Angeles, no palco do Club Silêncio. Ao mesmo tempo em que temia dar de cara com o homem que mora nos fundos da lanchonete Winkie´s, eu desejava encontrar na bolsa alguma chave azul. E meu passado ia ficando cada dia mais presente, embora permanecesse trancado na gaveta da cômoda, ao lado do revólver, dentro da caixa com fechadura em forma de triângulo. Eu estava simplesmente obcecada pela música cantada no Club Silêncio, e sonhando o dia inteiro com Camilla Rhodes. Queria algo que viesse anunciado pela sirene duma ambulância, fosse o que fosse. Seria como girar num arco até enjoar do mundo e envelhecer em paz sem mais urgências. Quem eu era mesmo, eu não sabia. Quase quatro décadas e Mulholland Drive ainda instigava aqueles sentimentos. Profundo salto que pode levar a tudo, incluindo o vazio. “No hay banda”, mas a música permanece como mágica levando quase à vertigem.

Mário Quintana me proteja
de uma vida entediante,
sem amantes, sem cerveja,
com compromissos inadiáveis.

Me proteja, doce anjo,
de viver sem ter encanto,
sem que a poesia me assalte
de repente, à meia-noite.

Que pressinto teu semblante
em cada verso que surge,
de soslaio em meu peito,
pedindo abrigo no mundo.

Álbum

Meu amor era uma criança linda.
Dessas que parecem anjos antes de perecer.
Se a adivinho calma em fotos antigas
penso logo nas fantasias que os pequenos usam
no terno dos astros. Tão compenetrados e em fila,
ensaiados para o canto, quase voam de agonia (o fogo da infância!).
Ah, meu amor era também essa criança
que crescia para me buscar de todo jeito,
enquanto eu apenas pressentia.

Fuga número 5
Olho para meu amigo e sorrio, pois ele me parece uma flor translúcida,
pois ele me parece uma gerbera,
pois ele me sorri e sei que isso é amor.
Olho para meu amigo e a dor desata
a encher um rio sem fundo no fundo.
É o leito onde deitamos nosso passado sem futuro.
É o leito seco onde plantamos novas sementes
sem saber se brotarão, se durarão mais que segundos.

Meu amigo, adivinho quando você passa
e um silêncio esquisito senta conosco na mesa do bar.
É quando um vento frio sopra sobre nossos ombros
e alguém recita, de repente, um verso de improviso.
Mas tudo é sombra. Eu não estava contigo na hora do tiro,
nem quando o assombro de saltar da vida
arregalou seus olhos. Eu não estava contigo.
Apenas guardei uma foto sorridente, e a certeza
de que há vida inteligente do outro lado da vida.



Leio blogs de amigos e me admiro: como escrevem.
Longos contos, capítulos de romances, grandes cartas para amigos desconhecidos.
Leio blogs de amigos e me admiro: como escrevem.
Sem desanimar da pena um segundo.
Sem perceber, talvez, que, mesmo à mercê da tecnologia, estamos todos condenados
a tomar da pena algum dia.


Ando distraída, calma,
e com a consciência exata
de que todos podem morrer a qualquer minuto.
Para este ano, minha única grande resolução
foi abaixar a espada, e deixar que a lâmina crie ferrugem sem uso.

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