Eu sentia que estava quase desvendando Mulholland Drive. Foi quando percebi que podia morrer a qualquer minuto. Como o monge do conto oriental que enfrenta sozinho o assassino sanguinário que invade a aldeia ou como Rebeca Del Rio, a chorona de Los Angeles, no palco do Club Silêncio. Ao mesmo tempo em que temia dar…

Mário Quintana me protejade uma vida entediante,sem amantes, sem cerveja, com compromissos inadiáveis. Me proteja, doce anjo,de viver sem ter encanto,sem que a poesia me assaltede repente, à meia-noite. Que pressinto teu semblanteem cada verso que surge,de soslaio em meu peito,pedindo abrigo no mundo.

Álbum Meu amor era uma criança linda.Dessas que parecem anjos antes de perecer.Se a adivinho calma em fotos antigaspenso logo nas fantasias que os pequenos usamno terno dos astros. Tão compenetrados e em fila,ensaiados para o canto, quase voam de agonia (o fogo da infância!).Ah, meu amor era também essa criançaque crescia para me buscar…

Fuga número 5 Olho para meu amigo e sorrio, pois ele me parece uma flor translúcida, pois ele me parece uma gerbera, pois ele me sorri e sei que isso é amor. Olho para meu amigo e a dor desata a encher um rio sem fundo no fundo. É o leito onde deitamos nosso passado…

Meu amigo, adivinho quando você passae um silêncio esquisito senta conosco na mesa do bar.É quando um vento frio sopra sobre nossos ombrose alguém recita, de repente, um verso de improviso.Mas tudo é sombra. Eu não estava contigo na hora do tiro,nem quando o assombro de saltar da vidaarregalou seus olhos. Eu não estava contigo.Apenas…

Leio blogs de amigos e me admiro: como escrevem.Longos contos, capítulos de romances, grandes cartas para amigos desconhecidos.Leio blogs de amigos e me admiro: como escrevem.Sem desanimar da pena um segundo.Sem perceber, talvez, que, mesmo à mercê da tecnologia, estamos todos condenadosa tomar da pena algum dia.

Ando distraída, calma,e com a consciência exatade que todos podem morrer a qualquer minuto.Para este ano, minha única grande resoluçãofoi abaixar a espada, e deixar que a lâmina crie ferrugem sem uso.

Quando penso em você, meu amigo,eu só me lembro dos discos de vinil,das agulhas de diamante nas vitrolas,três em um, dos meninos comprando glupara aplicar na veia. Das fitas K7,com rock n roll entre vinhetas de rádio,dos primeiros conhecidos mortos de aids,dos lendários drogados de ácido,dos shows do Camisa, das idas,de carona, para Arembepe.Dos poetas…

Em que matéria suave repousao que perdemos, quando deixamos de ser jovens?Para onde segue aquela energia intensaque parecia inesgotável? Penso em Truman Capotenas fotos do Washington Post publicadas em 74.Como lembra Santiago Nazarian, o belo e jovem Santiago. Aquele Truman Capote jovem virou apenas referência na capade The Boy with The thorn in his side,numa…