dezembro 2006



Esquecer o passado é a melhor forma
de equilibrar os pratos e caminhar
nesse arame fino, fio de cobre, sobre o mar.
Esquecer o passado é esquecer de olhar
para baixo. É a melhor receita de bolo,
para não solar, é a melhor receita
mesmo se não dá para ancorar
o seu navio no espaço.


Queria um bacuri
para beber meu leite
e arrotar poesia.
Quem sabe assim,
branca como leite,
minha vida enfim
se derramaria.


Minha amiga em Berlim

Neste Natal senti saudades de uma pessoa com a qual não poderia me comunicar. Desde que foi tentar a vida em Berlim, a minha amiga Glória comanda nossa relação direto da Alemanha. É ela quem telefona sempre que bate a saudade, e fica horas conversando. Creio que boa parte da grana que ela ganha em trampos variados em Berlim é gasta comigo, nessas ligações. Glória sempre sonhou em morar no exterior, desde que eu conheço. E lá se vão mais de 20 anos de uma amizade cheia de altos e baixos. É que eu nunca fui uma amiga muito boa para ninguém, confesso. Sou relapsa, mas absolutamente sincera. Glória sempre soube passar por cima disso e tocar nossa amizade. Quando penso nela, é inevitável recordar as grandes forças que me deu em momentos variados da vida. Glória ajudando numa limpeza complicada de papéis. Glórias cozinhando umas coisas deliciosas. Glória levando meu pai numa cadeira de rodas, arrumada por ela, para o médico (após vencer as resistências dele). Glória dividindo comigo alegrias e tristezas, dilemas e decisões, loucura e sobriedade. Enérgica, forte, jovial, cheia de fé. Glória é capaz de qualquer coisa. Berlim, e o complicado alemão, para ela são fichinha. Ela sempre dizia que nossa amizade não nasceu em mesa de bar. Mas passamos por várias ao longo das últimas duas décadas. Brigamos também, algumas vezes. Eu sempre acreditei mais em Glória do que ela mesma acredita, e sempre torci para que ela descobrisse as qualidade que só eu parecia enxergar. Saudades de Glória. É a ela, minha amiga em Berlim, que dedico uma prece nesse dia 25.

Eis que é salto no ar, este abismo,

e o que nos aguarda é so aguar, voar

ao fundo, e recolher do íntimo.

E se perderam no parque
como se fosse possível
encontrar na jaula dos leões
a criança que sumira
na penúltima visita. Nada

denunciaria os olhos tristes
por trás das lentes escuras
e, do sorriso da boca, o giz
da secura, nada denunciaria
que se perderam no parque
como se fosse possível
encontrar-se.


Menina, a vida é isto: um beijo
que deixa na língua qualquer gosto
e parte, na primeira sílaba brusca.
O resto é busca de alguma boca
que se abra em doce saliva,
cutucando o que em nós é céu,
ou coisa rara que sibila.

Se fosse azul este dia, como um quadro,
eu o penduraria no nariz, para enfeitar meu rosto
e parecer feliz.
Mas eis que parto para a vida com este aniz,
exageradamente febril nos traços,
e quase nada mais me diz
o lábio amargo.

Próxima Página »