Sol lírico para Joplin, o texto
Por João Filho
Solidão, abandono, pouco dinheiro e afeto, muito afeto. Pode-se dizer em termos gerais que esses são os temas do novo livro de poemas de Kátia Borges, Uma balada para Janis, que integra a Coleção Cartas Bahianas, da Editora P55. Coleção que se iniciou em janeiro deste ano e já está com 12 títulos publicados. O livro é dividido em quatro pequenas seções: Port Arthur, Texas/High Ashbury, San Francisco/Pearl/Landmark Hotel, e os poemas são numerados. Essa divisão é a trajetória pessoal da cantora e persona Janis Joplin, mas pode ser lido também como um andamento de compasso.
Fica visível o fundo geracional de onde provém a autora. Não somente através das influências musicais e literárias, também porque quase todos os poemas são atravessados por esse lirismo dark de tom romântico e melancólico que encontramos muitas vezes nas letras de rock dos anos 1960 e 1970. Porém, ela não fica presa somente à sua geração, ou tribo. Kátia Borges consegue voos mais longos e duradouros, e toca em pontos nevrálgicos da nossa condição.
A suave densidade de muitas imagens: Simples como se nota/na ponta do lápis/uma ínfima parte/do branco da folha. A linguagem simples, não fácil, e musical contrastando com os temas ásperos. Em vários momentos há nessa junção um desespero que não explode. Ao contrário, aceita as baixezas e armadilhas da vida e prossegue. É comovente o tom de resignação reflexiva da autora: Tão pouca, esta minha vida,/pela qual agradeço, cada órgão/que funciona a contento. [...] Tão pouco, este amor,/pelo qual agradeço./E tão imenso. Como quem saboreia um gole fresco de água ou cerveja e agradece ao sol do dia.
Certo prosaísmo, que não diminui, antes acrescenta à dicção da autora, pois muitos poemas foram originados de cenas cotidianas, como este: Na porta da mercearia/de bairro, fumo um cigarro,/o primeiro do dia, após/ um acontecimento que/não é de amor ou de poesia. O viés estilístico ao construir o verso, principalmente os iniciais de cada poema, possibilita singularidades como esta: A vida é mais punk /que Joan Jett e Carmen Electra juntas,/ e nem tem o charme endinheirado/de uma Second Life.
Esse segundo livro mostra a maturidade da autora, seus melhores recursos técnicos, uma variedade de ritmos interessante, construção imagética fértil calcada numa densa reflexão sobre o estar no mundo, maior referência literária, musical e plástica. As confluências incidentais mais visíveis são Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Ana Cristina César e Mario Quintana. Esse segundo livro faz com que Kátia Borges se afirme como uma das poetas mais importantes de sua geração nascidas em solo baiano.
Um pequeno arranhão, a meu ver, nesse belo livro-vinil: o poema nº 9 da última seção denota certo panfletarismo com laivos feministas. Apesar da saudável rebeldia que perpassa alguns poemas, esse nº 9 destoa do conjunto.
Confesso que o seu primeiro livro De volta à caixa de abelhas não me cativou como esse. Sim, livros de poemas são coisas vivas, ou nos cativam ou nos enxotam e Uma balada para Janis embala-nos.
Serviço
Livro: Uma balada para Janis
Autor: Kátia Borges
Editora: P55 Edições
Preço: R$ 10
Um sol lírico para Joplin
Resenha de João Filho sobre a Balada, publicada no Portal Literal. Acabei de receber via e-mail, tinha que postar.
Uns dias

Ficarei uns dias sem postar, concentrada num projeto essencial. Talvez tenha boas notícias em breve, não sei.
A balada da balada 3
Revi ainda amigos do coração da vida inteira (Franklin Carvalho, com Adauto, Linda Bezerra, com Terê, Adalberto Carvalho e José Eduardo Matos Franco, com Tom). As minhas duas irmãs queridas, Bárbara e Paula Lice. As duas sobrinhas lindas, Mariana e Júlia. O ator Rafael Medrado, namorado de Mari, que chegou mais tarde. O cunhado querido, Marcelo Sousa. Érica, presença essencial, e suas irmãs (Lêda, Sônia, Cátia e Cláudia, com Manoel Francisco). As sobrinhas de Érica, Victória, Silvinha e Nanda. E algumas ausências: Ângela Vilma, Ana Clélia e Bomfim, Mayrant Gallo, Marcus Gusmão e Soraya, Antonio, irmão de Érica, a mãe de Érica e a minha mãe. Meu pai mandou um recado para mim em sonho na tarde do dia 10: “estou com você”. E estava.
A balada da balada 2
Muitos artistas visuais também estiveram na Tom do Saber. Foram festejar Maxim Malhado, quase tão nervoso quanto eu. Valéria Simões, Zuarte, Edgard Oliva… E os colegas de jornalismo, de agora e de sempre. A galera da revista Muito (Nadja Vladi e Priscila Lolata, Ronaldo Jacobina, Marcos Dias, Tatiana Mendonça, Katherine Funke) e do jornal (Ranulfo Bocayuva, Florisvaldo Mattos, Iloma Sales, Patrícia Moreira, Regina de Sá, Josélia Ribeiro). Lucy Bruni e Agnes Cardoso, que conheci no primeiro estágio profissional da vida, na Rádio Educadora. Minha homônima Kátia Borges, do Crear. O músico Tuzé de Abreu. Devo estar esquecendo alguém, peço desculpas.
A balada da balada
Timidez e ansiedade me fizeram chegar antes das seis na Tom do Saber e beber uns dois uísques no susto. Mas tudo começou a dar certo quando Maria Sampaio, que chegou com Bete Capinan, iluminou o ambiente. Claudius Portugal, que coordena a coleção Cartas Bahiana, já tinha chegado também e ficamos conversando sobre a poesia dos anos 70 no Rio de Janeiro. Ele participava do grupo Folha de Rosto. Já tinha visto Suênio Campos de Lucena na livraria. Ele falou sobre o livrinho estar pronto e bem bonitinho, eu nem tinha tocado nele ainda. Fui ver e amei. Depois, chegaram Adelmo Oliveira, Gerana Damulakis, Aramis Ribeiro Costa, Antonia Torreão Herrera, Luis Antonio Cajazeira Ramos, Aninha Franco, Állex Leilla e João Filho, Karina Rabinovitz, Marcus Vinicius Rodrigues, Nilson Pedro e Emília Valente, Lima Trindade, Adelice Souza, Mônica Menezes e Carlos Barbosa, Washington Queiroz, Lúcia Carneiro, Márcio Sousa e muitos outros. Tantos escritores, tanta gente legal.

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