Esboço

De bonito, Danúbio já tinha o nome, dado pelo médico assim que botou a cara no mundo e abriu os olhos. Eram uns olhos muito azuis, e mais azuis ainda em contraste com a pele, muito negra. A mãe aceitou aquele nome sem conversa, por respeito e timidez. Sem pais, sem pai, filho repentino nos braços, os dois nas graças de Deus. Assim foi criado, feito um grande rio sem margens, sem visão de um mar possível. Apanhou de padrastos vários que duravam no máximo dois verões até começar a bater. Ah, Danúbio. Bom menino, tranquilo, louco por um caminho que o levasse à nascente de alguma coisa verdadeiramente boa.
O barraco, os ratos, a comida rala, o dinheiro pouco. Aos 18 foi ser boy de um banco, graças a boa aparência, aquele encanto de ser preto com olhos de branco, as mulheres ficavam loucas. Tímido, o menino sonhava com outros prazeres, a vida mansa do patrão, caixa de banco, chegando em uma moto, calça e camisa engomados, barriga pronunciando a mesa farta, uns trocados a mais no bolso. Nada. Salário mínimo entregue para as despesas. No máximo, as gorjetas de quando ajudava senhoras com as compras no mercado. Jornada dupla e mais colégio. Primário sofrível, segundo grau esperto, com colas e mais colas. Iria para a faculdade em breve, contrariando os prognósticos. Filho de preta, a mãe dizia, tem que aprender uma profissão técnica. Nada, ele pensava. Vou é ser médico. Ser chamado de doutor, cortar o mal nos outros.
Não foi, não deu, bem antes caiu na malha dos amigos. Tessitura consistente que envolvia a todos na rua em que morava, praticamente vala, a casa de Danúbio. Com eles aprendeu a fumar erva, pular muros, catar bagulhos e prensar na boca com cuspe. Engolir, se fosse preciso, para escapar dos homens. Vendendo bagulho comprou um táxi. A mãe feliz: agora achou-se. O táxi rodava dia e noite, levando clientes dos traficantes, e logo ele fez jus ao nome. Virou o europeu, o maioral, deslizando feito a valsa azul, em afluentes de crimes. Bacana, comprou casa de varanda, geladeira duplex com dispenser na porta, fogão de seis bocas e forno micro-ondas. A mãe de vestido bonito, última moda, homens mais jovens na cama, apê em Copa, veraneio em Búzios, passeios de lancha. E Danúbio correndo, inexoravelmente, de terno Ermenegildo Zegna, rumo a um mar de sangue.
Li duas vezes, a primeira me deliciando com a narrativa em si, a segunda para ver se aprendo alguma coisa dessa arte que você domina tão bem.
Nossa, Kátia, que tocante! Danúbio correndo “rumo a um mar de sangue”, não tendo outra “visão de um mar possível”, quando, na realidade, possuía um rio enorme no nome e um mar nos olhos.
Adorei, Kátia! Muito bom! Parabéns!
Beijos!
Ótimo! E impressionante.
Um contaço, viu, dra. Kátia! Gostei, gostei, gostei.Muito, muitíssimo.
Este conto me fez lembrar da lindíssima música do mestre Chico Buarque: “olha aí, ai o meu guri, olha aí, olha aí é o meu guri.”
Belíssimo conto… parabéns!!!!
“E Danúbio correndo, inexoravelmente, de terno Ermenegildo Zegna, rumo a um mar de sangue”. Forte, fortíssimo. Bom demais. Sua prosa tão boa quanto a poesia. Prosa poética, de fato!!!