Kátia Borges

Posts de Junho, 2009

Poeminha anos 80

In poesia on Junho 29, 2009 at 5:10 pm

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Organizamos um piquenique
dentro do parque da cidade
toalha xadrez, cesta de vime
– a santa ceia –
Convidamos um Judas
de aspecto meio junkie
e um Pedro afeito a negar
todas as coisas. E, claro,
aquele que faria milagres.
Fazia um sol dos diabos,
Tiago levaria anfetaminas.
Ele subiu as alamedas
com as bolinhas coloridas
apertadas entre os dedos,
assobiando um rock.
Quando chegou, vimos,
espantados, o que os
comprimidos derretidos
haviam deixado:
em suas mãos,
uma tela de Pollock.

Tudo é verão, e nada é

In poesia on Junho 27, 2009 at 3:39 am

Tudo é verão, e nada é
nunca mais. Um dia foi
só em outra encarnação,
se acreditasse. Você
calou, olhando triste.
Tudo é verão, e nada é
a madrugada leva a noite
fria, fogueira, bandeirolas,
e deixa para trás todos
dormindo. Velhas lições,
amar outonos, folhas caídas
amarelando jardins de
inverno, só em sonho,
se acreditasse. Ah, essa
história, a beleza de ser
triste, ler On the road,
beber como se não
existisse um amanhã.
Tudo é verão, e nada é,
esta certeza, fechar a porta,
e entrever, na fosca fresta,
o seu olhar que nada diz,
que apenas olha, olha,
só em poesia, se acreditasse.

Um dia comum

In poesia on Junho 26, 2009 at 1:14 pm

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Um dia comum não te guarda.
Há furacões ao sol, nuvens
de azogue prontas a dar o bote.
Um dia comum não te guarda.
O passar das horas esconde o laço
e noites sem alvorada aguardam
em camarilha. Um dia comum
enovela todos os dias no que avessa
o calendário, a armadilha.
E nem Maeve, Miguel Arcanjo ou Exu.
Nem mesmo Exu te guarda.

O sal das coisas

In poesia on Junho 25, 2009 at 3:18 am

A esperança não veio
no pacote, brinde, envelope
minúsculo laminado
holograma, ticket,
esperança, réstia
do sal das coisas que
solitariamente vivem
dentro das outras,
pérolas nem sempre,
ostras são bivalves,
valvas esperanças,
táctil ortóptero, verde
em mim na palma.

Perry

In Celebridades, Teatro on Junho 20, 2009 at 3:43 am

Fiquei triste com a morte de Perry Salles. Poucos sabem, mas trabalhei brevemente com Perry na época em que  ele administrava o Teatro Gamboa em Salvador. Não lembro como nos conhecemos, mas foi uma experiência intensa. Ele me ligava às vezes de madrugada, com ideias para a divulgação da peça que ensaiava. Eu o achava um louco. Batíamos uns papos legais, olhando a paisagem (alucinante de tão bela) do subsolo do Gamboa. A casa parecia um submarino. Até achei que ele havia ficado chateado comigo por ter caído repentinamente fora do projeto (tive uns bons motivos). Mas, antes de ir para o Rio de Janeiro, ele esteve no jornal e, ao me ver, gritou de lá um “Katinha” tão alegre e sincero que me surpreendi. Foi a última vez que o vi pessoalmente.

Aviso

In Qualquer bobagem on Junho 18, 2009 at 6:05 pm

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Ele veio do nada e deu um chute na porta frágil  da casa. Escutei a pancada forte e cobri a cabeça com o lençol. Sabia quem era e o que viria em seguida. Chuva de tiros. Fiquei quieto, golfos ensopando o tecido. Morto, talvez. Quando o silêncio surgiu, breve, fui arrastando o que restara do corpo para fora. Polícia é grave, chegando assim, investigando as coisas. Madrugada do Dias dos Mortos. Um vizinho me puxou pelos braços, estendidos, até me esconder inteiro embaixo da cama. A mancha de sangue, o rastro de sangue? Nada havia. Mais calmo, conferi a pele intacta sobre os ossos.

Na LDM

In Brodagem, Escritores, evento literário on Junho 13, 2009 at 4:52 pm

Fabulas delicadas lançamento

Na ALB

In Brodagem, Escritores, evento literário on Junho 13, 2009 at 4:48 pm

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Sutilmente (Nando Reis/Samuel Rosa)

In Música, poesia on Junho 13, 2009 at 12:17 pm

E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
Quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
Quando eu estiver fogo
Suavemente se encaixe

E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce

Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti

Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti

In poesia on Junho 10, 2009 at 6:26 pm

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Mas nem é poesia, é música,
sem cromatismo fake em versos
medidos. Não cabe perguntar
“da sombra daquele beijo”.
Apenas permaneço à escuta.
Há um telefone que toca
tarde da noite, a correspondência
incompleta, fios e ondas sonoras.
Fico em silêncio, consumindo
a sua ausência, consumando
a sua ausência. Vontade de dizer
vem cá, doma essa angústia.
Mas o agora é cinzas, o carnaval se foi.
Fico com velhos leões de circo,
que não rosnam e nem mordem,
antes imploram um pouco de comida.
Já não fugimos para a praia
no meio da semana, energia
raivosa de adolescentes. E nem é,
digo sem mágoa, nem é poesia…

Uma loira frágil

In Livros on Junho 9, 2009 at 7:29 pm

Surgiu num papo com minha irmã, Bárbara. Ela disse que a cor dos cabelos a tornava menos forte, uma loira frágil.  Achei o título bom para romance policial. Estou lendo um livro incrível, “E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques”, escrito na década de 40, a quatro mãos, por Jack Kerouac e William Burroughs. É trabalho e prazer misturados, como deve ser. Kerouac sempre  dá coceira de escrever. Fez um estrago danado na minha vida ler “On the road”. Mas batizar qualquer coisa é uma arte. Considero Lima Trindade um dos melhores nisso. Basta lembrar essa pérola devidamente editada:  “Todo sol mais o espírito santo”. E a capa casa lindamente com o título.

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Gosto ainda de “O amor é uma coisa feia”, de Gustavo Rios.  Título e arte de capa amarrados numa proposta só ao bom texto do autor.  Não sei quem fez as duas capas que cito aqui, não temos uma tradição nessa área.

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O poeta Luís Antonio Cajazeira Ramos também cuida muito bem de suas edições. “Mais que sempre”, por exemplo, tem uma capa bem clean, o que só favorece a arte de Vauluizo Bezerra.

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Em poesia, merece registro especial o livro “Entre o alho e o sal”, de Lupeu Lacerda, que pretendo comentar aqui mais longamente. Um belo trabalho gráfico envolve a poesia de Lacerda, de forma absolutamente harmônica, conectado ao texto e ao universo do autor.

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Mas, e a loira frágil? Andei espiando o meu “De volta à caixa de abelhas”, que teve o auxílio luxuoso de Gentil na capa. Acho que mudaria umas coisas nela. Gosto da foto antiga, mas  traduz uma fragilidade… Meu novo livro, ainda sem editora ou previsão de lançamento, tem foto de Maria Guimarães Sampaio na capa. É bem bonita, mais forte.

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Outro dia, conversando com Maria, ela contou sobre as idas e vindas da capa de “Rosália Roseiral”, seu romance, que chegou a sair com duas capas (veja abaixo, a segunda é muitíssimo melhor).

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E, por fim, fiquei encantada com o trabalho gráfico do livro de uma loira bem forte. Falo de Renata Belmonte e do “Vestígios da Senhorita B”, que envolve blog, vídeo e uma publicação lindamente  “envelopada” .

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Vou ser feliz e já volto

In Divagações on Junho 7, 2009 at 5:13 am

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Insônia. Mayrant Gallo me deu o que fazer. Pesquisei com cuidado cada um dos itens da lista de perguntas que ele postou em seu blog. Quem acertar todas as respostas ganha um exemplar da “Portal Stalker”, revista de ficção científica, que sai no fim deste mês e traz um conto dele. Tô na torcida por mim. Sempre. Não é um quiz fácil, não. Deu um trabalhão. Os últimos dias têm sido pauleira, conciliando a vida pessoal com o trabalho. Minha mãe ficou doente menos de uma semana depois que saí do hospital. Urucubaca? Sei lá, vamos levando. O que será que Sandro Ornellas quis dizer com “prepare-se”? Taí algo para pensar agora, às 1h49, depois de deixar a mensagem no Não Leia! duas vezes (para garantir). Hoje, no carro, fui ouvindo um CD delicioso do Barão Vermelho. Daqueles que a gente compra, curte, esquece e fica surpresa ao reencontrar. Meio como o livro de Ana C, exemplar da Brasiliense, edição de 1988, que não sai da minha bolsa. Exatamente como o disco de Paulo Miklos, “Vou ser feliz e já volto”, que poucos infelizmente tiveram o prazer de escutar. Agora são 2 horas e dois minutos.  A movimentação é grande no estacionamento (gente que chega da farra de sábado e fica rodando atrás de uma vaga).  De vez em quando, vou até a janela e espio. Alguém tem coragem de buzinar às duas e nove da madrugada… A Brastemp, na cozinha, faz um barulho alto e esquisito, ainda bem que temos outra geladeira. Duas e quarenta e quatro, transfiro tudo para a Electrolux e desligo a tomada daquela que não é nenhuma mesmo. Duas e cinquenta (sem trema) e penso em Clarice Lispector e nos livros que ela escreveu. Um dia alguém vai conseguir provar que literatura nada mais é do que magia.

Fallingwater

In poesia on Junho 6, 2009 at 6:03 pm

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Procuro uma casa assim
quero dar ao meu amor
uma casa na cascata, e um sim, 
como quem oferece uma flor

A caminho do rio

In Divagações on Junho 6, 2009 at 2:54 am

Ouvindo Hard Woman, uma de minhas músicas prediletas. Bem que tentei entrar no twitter a sério hoje, mas aquilo parece um diálogo entre surdos. Saio rapidinho após três frases. Volto às canções. Mudo mais uma vez o visual do blog. Cutuco a angústia com vara curta. Um poema sobre casas não sai do primeiro verso. Passeio por infovias desertas. Olho a estante, de onde Virginia Woolf me espia a caminho dor rio. Sei que podia fazer você feliz. A leitura do poema de Mario Faustino não sai da cabeça, absurda como tudo esta semana. Reencontro Ana Cristina Cesar, e vou relendo lentamente os poemas de A Teus Pés.

No Espaço Unibanco, em Salvador

In Brodagem, Escritores, amigos, evento literário on Junho 4, 2009 at 6:41 pm

Convite - O Encourado

Em Maracás

In Escritores, evento literário on Junho 4, 2009 at 6:39 pm

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Encontro com o escritor

In Brodagem, Escritores, amigos, evento literário on Junho 3, 2009 at 12:50 pm

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Mãos dadas (Drummond)

In amigos, poesia on Junho 1, 2009 at 6:37 pm

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.