Presente
Hoje, amor,
ofereço a você
minha infância
(a menina que fui,
selvagem e livre,
cabelos e sonhos
embaraçados,
pés descalços,
riso fácil)
Hoje, amor,
ofereço a você
minha ternura
(a mais íntima e funda).
Em que dialeto, meu Deus?

Não havia outra razão para que ela estivesse ali, esquadrinhando meu rosto em busca de diferenças. Eu, sim, olhava para ela com espanto. Era pequena, morena e estava grávida de um homem que acabara de morrer. Pequena flor, como no conto de Clarice Lispector. E tão perto do meu coração selvagem que tudo em volta se transformou nas profundezas da África Equatorial. Teria por ela a ternura do explorador francês: “porque esmeralda nenhuma é tão rara”. Coração aos pulos, logo me vi ajeitando as almofadas para que pudesse sentar com algum conforto em meu sofá de 1963. Teríamos a primeira conversa. Mas em que dialeto, meu Deus? Ela cruzou as pernas, descruzou os braços, um livro surgiu de dentro deles: “1933 foi um ano ruim”, o último de Fante. Sabia que Arturo Bandini é Dominic Molise? Ela já havia lido “Pergunte ao Pó” e sorriu.
A ver baleias (versão completa)
Eu agora só faço o que for fácil.
Dificuldade é tudo – o que não quero.
Que tudo é mais que tudo lero-lero.
Enchi o saco, Conselheiro Acácio.
Pois a vida é tão simples, tola, breve.
Nada chega senão num piscar d’olhos.
Vou levar-me até onde o vento leve.
Bem além do Arquipélago de Abrolhos.
Sem limites, vou longe… Mas que droga!
Longe é profundo. E tão desconhecido.
E metafísico, amplo mar que afoga.
Eu quero o raso, a vida pouca e lerda.
Desaprender o dito, o ouvido, o lido.
Só processar comida e fazer merda.
(Luís Antonio Cajazeira Ramos)
A ver baleias (Luís Antonio Cajazeira Ramos)

Eu agora só faço o que for fácil.
Dificuldade é tudo – o que não quero.
Que tudo é mais que tudo lero-lero.
Enchi o saco, Conselheiro Acácio.
Pois a vida é tão simples, tola, breve.
Nada chega senão num piscar d’olhos.
Vou levar-me até onde o vento leve.
Bem além do Arquipélago de Abrolhos.
Os dois primeiros versos de um soneto novíssimo. Tem tudo a ver com o modo como desejo viver.
Mãe
Tenho andado bem pertinho dela. O médico disse que o coração está fraquinho, fraquinho. Nem dá para entrar na hidroginástica. Ando mexendo em meu baú de guardados. Na primeira foto, Dona Juju penteia meus cabelos (acho que eu tinha uns 10 anos). Na segunda foto, o réveillon deste ano. Hoje tem festão de formatura de meu cunhado. Amanhã vou para Praia do Forte. Como vou? Vou indo…





