Kátia Borges

Posts de Dezembro, 2008

SPECTOR

In Sem-categoria on Dezembro 30, 2008 at 7:35 pm

Clarice, “se eu fosse eu” não faz sentido.
É como se eu pudesse ser alguém.
Pois nem ser eu sei ser, quanto mais quem
houvesse além de si haver havido.
 
Melhor deixar aquém o ser contido
e se deixar além de todo além.
Há muito que essa vida não faz bem
a quem vive pensando ou comovido.
 
Melhor não ser Clarice nem ser eu,
Clarice, nem ser eu a te dizer
o que é melhor – a ti, que já morreu
 
em mim o que queria conhecer
o que sentia, o que queria meu
um jeito, no sem jeito de viver.

Poema inédito de Luís Antonio Cajazeira Ramos.

Muito mais eu

In Citações, Clarice Lispector, Divagações, Falta de sentido da existência on Dezembro 29, 2008 at 2:15 am

Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase “se eu fosse eu”, que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor, sentir. E não me sinto bem. Experimente: Se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser locomovida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida. Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei. Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho, por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro. “Se eu fosse eu” parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos, enfim, em pleno, a dor do mundo. E a nossa dor, aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos, por vezes, tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.

Para fechar o ano, deixo com vocês o texto de Clarice Lispector de que mais gosto. Meu único projeto para 2009 é ser muito mais eu.

Feliz Natal a todos!

In Celebridades, Família, amigos, cães on Dezembro 25, 2008 at 11:51 pm
vivo e bem
Billy de Papai Noel: vivo e bem

Quase tragédia de natal

In Divagações, Falta de sentido da existência, Família, cães on Dezembro 22, 2008 at 12:07 am

Meu cachorro foi atacado covardemente. Estávamos esperando o elevador, no hall do prédio em que moro, quando o cão da vizinha do segundo andar, sem coleira, desceu furioso e agarrou Billy pela pata dianteira de surpresa. Fiz o que pude para defender meu cachorro, mas só a chegada do porteiro fez o outro cão, bem maior que o meu, se afastar. Minha mãe passou mal, estava comigo. Meu cachorro ficou mancando. Minhas mãos estão arranhadas, machucadas. Teve um momento em que achei que o cachorrão iria me morder, pois eu batia nele com as mãos. Meu medo era só de que Billy ficasse muito ferido. O síndico do prédio, avisado pelo porteiro, estava dormindo. Não espero qualquer atitude decente dele. A dona do cão que atacou Billy tem problemas mentais. Pago o condomínio rigorosamente em dia. Preciso começar a pensar em mudar de apartamento.

Jacaré e Saborosa

In Brodagem, Carnaval, Curiosidade, Divagações, Falta de sentido da existência, Mundo pop on Dezembro 19, 2008 at 12:23 pm

Corrigi o poema e a memória traiçoeira de menina. Saborosa e Jacaré eram marcas de cachaça mesmo, como Ari Coelho cantou desde o início. Maria Guimarães Sampaio me corrigiu (no romance dela, Rosália não diz que Saborosa e Jacaré eram cervejas, só cita as marcas). E Bernardo Guimarães confirmou, recordando até o aroma da Saborosa: “igual a paçoca com coco”. E foi além. Ainda lembrou mais marcas perdidas no tempo: Tatu, Pau nas Coxas e De Cabeça pra Baixo. Leiam a descrição feita por ele do trio elétrico (esse eu via passar na Cidade Baixa): “era montado na forma de uma garrafa de cachaça, com a “orquestra” no meio e zilhões de altofalantes nas beiradas em cima. Uma beleza! Mais anos 70 impossível”. E Maria também descreve lindamente: “O trio elétrico da Jacaré era um jacarezão verdão que abria e fechava a boca. O da Saborosa uma imensa garrafa branca deitada. Tudo com muita luz e a amplificação era daquelas bocas redondas encaixadinhas nos “desenhos-esculturas”. Havia umas varandas laterais onde ia a percussão, caixa, tarol… Não lembro se os sopros iam nessas varandinhas ou em cima com as cordas”.  Deu até saudade da Lavagem do Bonfim daqueles tempos. Não existia essa besteirada chic de Bonfim Light e todo mundo ia de caminhão e carroça para a Cidade Baixa. Os trios chegavam até o pé da colina e as barracas eram de madeira, com banquinhos pintados. Na nossa rua, caminho do cortejo, a festa começava de madrugada e não tinha hora para terminar.

O jacaré e o Bahia

In Sem-categoria on Dezembro 18, 2008 at 6:09 pm

rosalia-capa1

Ari Coelho questionou se Saborosa era mesmo marca de cerveja ou cachaça. Lendo o romance “Rosália Roseiral”, de Maria Guimarães Sampaio, vi que a protagonista cita justamente a Saborosa numa das falas. Ela diz: “Você não conheceu o Jacaré…a garrafa de Saborosa, tremendamente iluminados! Beleza!”. O jacaré era o símbolo da marca. Tinha até um prédio na Cidade Baixa (existe ainda) que chamavam de Jacaré por conta da cerveja. No livro, Maria faz um passeio musical pela história da Bahia e do Brasil e ainda reserva uma surpresa, fortes emoções, para o final. A quem protestou em relação ao Bahia, digo apenas que ele era e é o meu time de coração.

Retrospectiva de mim

In Sem-categoria on Dezembro 12, 2008 at 5:50 pm

Fiquei besta ao ver que no dia 18 o “Madame” completa dois anos de poesia e papo furado. Desde o episódio da conjuntivite, tenho postado bem menos para poupar os olhos, que já ficam grudados no monitor o dia inteiro. Aí, deixo passar coisas bacanas que leio nos vizinhos e que queria comentar. A bela oração de Renata Belmonte, “Nossa Senhora das Asas das Borboletas”, o poema mais recente de Nilson no Blag, a lista dos melhores livros de 2008 feita por Sandro Ornellas, a retrospectiva de Santiago Nazarian no Amor e Hemárcias. E também ando sem paciência para resenhar o mundo, opinar longamente sobre isso ou aquilo. Me dei o direito de ir desacelerando até o dia 11 de janeiro. Devagar, a gente aprecia melhor a paisagem.

In Sem-categoria on Dezembro 11, 2008 at 12:43 pm

Fui ver Maria Sampaio ontem, mesmo morta de vergonha. Mas ela logo me pôs à vontade. E Brigitte me recebeu com festa, como se me conhecesse há anos. Saí de lá com um disquete com 43 imagens, para escolher uma para a capa do novo livro, e um exemplar autografado de “Rosália Roseiral”. Vou começar a ler hoje.

Capitu

In Imagens, Sem-categoria on Dezembro 10, 2008 at 4:58 pm

O primeiro capítulo de “Capitu” foi uma aula de como fazer televisão com o que cada linguagem tem de melhor, e sem tanto hermetismo como em “A Pedra do Reino”. E que música linda! Joguei no google e descobri que se chama “Elephant Gun”, de uma banda chamada “Beirut”. O clipe acima.

Ainda Woody Allen

In Sem-categoria on Dezembro 10, 2008 at 4:39 pm

O comentário de Ana Clélia está correto. Woody Allen pode mesmo vir filmar no Brasil, mas será só em 2010. O empresário Cláudio Loureiro ofereceu 7 milhões de dólares ao agente de Allen e parece que a coisa vai andar. Foi assim, com um patrocínio antecipado e oferecido, que “Vicky Cristina Barcelona” foi feito.

Ainda sobre Vicky Cristina Barcelona

In Sem-categoria on Dezembro 9, 2008 at 3:15 pm

Ana Clélia me disse que Woody Allen pode vir filmar no Brasil no ano que vem. Atrás da história, dei numa entrevista dele em “O Globo”. Um trecho:

“O fato de lhe chamarem de grande não faz você ser grande, e o fato de dizerem que um trabalho é terrível não o torna terrível. Eu me lembro de, anos atrás, voltar para casa depois de ter um grande triunfo com “A Última noite de Boris Grushenko” (“Love and death”) e, mesmo assim, a garota do apartamento em frente não quis sair comigo. Eu estava em casa, sozinho, comendo comida chinesa diretamente da embalagem, sem nada a fazer exceto assistir à televisão. O sucesso nunca significa nada”.

Atrás da porta

In Divagações on Dezembro 9, 2008 at 1:15 pm

Neste fim de semana, finalmente fui ver “Vicky Cristina Barcelona” com Érica. Também levei minha mãe para escolher presentes pros netos. Dias bacanas apesar da chuva. Ando pensando bastante  sobre vida e literatura. O Iching não tem animado muito. Sensação de que há algo atrás da porta.

Sábado de sol

In Sem-categoria on Dezembro 6, 2008 at 5:47 pm

Não pude ir ao encontro na casa de Lima Trindade ontem. E nem tive notícias ainda. Curiosidade. Hoje, trabalhei toda a manhã e parte da tarde. Mudei o modelo do “Madame”, fiz um pequeno post sem graça, e fui viver, que é bem mais importante. Façam o mesmo, vocês.

Aprendendo lições

In Sem-categoria on Dezembro 5, 2008 at 1:58 pm

Bastou escrever que ainda acho jornalismo a melhor profissão do mundo para que os pontiagudos ossos do ofício me cutucassem. Não diria que é o fêmur, o maior de todos. Mas não é certamente o estribo, o menorzinho, que fica no ouvido médio. São 206 ao todo. Alguns ainda têm uma costela extra. Os ossos do ofício superam enormemente este número. O de nome mais bonito para mim é o zigomático, do crânio humano, forma praticamente toda a face, o rosto. Um osso quebrado pode virar lança dentro do corpo, perfurar um órgão, subverter a funcionalidade. “Os ombros sustentam o mundo”, como dizia Drummond, mas as escápulas sustentam os ombros. Até possível viver sem ofício, impossível viver sem ossos.

A melhor profissão do mundo

In Livros, jornalismo, papo furado on Dezembro 4, 2008 at 4:32 pm

Notícias sobre “Vidas que ninguém vê”, de Eliane Brum. Ela, assim como eu, ainda acha que jornalismo é a melhor profissão do mundo. Antes que abrisse a primeira página, Tati Mendonça advertiu: “é meio piegas”. O livro reúne as colunas publicadas em “Zero Hora”. A idéia, sugerida por Augusto Nunes, foi de pegar pessoas simples, gente anônima, do povão, e fazer um perfil delas. Algumas resvalam mesmo na pieguice. Mas há inegavelmente coisas muito bacanas, como a história do mendigo que nunca pediu nada. E o triste fim de Camila, menina de 10 anos que pedia trocados nos semáforos e morreu afogada no Guaíba. Vidas e mortes que rendem no máximo nota de pé de página nos grandes jornais. Brum é repórter especial de “Época”. Levei o livro de Paulo Scott, “Ainda Orangotangos”, para emprestar a Tati. Ganhei numa das feirinhas do Caderno Cultural e gostei pra caramba.

Inteiro

In papo furado on Dezembro 3, 2008 at 2:53 pm

Tati Mendonça me emprestou um livro incrível esta semana. As entrevistas que Clarice Lispector fez com gente de literatura, teatro e artes plásticas. Algumas me tocaram especialmente. A de Nelson Rodrigues, sincero ao falar sobre solidão e amizade. A de Rubem Braga, humildade mesmo, humildade absolutamente sincera. A de Érico Veríssimo, humildade de modo diverso. Humildade orgulhosa. E a de Jorge Amado, eivada de simplicidade, sem humildade. “Para sê grande, sê inteiro”, já dizia Fernando Pessoa. “Seja como o Sol ao meio-dia”, diz o I Ching. Hoje, Tati me emprestou mais um bom livro, “A vida que ninguém vê”, de Eliane Brum. Vou ler à noite.

1º de dezembro

In poesia on Dezembro 1, 2008 at 12:20 pm

Lembro ensolaradamente aquela tarde,
eu e meu pai, após mais uma ida ao médico.
Ele faria radiografias da mandíbula,
mas estava tranqüilo,
e havia uma paz enorme entre nós.
De tudo, depois de tanta dor,
guardei comigo aquele enlevamento
vespertino, e o modo incrível
como mexeram comigo
uma certa brisa e a sombra imensa
que as árvores projetavam
no asfalto.

Hoje, seis anos sem meu pai.