Posts de Outubro, 2008
Olhos
In papo furado on Outubro 31, 2008 at 12:26 pmAo sol
In poesia on Outubro 29, 2008 at 5:12 pm
Sair ao sol,
encarar o dia,
sem medo das sombras
que insistem.
Sim, sair de dentro
e ver a rua e o mundo,
com ruídos, entre dentes,
buzinas, rangidos, vômitos,
sob a luz que escorre
na cidade quente.
No meio fio,
sentar e apreciar a paisagem,
com seu tanto de Guernica, de guerra civil
mascarada por rostos
sorridentes.
Sair ao sol,
enquanto chove
intermitantemente.
Mural 2
In Brodagem on Outubro 28, 2008 at 11:47 pmDe casa nova também está Ari Coelho, do Diário de uma hepatite. Agora, ele atende aos clientes no Filósofo de Itapuã. Vale dar uma espiada, está lindo!
Mural
In Brodagem, Citações, Imagens, poesia on Outubro 28, 2008 at 1:05 pmO blog Contramão de Mayrant mudou de nome e endereço. Agora é Não Leia!. Clique e leia!
Sonho
In Divagações on Outubro 28, 2008 at 12:53 pmSonhei que ia flutuando pelas ruas. E não sentia medo. Como se quisesse ver, saber, onde aquilo podia levar. Seguia pelo ar, sem gravidade. Ninguém estranhava. Depois parou. Dormi pesadamente, acordei feliz. Um passeio esquisito dentro do sono. Uma menina me olhava, vestido colorido, como se esperasse o sinal abrir.
Towanda
In poesia on Outubro 27, 2008 at 8:13 pmPerdi a conta dos poemas
que fiz, olhos guardados
numa caixinha de música,
os atrasos pra anos que
nunca viravam novos de fato,
sempre pelo avesso,
um acidente de carro,
uma fuga pra Amazônia,
e festa em todo canto,
em Arembepe, primeiro
de janeiro, na Boa Viagem,
melancolicamente elegantes,
ao som de Little Crazy,
no meio da folia, fazendo
cinema (você, Castro Alves).
Perdi a conta dos poemas
que fiz, letras, pequenos
roteiros para longas,
rascunhos de contos,
fragmentos dramáticos,
sinopses de novela, tanto texto,
meu Deus, tanto texto.
Só pra chegar hoje,
sem achar palavras,
e chorar ao telefone.
Temos um novo projeto juntos.
Sim, amigo, e, dessa vez,
será um curta-metragem.
Hoje
In Divagações on Outubro 26, 2008 at 11:44 pmVotar é voltar. Ver a Ribeira animada por bandeiras e bandeirolas. Gente simples nas ruas. Na Cidade Baixa, tive notícias de Glória, minha grande amiga, hoje vivendo na Alemanha. Revi Zé Eduardo, irmão da vida toda, e Vera, a mãe dele. E Dona Lurdes, antiga vizinha, daquelas que não se encontra mais, e que agora tem uma piscina na casa maravilhosa que comprou no bairro. O mar espalhado por todos os cantos, onipresente, os imóveis antigos, lindos, lindos, e os mesários com caras conhecidas. A seção eleitoral fica no colégio em que estudei na infância, o João Florêncio Gomes, e lembranças de tanta gente boa. As salas de aula, o pátio, a cantina. Noêmia, a Noca. Mário Itaparica, o punk. Mônica, Lília, Loura… Marcelo Galvão, hoje pai de família. David e Raquel. Depois dessa viagem, com o rosto queimado de sol, fiz contato com a nave mãe e fui recolhida por Érica para o almoço. Pirão de leite e carne de sol no Picuí. Uma cerveja gelada. E o pôr-do-sol da foto no Barravento. Feita com o celular.
Erguendo as velas
In papo furado on Outubro 22, 2008 at 11:43 pmFui a uma oftalmologista hoje. Como a minha avó paterna e o meu avô materno tiveram glaucoma e ficaram cegos, o ideal é fazer exames anuais. Tenho sido meio relapsa. Mas, nos últimos meses, andava com os olhos ressecados, vermelhos e ardidos. Para completar, os óculos quebraram e não vivo sem eles. Foi um exercício de paciência ir ao lançamento do livro de Gláucia na Saraiva sem enxergar nada. Só consegui agendar a consulta com rapidez numa clínica que fica na rua em que morei na infância, na Cidade Baixa. Fui com minha mãe, que adora aquela região. Gosto da companhia e acaba sendo um passeio para ela. Bom, felizmente, está tudo ok. Fiquei surpresa ao saber que a miopia reduziu bastante e que sofro de uma conjuntivite alérgica (não contagiosa), que pode ser debelada com o uso de um simples colírio. Mas fiquei com os olhos amarelos o dia todo, distraída que sou, como se usasse uma espécie de sombra exótica. Efeito da dilatação das pupilas. O trabalho correu legal no resto do dia e, no fim da tarde, fui ver minha sobrinha de 11 anos, que estava meio doentinha. Comprei picolé para eles (são três) e aproveitei para conversar com minha irmã mais velha, que vejo pouco, sempre ocupada com a faculdade (concluiu Letras, cursa Direito). Ontem, fiquei com a mais nova até quase madrugada, num papo legal sobre dilemas amorosos e a vocação dramática da família. Também a vejo pouco, envolvida com peças de teatro (estuda Direção Teatral na Ufba) e as aulas (ensina na Escola de Dança, também na Ufba). Cercada pelas pessoas que amo, e com apoio das pessoas que admiro, vou erguendo as velas. Navegar é preciso, já diziam os portugueses. E o poeta.
In poesia on Outubro 21, 2008 at 6:52 pm
Meu amor não me deixa ficar triste,
se emburro ou zango, franzo o cenho,
vem logo em meu socorro com um riso.
Que será de mim, amor, sem este siso?
Quase pergunto enquanto me arrasta
para a cama, pondo em minha boca
a língua, doce como se não fosse frágil
este sentimento.
Sem guarita
In poesia on Outubro 20, 2008 at 8:31 pmA saudade reside em meu portão.
Às vezes entro e saio sem notá-la.
Quando a encaro, porém, falta-me a fala.
Não há palavras para a solidão.
Terrível o lugar de seu plantão.
Sentinela invasora, não se abala.
Se entro ou saio, fuzila-me sem bala.
Caso contrário, prende-me no chão.
Tento ficar em casa em companhia.
Tento entrar e sair acompanhado.
Mas seu olhar me caça noite e dia.
Penso mudar de casa e dar um basta.
Mas nessas horas ela adianta o fado.
Mais se aproxima, e tudo mais se afasta.
(poema inédito e belíssimo de Luiz Antonio Cajazeira Ramos)
Dentro de mim
In papo furado on Outubro 20, 2008 at 6:46 pmAndo meio sem vontade do “Madame”. Melhor não forçar. A cabeça vive cheia. Preocupações que vão da violência urbana a uma mancha nos olhos do meu cachorro. Até minha plantinha se recolheu, vítima de uma praga qualquer. O I Ching diz que o melhor a fazer é manter as costas imóveis. Desde a morte de Márcia fiquei meio desanimada na blogosfera. O post anterior fala de um grande amigo em situação de saúde delicada. Então, faço o login aqui e o que vejo, este espaço em branco, está também dentro de mim.
Ah, meu amigo
In poesia on Outubro 19, 2008 at 6:43 pmAh, meu amigo, guardar você comigo,
como uma mãe guarda um filho.
No ventre. Como uma mãe guarda
um filho. Ou simplesmente
estar contigo.
Para você
In papo furado on Outubro 16, 2008 at 6:40 pmApós três dias de enxaqueca, e quatro sem fumar, o prazer de uma manhã sem dor de cabeça. Estamos perto da minha estação favorita, o verão. Lembro algumas viagens que fiz nessa época. Férias. Uma delas passei em Arembepe, numa casa de dois quartos, alugada, perto do mar. A outra em Arraial da Ajuda, no pequeno hotel de um simpático argentino. Ah, teve também uma em Maceió. Um mês inteiro diante daquele azul único. Fomos para Recife, visitamos Olinda e ficamos dois dias em Porto de Galinhas. Vontade de voltar, de almoçar no Divina Gula… E tudo veio depois de um papo sobre Itacaré, que conheci num janeiro desses, mês do meu aniversário, lotada de turistas. Chegamos perto das 22 horas, buscando um quarto. Acabamos na Pedra Solitária, acreditem, a pior pousada do lugar. Mas tudo vira lembrança boa. Não há nada que eu ame mais do que pegar a estrada com Érica. O rádio do carro tocando uma música bacana, sempre atrasadas em relação ao que seria sensato, enfrentando longas distâncias, brigando por uma coisa ou outra, rindo em seguida. Na capital de Alagoas, pra variar, chegamos tarde da noite, faltou luz no hotel. Da janela, víamos a cidade iluminada e o mar. Em Morro de São Paulo, pegamos a lancha na ressaca, quase vira, fizemos fotos das nossas caras assustadas. E, no início do ano, fomos para a Chapada. Ficamos em Lençóis, e fomos a Iraquara e Boninal. Fiz 40 anos dentro do rio Pratinha, com peixinhos bicando a pele debaixo da água. Na estrada, vendo o Morro do Pai Inácio, pensei em como pude demorar tanto para conhecer aquela região. Escrever sobre essas viagens me fez pensar num dia bom, tranqüilo, de céu azul, e numa música boa, tocando alto, enquanto o carro avança. Dias melhores virão.
Cidade Baixa
In poesia on Outubro 15, 2008 at 12:35 pmNo beco estreito de minha infância
cabiam todos os sonhos
e assombrações,
as primeiras ousadias
amorosas e decepções.
Depois, o mundo veio
como um golpe de ar,
embaraçando os cabelos,
embaçando a visão.
E nada mais havia a ousar.
Na minha rua, todos os anos,
o cortejo do Bonfim
e o Terno dos Astros
enchiam os olhos.
(E eu nem sabia a diferença
entre Cidade Baixa e Cidade Alta)
Éramos pobres, e a vida, dura.
Mas, todos os anos,
o cortejo do Bonfim e o Terno dos Astros
passavam em nossa porta.
Depressão em céu azul
In poesia on Outubro 10, 2008 at 4:44 pmPensei nesse título para meu novo livro. Luís Antonio Cajazeira Ramos protestou imediatamente. Como sempre, acabo dando razão ao meu amigo. Antes havia pensado em um outro, mais infeliz ainda. Foi sepultado sumariamente pela opinião de Gerana Damulakis, que igualmente acato. Quero um pocket book de tiragem pequena. Um livro com os poemas do “Madame” e mais uns outros, guardados no fundo da gaveta. A capa com uma foto em P&B. Não sei ainda de quê. Procuro editora. Paga, claro, que não sou famosa. Um preço que dê, que se encaixe no apertado orçamento de uma jornalista. Lima Trindade e Sandro Ornellas têm ajudado. Dão dicas de editoras pequenas no Rio, em Santa Catarina, em São Paulo. Aguardo o orçamento da 7Letras. Enquanto isso, vou selecionando, revisando e escrevendo mais poemas. Verdadeira novela, esta nossa vida literária.
Esperança
In poesia on Outubro 9, 2008 at 1:07 pmSempre que pousava
uma esperança perto
– e éramos crianças –
ela parecia um dinossauro
verde. Pai e mãe advertiam,
se queríamos machuca-lo,
na crueldade da infância:
“Veja, filho, é um inseto
que só traz bons presságios”.
E mesmo nem desconfiando
o que fossem bons presságios,
a gente ficava olhando
aquele alvo fácil
de apertar entre as mãos.
Só adultos, entendemos
a fragilidade da esperança.
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In poesia on Outubro 1, 2008 at 1:33 pmQuando for um velho,
quero continuar selvagem,
que o branco dos cabelos
não me santifique, que o branco
dos olhos não me cegue
inteiramente. Quando for
um velho, como esses
que vejo hoje, com graça
e boa vontade, que saibam todos
o quanto continuo jovem
e rebelde. Quando for
um velho, espero que sobre
a voz, à mão, um revólver,
inda que erre, que lance a fúria
contra tudo que me inquiete,
enquanto eu não for.
Faço um repeteco desse poeminha com modificações. Foi publicado aqui há alguns dias.












