Há um poema de Ana C que dorme em mim. Feito uma criança pequena numa festa de adultos. Juntaram duas cadeiras e há umas almofadas de estrelas coloridas. Ele dorme e sonha com aquilo que conhece em seus 5 ou 6 anos. As formigas no pátio do prédio. Uma bola que saltou o muro. Os balões que levaram o padre para o céu [isso ele viu no Jornal Nacional]. No fundo de mim, pais recolhem o menino. E ele sente o sacolejo do carro na pista. Pára num semáforo. Roda, roda. Nunca chega. Eu poderia morar no poema a vida inteira. Uma casa com jardim sem cercas. Meu cachorro correndo para me contar o que viu em seu passeio matinal. Não diz coisa. Mas como falam seus olhos de cão. Põe o queixo em meu colchão. Observa. Tenho a impressão de que me conhece. Se pudesse falar, diria umas verdades na minha cara. Há um poema de Ana Cristina Cesar que [sabe?] me deixa louca.
Posts de Julho 6th, 2008
Ternura
In poesia on Julho 6, 2008 at 1:08 amNão sabia se ia voltar.
Engoli o comprimido azul e segui
os conselhos médicos. As luzes
passavam rápido, estrelas falsas no teto.
E, de tudo, só lembro o beijo
que ela deu em minha testa
quando deixei o centro cirúrgico.
Dendê
In poesia on Julho 6, 2008 at 12:36 amQuando Dinha morreu,
alguém gritou de lá
“antes ela, do que eu”,
e fez piada do tacho vazio
no Largo de Santana.
A vida estava quieta, branca,
feito sexta-feira na Bahia,
e lembrei o pai,
perguntando ao médico
se, após a quimio,
poderia voltar a comer acarajé.
De bermudas e boné, o pai,
sambava sozinho entre a sala e a cozinha
e, na bebida, chorava meu avô:
“naquela mesa tá faltando ele”.
Alguma coisa mexia [uma tristeza?],
às seis da tarde da Ave Maria.
Vivíamos, os dois, naquele estreito.
E Dinha? Comia acarajé todo santo dia.