Kátia Borges

Posts de Julho, 2008

Compartilhando poesias

In poesia on Julho 30, 2008 at 4:04 pm

Minha Santa Cecília,
povoai o crânio de quem amanhece
com a alma escapada da poesia!
Dai-me, Santa Cecília,
teu cajado emprestado
e eu vou pastorear minhas nuvens
levando-as para bem longe…
Ah, minha Santa Cecília,
Desce de onde estás e aquece
esses versos sem paradeiro certo
esses versos de sons quebrados
esses versos feios e mal-feitos
Adornai, minha Santa
a alma de plantas e palavras
e quando eu acordar bem cedo
soprai para mim duas vezes
o mais leve segredo.


(Não resisti à tentação e “roubei” esse poema, inacreditável de tão belo, do blog da Aeronauta)

Homem

In poesia on Julho 29, 2008 at 10:20 pm

Meu homem chega cansado,
o suor grudado na pele.
E eu, que o imagino calmo, me deito,
rosto contra o travesseiro
e aguardo.
Ele deita seu peso sobre meu corpo,
e seu cheiro é forte,
como o de um cavalo.
Sinto seu hálito no pescoço,
suas pernas forçando passagem
entre minhas pernas.
O amor não tem rosto, penso,
é essa pressão — pele contra pele
— esse atrito de pêlos.
Quero dormir e sonhar que nos amamos,
e que antes de me possuir, ele me despe, delicado.
Quero dormir e sonhar que ele chega,
só em sonho posso tê-lo sem essa fúria.

(poema do livro “De Volta à Caixa de Abelhas”)

Após o sonho

In poesia on Julho 28, 2008 at 6:20 pm

(para Vanderlei Carvalho)

Não veria o inverno, aquele ano,
com os termômetros loucos,
marcando 17 graus na cidade quente.
Nem as ondas, no Flamengo,
espargindo sobre as rochas,
seu salitre. Em março,
sumiria na floresta de Bara,
como Ram, o novo Buda,
encarnação do lendário príncipe.
E, após a morte, em sono, em sonho,
reapareceria outra vez. Tão docemente,
como se, em suas entranhas, as raízes
de peepal iluminassem, em fogo santo,
as vestes. Só o verão, guardaria nos olhos,
levando aos horizontes de Lumbini.

Próximo post

In papo furado on Julho 27, 2008 at 11:30 pm

Meu blog predileto é o Cadernos Grampeados, de Celso Júnior. Desde que o conheci, via Paulinha, minha irmã, fiquei viciada. Adoro o modo como Celso, que é ator e diretor teatral, narra seus dramas, suas viagens, seus passeios pela cidade e suas experiências gastronômicas e culturais. De quebra, ainda tem o fotolog Fotos Grampeadas, com imagens que ele faz, o que inclui registros de pratos elaborados. Agora, ele está em São Paulo e descreve cada dia das férias, com detalhes sobre onde comeu, o que assistiu, o que comprou, enfim, um diário mesmo. Como são o Soterópolis Sampa, de Paloma Guedes, e o Buko e Whisky, de Renato Gaiarsa, namorado dela. Deliciosos diários virtuais, compartilhados generosamente. Celso, conheço só de vista. Paloma e Renato foram colegas na especialização da Facom. É engraçada essa blogosfera.

In papo furado on Julho 25, 2008 at 7:03 pm

Pingüins perdidos vieram parar na Bahia. Um cara tentou ontem vender um deles por R$ 500. Comentei com um amigo e ele falou pra mim: “Ainda bem que ele não encontrou minha mãe, ela ficou louca para ter um”. Outro disse que queria um para colocar num cercadinho no alto da geladeira. Os pingüins estão em vantagem em relação aos humanos. Uma moça tentou vender a filha por R$ 5 a um traficante. Negociou com uma alma caridosa por R$ 15. A criança foi parar na Vara da Infância e Juventude. Os R$ 15 viraram crack.

Primeiras lições

In poesia on Julho 23, 2008 at 5:13 pm

Foi debaixo da máquina de costura
de minha mãe que eu aprendi a ler,
juntando uma letra na outra
numa revista em quadrinhos.

Quando o som da sílaba era enigma,
minha mãe freava o cerzir, em sua Singer antiga,
e vinha pra perto de mim, ensinar como o s pode soar como z
ou como faz o eleagá quando se junta com o a.

Depois, saindo de carro, com meu pai,
pela cidade, eu ia olhando os cartazes
e lendo os anúncios gigantes e as placas
nas portas dos bares. E ele, admirado,
perguntava pra minha mãe:
– Como ela aprendeu tão rápido?

Quando comecei a ler de verdade
foi como se engatassem um trem veloz nos meus trilhos,
e ele corresse com vontade, descortinando paisagens,
levando-me ao meu destino.

E.

In Música on Julho 22, 2008 at 12:36 am

Mania é coisa que a gente tem mas não sabe por que.
Mania de querer bem, às vezes de falar mal.
Mania de não deitar sem antes ler o jornal.
De só entrar no chuveiro cantando a mesma canção.
De só pedir o cinzeiro depois da cinza no chão.
Eu tenho várias manias, delas não faço segredo.
Quem pode ver tinta fresca sem logo passar o dedo?
De contar sempre aumentando, tudo o que diz ou que fez.
De guardar fósforo usado dentro da caixa outra vez.
Mania é coisa que a gente tem mas não saber por que.
Dentre as manias que eu tenho, uma é gostar de você.

(Manias, de Flávio e Celso Cavalcanti)

In Família, papo furado on Julho 21, 2008 at 11:28 pm

Arquivo Pessoal

Eu e minhas irmãs, Bárbara e Paula. Adoro essa foto. Foi feita pelo meu cunhado, Marcelo. Todo mundo meio alto e sorridente. Nada demais. As dívidas, as dúvidas de sempre. Só um encontro no meio da semana, sei lá quando, no barzinho da entrada do condomínio. Sequer sai comida decente. Só cerveja gelada e o acarajé da baiana. Mas não tem risco de blitz. Blitz só a dos anos 80, com Evandro Mesquita e Fernanda Abreu. “Eu penso e falo com muitas pessoas, mas parece que eu estou dormindo ainda com você” (O Beijo da Mulher Aranha). Tranqueira musical deliciosa. Enquanto escrevo o post, ouço “Aventura”, de Eduardo Dusek. “Te arrastei, estradas, desertos, botecos abrindo e a gente rindo. Brindando cerveja como se fosse champanhe”.

Tudo novo de novo

In Divagações on Julho 19, 2008 at 3:52 pm

Cores mais vibrantes, um fundo preto, letras brancas. Já usei este antes. Volto a ele na tentativa de dar uma animada. Tem gente que acha que o modelo fixa a imagem do blog. Prefiro agitar as coisas de vez em quando. Talvez, por isso, nunca tenha arriscado uma tatuagem. Cansaria dela rapidinho. Deus já me deu uma centena de sardas. Gosto delas, mas sei que muita gente torce o nariz. Gente com mania de perfeição não falta. Esses jamais adotariam Pee Wee Martini. Essa faixa aí em cima não lembra uma lona de circo? Combina com a foto do perfil, as cores da camiseta, a baiana de madeira sorridente. De repente, sorrir faz com que se fique feliz.

Portanto, peço-te aquilo…

In poesia on Julho 19, 2008 at 12:51 pm

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo…

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo…

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo…

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo…

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo…

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo…

O que usaremos prá isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e migo
Tempo tempo tempo tempo…

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo…

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo…

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo…

(Oração ao Tempo, Caetano Veloso)

Tocando em frente

In papo furado on Julho 18, 2008 at 4:51 pm

Estou lendo Borges, o primeiro volume das obras completas, e tentando escrever um romance de nome esquisito, “O coração de galinha”. Fico o dia inteiro com a história na cabeça, esperando oportunidade para desenvolver uma ou duas páginas. Vai lento, trabalhoso. Agora, por exemplo, imagino a cerimônia de cremação de um dos personagens. A certa altura, o irmão do morto se enche de coragem e decide recitar um poema. Escolhe justamente Borges, “Remorso por qualquer morte”, de “Fervor de Buenos Aires”.

Livre da memória e da esperança,
ilimitado, abstrato, quase futuro,
o morto não é um morto; é a morte.
Como o Deus dos místicos,
de Quem deve negar-se todos os predicados,
o morto ubiquamente alheio
não é senão a perdição e ausência do mundo.
Tudo dele roubamos,
não lhe deixamos nem uma cor nem uma sílaba:
aqui está o pátio que já não compartilham seus olhos,
ali a calçada onde sua esperança espreitava.
Até o que pensamos poderia estar pensando ele também;
repartimos como ladrões
o caudal das noites e dos dias.

Ao sair do cemitério, o personagem segue para o apartamento do irmão, onde tudo permanece à espera. Como cães domesticados, enfileirados nos armários, os ternos parecem aguardar o corpo cremado há pouco. Ele é apenas um intruso a percorrer o imóvel gigantesco, debruçado sobre a Baía de Todos os Santos. “Até o que pensamos poderia estar pensando ele também”. Imagina o irmão em seu minúsculo quarto-e-sala no Dois de Julho. Certamente, estaria considerando a possibilidade de doar suas quinquilharias. E ele, morto, deixaria ao outro muitos livros e pequenas dívidas.

In Divagações on Julho 17, 2008 at 10:41 pm

Sem muita coisa bacana para postar, sem inspiração. E gripada (a cabeça pesa meia tonelada). Fico até com vergonha das últimas postagens. Só tranqueira. Mensagens íntimas, poesias antigas, dança do quadrado, indignação. Vontade de dar um tempo. Talvez, mais um pouco. Vou pensar.

E.

In Divagações on Julho 16, 2008 at 1:59 pm

Descobri que uma noite perfeita para mim só precisa de uma coisa: você.

In poesia on Julho 16, 2008 at 1:23 pm

A minha avó era cega.
Dela, herdei a capacidade
de ver sem usar os olhos. E a paixão
por uns sambas antigos,
partido alto e dona Ivone Lara.

A minha avó era alta. Seus cabelos,
muito lisos e compridos,
envolviam a cintura.
Eram penteados com cuidado
todas as tardes, e presos em um coque.

Os seus vestidos, de tecido barato,
quase cobriam os pés. A minha avó
contava histórias de assombrar,
ensinava a amar certas canções
e fazia predições todo fim de ano.

Eu fugia com medo do futuro
e me escondia no quarto.
O presente me bastava,
com seus fantasmas,
e as notícias do mundo no Fantástico.

A minha avó gostava de beber aperitivo,
de mascar fumo e de me ouvir cantar
a música de um português chamado Hermes Aquino.
Poucos se lembram dele.
Poucos se lembram dela.
Poucos se lembrarão de mim.

A minha avó era cega.
Dela, herdei a capacidade de ver sem usar os olhos.

Hoje, sei lá, deu vontade de lembrar esse poema, escrito para minha avó Alice.

Só nos resta a dança do quadrado

In Divagações, jornalismo on Julho 16, 2008 at 3:46 am

Os três delegados da PF responsáveis pela prisão de Daniel Dantas (Protógenes Queiroz, Karina Murakami Souza e Carlos Eduardo Pelegrini Magro) foram afastados da operação Satiagraha. Ao juiz federal Fausto De Sanctis, segundo o G1, disseram que o afastamento foi forçado, o que foi negado de pronto por Tarso Genro no Jornal da Globo. Segundo Genro, a investigação da PF está 99,9% concluída. O 0,1% que falta deve ser descobrir quem são o João e a Letícia, candidatos beneficiados pelo poderoso “clube” de Dantas. Como canta o Skank, “a nossa indignação é uma mosca sem asas, não ultrapassa as janelas de nossas casas”.

Cada um no seu quadrado

In Falta de sentido da existência, Humor, Vídeos, Youtube on Julho 15, 2008 at 2:53 pm

Até a semana passada, eu desconhecia completamente a “Dança do Quadrado”. Como sempre, minha sobrinha de 11 anos veio em meu socorro, corrigindo essa grave falha. Mas, pensando bem, só falta atualizar a letra: “Ado, ado, Daniel Dantas, no seu quadrado. Ado, ado, Gilmar Mendes, no seu quadrado. Ado, ado, Eike Batista no seu quadrado…”

Para começar a semana

In preces on Julho 14, 2008 at 12:13 pm

Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar. Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça. Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições. E Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meu inimigos. Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo. São Jorge Rogai por nós!

In papo furado on Julho 13, 2008 at 8:54 pm

Que domingo, gente, que domingo. Só a Mega Sena, quase 18 milhões, resolveria meu dilema existencial. Nem mesmo o “Madame” me deixa feliz. Hoje não tem jeito. Então, peço licença a vocês e vou pro vício do Lime Wire. Comprei uns CDs pra gravar. Talvez, amanhã esteja melhor.

E por falar em cachorrada…

In jornalismo on Julho 12, 2008 at 3:47 pm

G1

O banqueiro baiano Daniel Dantas saiu pela segunda vez da cadeia graças a Gilmar Mendes, presidente do STF. Acesse o ingresia e conheça a comovente história do jornalista que não foi subornado.

Deu Gus

In Imagens, mea culpa, papo furado on Julho 12, 2008 at 3:18 pm

Fotos: Divulgação

Erramos feio no resultado do concurso do Cão Mais Feio do Mundo 2008. Na verdade, o vencedor deste ano foi Gus, de 9 anos, um cristado chinês diagnosticado com câncer de pele e sem uma das pernas traseiras. De qualquer modo, valeu mostrar a vocês o focinho torto de Pee Wee Martini, abaixo, que pela segunda vez consecutiva ficou em segundo na competição. Acho que a decisão foi meio injusta e levou em conta o fato de Gus estar doente. O prêmio é de R$ 2, 5 mil.

e.e.cummings

In poesia on Julho 12, 2008 at 12:16 pm

nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto.

Teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra,
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar,
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa.

Ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira.

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas.

Tradução: Augusto de Campos

Amor no hospício (Dylan Thomas)

In poesia on Julho 10, 2008 at 1:48 am

Uma estranha chegou
a dividir comigo um quarto nessa casa que anda mal da cabeça,
uma jovem louca como os pássaros,

que trancava a porta da noite com seus braços, suas plumas.
Espigada no leito, em desordem,
ela tapeia com nuvens penetrantes a casa à prova dos céus,

até iludir com seus passos o quarto imerso em pesadelo,
livre como os mortos,
ou cavalga os oceanos imaginários do pavilhão dos homens.

Chegou possessa,
aquela que admite a ilusória luz através do muro saltitante,
possuída pelos céus.
Ela dorme no catre estreito e, no entanto, vagueia na poeira
e, no entanto, delira à vontade
sobre as tábuas do manicômio, aplainadas por minhas lágrimas deâmbulas.

E arrebatado pela luz de seus braços, enfim, meu Deus, enfim,
posso, de fato,
suportar a primeira visão que incendeia as estrelas.

(tradução: Ivan Junqueira)

Amor bastante

In poesia on Julho 9, 2008 at 11:04 pm

Um bom poema
leva anos.
Cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto.

(Paulo Leminski)

Rehab

In papo furado on Julho 9, 2008 at 12:26 am

Quieto. Vamos ficar quietos. Só um pouquinho, combinado?

Um poema de Ana C

In poesia on Julho 6, 2008 at 7:07 pm

Há um poema de Ana C que dorme em mim. Feito uma criança pequena numa festa de adultos. Juntaram duas cadeiras e há umas almofadas de estrelas coloridas. Ele dorme e sonha com aquilo que conhece em seus 5 ou 6 anos. As formigas no pátio do prédio. Uma bola que saltou o muro. Os balões que levaram o padre para o céu [isso ele viu no Jornal Nacional]. No fundo de mim, pais recolhem o menino. E ele sente o sacolejo do carro na pista. Pára num semáforo. Roda, roda. Nunca chega. Eu poderia morar no poema a vida inteira. Uma casa com jardim sem cercas. Meu cachorro correndo para me contar o que viu em seu passeio matinal. Não diz coisa. Mas como falam seus olhos de cão. Põe o queixo em meu colchão. Observa. Tenho a impressão de que me conhece. Se pudesse falar, diria umas verdades na minha cara. Há um poema de Ana Cristina Cesar que [sabe?] me deixa louca.

Ternura

In poesia on Julho 6, 2008 at 1:08 am

Não sabia se ia voltar.
Engoli o comprimido azul e segui
os conselhos médicos. As luzes
passavam rápido, estrelas falsas no teto.
E, de tudo, só lembro o beijo
que ela deu em minha testa
quando deixei o centro cirúrgico.

Dendê

In poesia on Julho 6, 2008 at 12:36 am

Quando Dinha morreu,
alguém gritou de lá
“antes ela, do que eu”,
e fez piada do tacho vazio
no Largo de Santana.
A vida estava quieta, branca,
feito sexta-feira na Bahia,
e lembrei o pai,
perguntando ao médico
se, após a quimio,
poderia voltar a comer acarajé.

De bermudas e boné, o pai,
sambava sozinho entre a sala e a cozinha
e, na bebida, chorava meu avô:
“naquela mesa tá faltando ele”.
Alguma coisa mexia [uma tristeza?],
às seis da tarde da Ave Maria.
Vivíamos, os dois, naquele estreito.
E Dinha? Comia acarajé todo santo dia.

In papo furado on Julho 5, 2008 at 1:26 am

Tô achando tudo tão chato hoje. Pensei até em criar um outro blog. Criei. Vai morrer, coitado. Blog é que nem tamagochi. Lembra do tamagochi? Era um bichinho virtual que morria se não era alimentado pelo dono. Eu tive um. Também tive fofoletes. Mais de uma. Elas vinham em caixinhas de fósforos. Minha sobrinha de 11 anos me ensinou a baixar músicas na net. Virou mania, vício. Já baixei tanta coisa bacana. Várias canções de Ed Motta. Agora, ando louca por um Ipod. Finalmente, entendo o que faz as pessoas virarem quase autistas com fones. É que tudo é tão chato sem trilha sonora.

A pegada de Daniela

In Imagens on Julho 4, 2008 at 3:19 pm

Daniela Mercuri beija Aline Rosa, vocalista da banda “Cheiro de Amor” na boca.

In poesia on Julho 3, 2008 at 1:54 am

Ave Maria, cheia de ternura
Rogai por nós, eternos pecadores
Amenizai um pouco as nossas dores
Trazei-nos fé, em nossa desventura…

Ave Maria, deusa de doçura
Cheia de graça, mãe dos sofredores
Bendita sois, nos céus e nos andores
A nos guiar no vale da amargura…

Ave Maria, deusa onipresente
Que abençoais o mundo indiferente
Ao vosso olhar de compaixão e amor…

Bendita sois, Maria, Virgem Santa
Em vossa graça eterna e sacrossanta
Em vosso manto etéreo e protetor…

Gosto muito de orações. Esta “Ave Maria”, de Aramis Ribeiro Costa, está no livro “Espelho Partido”. Peguei no blog de Gerana Damulakis, o Leitora Crítica.

In poesia on Julho 2, 2008 at 12:57 am

Fosse menina,
desde sempre,
teria que arrumar os cabelos
louros, lisos, desli-z-antes.

Fosse menina,
desde sempre,
teria que fechar as pernas,
e usar calcinha.

Fosse menina,
lavaria o púbis, muito vermelho,
e não atiraria ao chão
restos de comida.

Fosse menina,
teria, desde sempre,
que usar um véu para cobrir o rosto.
Ou mais ainda

aprenderia todo dia
a ser menina um pouco.

In poesia on Julho 1, 2008 at 3:06 pm

Espero
com a paciência dos desesperados
que o destino teça seus dramas

Dama
às que Deus guardou na manga
para provar que existe e é bom

[quando eu já duvidava]

Não existem mais mistérios,
o meu aparelho é stereo e vai do jazz ao rock n roll

[e ouço poesia, todo dia, no volume máximo]